Se pudesse escolher, Oscar Schmidt não faria questão de ser lembrado pelos troféus que ergueu, as medalhas que ajudou a conquistar, nem mesmo os milhares de pontos que anotou ao longo de uma carreira lendária nas quadras do mundo.
Talvez nem fosse importante para ele que o apelido de “Mão Santa” - que faz jus à inacreditável capacidade de converter arremessos como se a bola de basquete não conhecesse outro destino - se tornasse conhecido pelas próximas gerações.
O que Oscar relatava com orgulho e os olhos brilhando sempre que alguém lhe perguntava sobre sua relação com o basquete era o nível de obsessão que alimentou uma vida inteira de suor, lágrimas e cestas.
A vida de Oscar, a pessoa, era uma eterna repetição de decisões tomadas para que Oscar, o cestinha, fosse uma máquina de pontos em quantidades assustadoras.
Na fase europeia de sua carreira, Oscar passava as noites com o uniforme de treino por baixo do pijama, para dormir o máximo possível. Voltava do treino com o pijama por baixo da roupa, para sair da mesa do almoço direto para a cama. E assim, sucessivamente, dia após dia, ele aperfeiçoou seu ofício como um escultor permanentemente insatisfeito.
A trajetória perfeita de seus arremessos de três pontos, fonte dos pesadelos de quem tentou evitá-los em competições de clubes ou nas edições dos jogos olímpicos em que ninguém na história marcou mais pontos do que ele, é resultado, antes de qualquer coisa, da repetição maníaca de um superdotado, mais uma prova do que acontece quando o talento e o trabalho se encontram.
Essa é a lembrança que Oscar escolheria. A paixão que gerou tantos fãs pelo mundo que alguns viriam a ser ídolos, como ele. Kobe Bryant era um menino e vivia na Itália quando Oscar atuou no país. Também um discípulo do treinamento obsessivo, Kobe fez questão de se encontrar com Oscar quando esteve em São Paulo, em 2016, e soube que o jogador que ele aplaudiu quando criança enfrentava um câncer no cérebro.
Em algum lugar, ambos estão reunidos numa quadra celestial, entre arremessos incessantes e histórias sobre o jogo que eles amavam mais do que tudo.
