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Conheça Gustavinho, o 'Sócrates' do NBB que é torcedor fanático do Corinthians

Capitão e camisa 10 do Corinthians, que irá disputar pela primeira vez o NBB (Novo Basquete Brasil), o armador Gustavinho é fã do ex-jogador de futebol Sócrates. O atleta de 33 anos é envolvido em causas políticas e tem uma forte ligação com a equipe de Parque São Jorge desde a infância.

A ESPN e o WatchESPN transmitem com exclusividade o jogo entre Corinthians e Franca, às 20h (de Brasília).

Apesar de ser filho de um palmeirense, ele tornou-se torcedor alvinegro por influência do avô e dos primos. Aos 15 anos, foi junto com mais quatro amigos para o Rio de Janeiro ver a final do Mundial de Clubes contra o Vasco, vencida pelo Corinthians nos pênaltis.

"Conseguimos os ingressos porque ele tinha contato com alguns jogadores. Eu tinha ido ver todos os outros jogos do Mundial. Foi aquela coisa de louco, uma vibração gigante e calamos o Maracanã. Foi incrível", recordou Gustavinho, ao ESPN.com.br.

"A única exigência dos nossos pais era ir sem a camisa do Corinthians. Depois do jogo a gente foi comer um hot dog e teve uma puta briga entre corintianos e vascaínos, mas para nossa sorte não estávamos com uniforme. Poderia ter sobrado para gente (risos)", contou.

Uma das grandes referências de Gustavinho é Sócrates, falecido em 2011. Além de ter sido um dos maiores jogadores da história do clube, o meia era conhecido por sua forte politização.

“Ele é um oásis no esporte. É um ídolo que tenho por toda representatividade que teve em um período muito difícil que o Brasil vivia. Ele se posicionava, algo muito difícil. Ele tinha a inteligência e a coragem para isso em tempos de repressão. Eu não o vi jogar, mas sabia que era um craque de bola e me interessei demais pela história dele. A 'Democracia Corintiana' é um marco no esporte. Tem que servir de exemplo", afirmou.

A inspiração no "Doutor" fez com que o armador tomasse algumas medidas assim que chegasse ao Parque São Jorge.

"Falei com o [treinador] Bruno e sabia que ele tinha o perfil democrático e abria as escolhas com os jogadores. Brinquei que íamos montar a 'Democracia Corintiana' no basquete. Por isso entrei fiz o gesto [com o punho para cima] e homenageei o Sócrates”, relatou.

Politização no Esporte

A idolatria por Sócrates também se reflete no engajamento de Gustavinho em causas politicas. "Pouca gente se posiciona no esporte. Sempre que possível temos que nos posicionar nestes tempos difíceis que vivemos", analisou.

O armador comandou um protesto dos jogadores do time alvinegro contra uma medida provisória que iria retirar verba destinada das loterias federais para a cultura e o esporte e investir na segurança.

Caiu bem o manto sagrado #corinthians #basquete #camisa10 #saravá

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"Vi o presidente Andrés Sanchez dando uma entrevista contrário à medida. Então, fizemos uma faixa: ‘esporte + cultura = segurança’. Entramos com ela e uma camisa preta na final na Liga Ouro contra o São Jose e foi um sucesso", relatou.

Após esta ação, ele decidiu colocar em prática outra ideia: homenagear a ex-vereadora Marielle Franco (PSOL), que foi assassinada neste ano, no Rio de Janeiro.

"Um dia estávamos falando em um churrasco da morte da Marielle com um amigo meu artista plástico. Ele fez depois uma apresentação para mim sobre o [artista plástico] Cildo Meireles, que na época da morte do [jornalista] Vladimir Herzog [assassinado em 1976] criou um carimbo ‘Quem matou Herozg?’ e colocou nas notas de Cruzeiro [moeda da época]", disse.

Capitão do Corinthians, Gustavinho decidiu que se levantasse o título da Liga Ouro utilizaria a camiseta feita pelo amigo.

"Vencemos o São José e foi bonito. Neste caso foi apartidário, foi algo de direitos humanos. Não tinha como alguém ser contra por todas as bandeiras que ela levantava", relatou.

Às vésperas das eleições presidenciais no Brasil, o armador diz que os atletas conversam sobre a situação política do país.

"O cenário está assustador. Claro que essa polarização é ruim, cega os argumentos e não estamos tendo um debate político, mas de ódio. Acho alarmante a quantidade de pessoas que podem achar aceitável tortura. Não pode existir nada pior", criticou.

"Eu escuto algumas brincadeiras de que sou o Sócrates do basquete (risos). Eu defendo bandeiras como liberdade de expressão e as causas LBGT. Isso pode até dar alguma polêmica, mas acho importante gerar essa discussão", disse.

Mais louco para o bando, Democracia 2018 @corinthians #basquete #ligaouro2018

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Começo no Pinheiros

Natural de São Paulo, Gustavinho começou praticando vários esportes em uma escolinha, mas optou pelo basquete aos 11 anos. “Fui chamado para o Pinheiros para jogar basquete pelo Beco e conhecia outros que tinham ido para lá e fui muito por causa dele”, disse.

Durante a base, o armador era conhecido pela enorme dedicação, a ponto de treinar até depois das “luzes do ginásio serem desligadas”.

Aos 16 anos, o garoto foi chamado pelo técnico Marcel para completar os treinamentos da equipe profissional.“Eu comecei a jogar com ele. Depois de três treinos, ele me disse que conseguia jogar de igual para igual e fui inscrito nos campeonatos. Foi aí que acreditei que poderia ser jogador”.

"O João Rossi, que hoje é o presidente da Liga, gostava muito do meu estilo de jogo e me deu muitas chances. Foi muito bom para mim. Eu tinha sido eleito melhor jogador juvenil do ano e estava com confiança exacerbada. O Pinheiros não ia jogar o profissional no ano seguinte, mas achava que teria várias propostas”, lembrou.

Após o começo do Nacional, Gustavinho ficou sem clube por alguns meses. Ele foi fazer testes no Joinville por indicação de um ex-colega de equipe.

“Treinei e depois de dois dias recebi uma oferta para ficar. Eles contrataram o técnico Alberto Bial logo em seguida, que me perguntou: ‘Você aguenta a bronca?’ Eu respondi que sim. Ele mandou o armador titular embora e me efetivou”, relatou.

🥉#jubs2017

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Ídolo em Mogi

Depois de uma temporada e meia, voltou ao Pinheiros por mais quatro anos. Por causa de uma cirurgia no joelho, porém, perdeu espaço na equipe e foi para o Mogi das Cruzes.

“Era uma aposta porque o time estava no Torneio Novo Milênio. Fui ver o jogo e peguei um puta trânsito e cheguei bem irritado ao ginásio. O time estava perdendo por 20 pontos para o Piracicaba e estava um frio danado. Só que tinha mais de 1.500 pessoas gritado o jogo inteiro, era incrível. O time foi tirando a vantagem e ganhou de virada”, afirmou.

O armador assinou com a equipe e virou ídolo da torcida. “Depois, fomos campeões da Supercopa Brasil e entramos no NBB. Três anos depois, jogamos a final do Sul-Americano com um ginásio lotado. A cidade respirando basquete e foi coisa de louco! Foram quatro anos maravilhosos na minha vida”.

No último ano, ele perdeu espaço com uma lesão nas costas e não teve seu contrato renovado. “Foi bem frustrante porque tinha uma identidade gigante com a cidade e com o time. Tinha comprado a ideia do zero e chegamos à final do Sul-Americano”, lamentou.

Gustavinho foi para o Caxias do Sul, que chegou aos playoffs do NBB de 2016 logo em sua temporada de estreia, sendo eliminado pelo Brasília nas oitavas de final.

Em 2017, o armador foi convidado por Alberto Bial para defender o Basquete Cearense. Depois de uma temporada em Fortaleza, Gustavinho voltou para São Paulo e ficou mais perto de sua mãe, que estava com câncer.

“Ela era minha maior incentivadora, ia todos em todos os jogos que podia. Queria estar perto dela. Recebi propostas, mas tentei negociar com times do São Paulo, mas não deu certo”.

Youtuber e faculdade

Nos seis meses sem clube, ele passou a ser youtuber no "Canal Chuá" - que fala sobre basquete - e voltou a fazer faculdade de educação física com o objetivo de trabalhar daqui uns anos na área técnica do basquete.

Além disso, treinava - junto com outros jogadores desempregados - com seu irmão Ricardo, que é preparador físico.

“Minha mãe acabou falecendo e logo depois surgiu a proposta do Corinthians. Muita gente fala que isso foi ela mexendo os pauzinhos lá em cima. Tudo acabou dando certo, é meu time de coração. Depois de um período difícil pude dar a volta por cima”, afirmou.

Gustavinho virou capitão e líder da reconstrução do clube alvinegro, que teve em seu passado nomes como Wlamir Marques e Oscar Schmidt, mas que estava há mais de 20 anos sem uma equipe de basquete.

Ele ajudou o time a faturar a Liga Ouro e a conseguir uma vaga no NBB de 2018.

Um dos nomes que ajudou o atleta a aceitar a proposta corintiana foi Eduardo Agra, comentarista de basquete da ESPN.

“Conheço o Agra há bastante tempo e o admirava. Ele foi um pouco meu mentor nos últimos anos e me aconselhou a ir para o Corinthians. Eu tinha até propostas melhores financeiramente, mas ele me incentivou muito. Sou eternamente grato porque estou vivendo um sonho”, ressaltou.

“Nossa torcida é fantástica, até mesmo em Campina Grande tinham vários caras nos incentivando na última Liga Ouro. Nunca jogamos fora de casa. Queremos jogar de igual para igual com qualquer equipe. A torcida espera muita luta e isso não vai faltar. Podemos dar trabalho no NBB", concluiu.