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Micale, 1º técnico a recuar Neymar na seleção, revela como foi conversa olho-no-olho para fazer mudança

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Ao longo dos anos, o atacante Neymar foi, pouco a pouco, mudando seu posicionamento em campo, tanto nos clubes quanto na seleção brasileira.

Se no início da carreira ele se destacava jogando aberto pela esquerda, posição em que brilhou no Santos e no Barcelona, o craque foi, gradualmente, sendo recuado, passando a atuar quase como um meia, que é como ele desfila hoje pelo PSG e pelo Brasil, destacando-se de forma notável na disputa da atual Copa América.

O primeiro técnico a experimentar um Neymar mais recuado foi Rogério Micale, o treinador que levou a seleção à conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 e que atualmente está sem clube, após deixar o Al-Hilal, da Arábia Saudita, em maio deste ano.

Após um péssimo começo de torneio, no qual os adversários triplicaram a marcação sobre Ney e travaram o Brasil, forçando empates por 0 a 0 contra África do Sul e Iraque, Micale decidiu que precisaria mexer profundamente na estrutura da equipe, ou a tão sonhada medalha jamais viria.

Em entrevista ao ESPN.com.br, ele recordou como foi que teve a ideia de mudar a posição do camisa 10 e admitiu que ficou tenso antes de conversar com o atacante para saber se ele topava atuar como meio-campista durante a participação brasileira nos Jogos do Rio 2016.

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"Nós estávamos com muita dificuldade nas jogadas de enfiada de bola na Olimpíada. Tínhamos o (meia) Felipe Anderson, que foi convocado justamente para fazer essa função, mas, nos primeiros dois jogos, não fizemos gols", rememorou Micale.

"Achávamos que deveríamos ser mais incisivos. Mas como mexer no Neymar, que era o melhor jogador do Brasil e sempre jogou naquela posição, pela ponta? Como será que ele receberia essa possível mudança de função e posição?", questionou.

Micale, então, contou detalhes de como foi a conversa "olho-no-olho" que teve com Neymar, e exaltou a excelente receptividade que teve por parte do astro para ser recuado para o meio-campo.

"Eu estava conversando com o Odair (Hellmann, auxiliar-técnico) e com o Renato Augusto depois do jantar em Salvador quando o Neymar desceu. Começamos a conversar e entramos nesse assunto. Chegamos à conclusão de que nossa equipe tinha muitos finalizadores, mas precisávamos tirar o Neymar daquela posição, porque ele estava muito marcado na ponta. Ele até tirava a primeira marcação, mas sempre tinha uma sobra e ele batia na 'parede'", relatou.

"Para a minha surpresa, o Neymar tinha a mesma forma de pensamento, e achou que seria interessante fazer algo assim. Foi tudo muito tranquilo. Ele recebeu a conversa muito bem. Com isso, colocamos o Luan na equipe, pois ele estava jogando como falso 9 no Grêmio. Nos treinos pré-Olimpíada, a gente trabalhava os 15 minutos finais com quatro atacantes, mas aí decidimos aplicar isso de vez", contou.

Depois da conversa franca, Micale alterou o Brasil, que passou a jogar com Walace e Renato Augusto como volantes e Neymar tendo total liberdade para "flutuar" na faixa entra o meio-campo e o ataque.

Na linha de frente, por sua vez, Luan entrou como falso 9, com Gabigol e Gabriel Jesus pelos lados. Com constantes trocas de posição, a artilharia brasileira ficou infernal, e a seleção deslanchou rumo à medalha de ouro.

"A gente saiu de um trabalho posicional na equipe para uma estratégia mais anárquica. Com a chegada do Neymar para reforçar o time sub-23 na Olimpíada, eu alterei um pouco a formação para que ele atuasse na posição dele no Santos e no Barcelona. Mas, depois da conversa franca que tivemos, fiz a mudança na formação com o Luan de falso 9 com liberdade. Foi assim que fizemos uma partida fantástica e ganhamos por 4 a 0 da Dinamarca no último jogo da fase de grupos, que foi o que garantiu nossa classificação para os mata-matas", recordou o treinador.

"Em torneios curtos, você precisa resolver os problemas na hora, porque se você for mais conservador, corre o risco de perder. A partir daquele momento, critou-se uma expectativa não somente na seleção, mas nos clubes do Neymar. Com o tempo, ele passou a atuar muito mais vezes naquela posição mais recuada, e agora está consolidado nessa forma de jogar, tanto na seleção quanto no PSG. Pode notar que agora raramente ele atua aberto pelo lado esquerdo, como era antes da Olimpíada", finalizou Micale.