<
>

Pugilista lidou com morte do pai em chacina antes de se tornar campeão dos nocautes e um dos 'nerds' do ringue

play
Nerds do Ringue: Academia reúne fãs de quadrinhos e games e também o atual campeão brasileiro dos pesados (4:40)

Pugilista Igor Adiel enfrentou um verdadeiro pesadelo na infância antes de se tornar um representante de The Fighting Nerds (4:40)

Academia tem como marca registrada o mundo nerd e histórias como a de Igor Adiel, campeão brasileiro dos pesos pesados


Igor Adiel, 29, faz parte de um grupo onde há fãs de xadrez, games, quadrinhos, matemática, química e, alguns como ele, até sabem as falas da saga Harry Potter de cabeça. Eles foram “queridinhos” de professores e alvos de outros alunos na infância, quando detestavam ser chamados de 'nerds'. Hoje, na vida adulta, se orgulham em formar The Fighting Nerds.

Este é o nome do grupo do qual o pugilista faz parte e que treina na Combat Club, no bairro da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, sob o comando de Pablo Sucupira, 41, técnico e também proprietário do local.

Foi Sucupira quem escolheu o nome inusitado ao buscar uma forma de diferenciar os próprios pupilos.

“Para mim, não faz sentindo o nerd ser mal visto porque o nerd nada mais é que o cara dedicado, profissional, que dá resultado. A gente tenta trazer essa imagem boa sobre ser nerd. E a fragilidade associada aos nerds a gente está tirando porque aqui tem um monte de lutador brucutu, porradeiro, bom de briga”, disse o treinador, que também se assume 'nerd'.

“Sou fã de quadrinhos e games, até hoje. Na verdade, toda a pessoa que se dedica, que gosta de estudar, que enfrenta os próprios medos com coragem e evolui é também um Fighting Nerd. Temos até um jeito próprio de comemorar nossas vitórias: é a pose do nerd. Sempre pós-luta, quando é hora da comemoração, a gente olha pra câmera e segura os óculos”, acrescentou.

A academia na Barra Funda reúne diversas modalidades de lutas e vêm ficando mais conhecida por causa do conceito e também pelo sucesso dos integrantes, como Igor Adiel, que está há dez anos no local e é o atual campeão brasileiro dos pesos pesados.

“Recentemente, também tivemos o sucesso do Caio Borralho, que assinou contrato com o UFC”, disse Sucupira sobre o atleta maranhense de 28 anos, que em entrevistas admitiu que o lado 'nerd' estava na paixão por química e matemática.

O PESADELO DO CAMPEÃO

O currículo nerd do peso pesado Igor Adiel é até mais detalhado.

“Era muito nerd na infância. Era gordinho, e a galera me zoava. Meu negócio não era esportes. Era videogame e estudar. Sentava na primeira fileira, puxava o saco da professora. Sou viciado em matemática e em Harry Potter, além de xadrez”, disse.

Por trás dessa história divertida, há uma outra dura e pesada. Adiel lidou ainda na adolescência com um verdadeiro pesadelo.

“Com 16 anos, perdi meu pai. Na época, minha mãe estava com dificuldades em São Paulo e mandou eu e minha irmã ficarmos com ele em Belo Horizonte até as coisas melhorarem. Fiquei um ano… Em um 26 de dezembro, ele morreu numa chacina”.

“O que eu lembro? Ele estava no lugar errado, na hora errada e com as pessoas erradas. Eu estava perto dele quando ele morreu. Ele não me viu. Quando começaram os tiros, eu me escondi. Quando parou, alguém falou: ‘Igor, seu pai está lá’. Eu sai de onde estava escondido e vi que era meu pai mesmo… Foi muito difícil”, lamentou o pugilista.

Na época, Adiel acabou voltando a morar com a mãe, que não o deixou cair em depressão. Sem muita ideia do que fazer, ele tentou carreira no futebol e no basquete por causa da estatura (tem 1,93 m), até que um desconhecido lhe apresentou o caminho do boxe.

“Eu trabalhava como mecânico em uma oficina de carros e um dia apareceu um lutador de kickboxing chamado Lincoln. Ele falou: ‘Você tem tamanho, tem altura. Já pensou em lutar?’. Eu sempre tive o interesse, mas nunca tinha tido a oportunidade. Depois de uns três meses, ele voltou com um panfleto de uma academia e disse que o dono me daria 50% de bolsa”, disse Adiel.

COMO MAGUILA

Aos 17 anos, Adiel começou a treinar. No ano seguinte, subiu ao ringue pela primeira vez, ainda como amador, e venceu. Foram mais de 30 lutas até se profissionalizar, o que acabou ocorrendo durante o ano de 2017.

Mais de uma década depois, Adiel celebra feitos que impulsionam a carreira a outros desafios. É o atual detentor do cinturão brasileiro dos pesos pesados, mesmo título que no passado foi da lenda Adilson Rodrigues Maguila.

"Uma vez fizeram uma homenagem para ele e eu fui convidado. O mesmo título que ele teve eu tenho. Se alguém perguntar quem é o campeão brasileiro dos pesados, sou eu: Igor Adiel", disse, orgulhoso.

O pugilista paulistano também tem números para se orgulhar ostenta dez vitórias por nocaute em 11 lutas como profissional. Por conta disso, alguns fãs se referem a ele como o "campeão dos nocautes". A única derrota de Adiel veio na última luta de 2021, quando se apresentou pela primeira vez fora do Brasil. Perdeu por pontos para o russo Sergey Kuzmin, em Moscou.

Mas a meta do pugilista sempre foi bem clara: “Todo lutador tem o sonho de ser campeão do mundo, né?”, disse.

Missão que não é nada simples. No Brasil, apenas Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino Freitas, o Popó, Valdemir dos Santos Pereira, o Sertão, e recentemente Patrick Teixeira conseguiram alcançar essa glória.

A dificuldade não é apenas pelos adversários que estão pelo caminho, mas pela falta de estrutura que qualquer esportista no Brasil, nerd ou não, acaba enfrentando ao tentar viver do esporte como profissional.

No caso de Adiel, ele divide o tempo entre os treinos e as lutas com a profissão de personal trainer e também trabalhando em carros, um hobby que virou profissão e que o fez criar um canal no YouTube.

“O mais difícil é se manter treinando todos os dias, descansando o tempo certo. Eu não vivo só do boxe. Eu tenho que trabalhar por causa da questão financeira”, disse, sem perder a esperança.

“O boxe me ajudou a esquecer o que aconteceu com meu pai, a estar bem encaminhado, a estar do lado do bem. Foi essencial na minha vida. Minha mãe também foi peça crucial. Até hoje ela é minha ‘mãetrocínio’ e está ali comigo, me apoiando todos os dias”.

O sucesso nos ringues virou também uma conexão com o pai, que não viu em vida o filho lutar.

"Depois de alguns anos lutando, um tio me ligou e disse "O sonho do teu pai, quando você era criança, era te colocar para lutar boxe, acredita?’ Caraca… eu fiquei ainda mais apaixonado pelo boxe. Depois fiquei sabendo que meu pai curtia muito e treinou um tempo. Se ele estivesse vivo, sei que ele me acompanharia em todas as lutas. Essa é a nossa conexão", finalizou.