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Reconstruindo o vestiário do 7 a 1: como Brasil acreditou que 'ainda dava' e não ouviu Felipão

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Felipão 'obsoleto', Neymar fora e 'muletas': no aniversário do 7 a 1, relembre análises de Mauro Cezar que antecederam Brasil x Alemanha (3:05)

Na véspera do confronto com a seleção alemã, o comentarista disse que a equipe de Scolari não poderia se comportar como 'pobrezinha' (3:05)

Exatos seis anos se passaram desde o dia 8 de julho de 2014. Nessa data, a seleção brasileira viveu o maior vexame de sua história, goleada por 7 a 1 pela Alemanha diante de 58.141 torcedores, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, na semifinal da Copa do Mundo.

Uma derrota que, desde então, já foi tema de debates de mesas redondas a botecos; analisada por quem só acompanha futebol de quatro em quatro anos ou por quem vive do esporte diariamente – incluindo, os jogadores que estiveram em campo naquele fatídico dia.

É nas explicações desse segundo grupo que o ESPN.com.br se debruçou em mais um aniversário do massacre alemão. Mais especificamente sobre as declarações que reviveram aproximadamente 60 minutos, do apito inicial à ida ao vestiário e os 15 de intervalo.

Afinal, o que passava na cabeça de quem viveu o 7 a 1 em campo, do momento que Thomas Muller abriu o placar aos 11 minutos do primeiro tempo à volta para a segunda etapa, já com o placar em 5 a 0 para os europeus – que acabariam tetracampeões do mundo dias mais tarde?

O 'vamos fechar' que faltou

Um relato em comum entre jogadores que falaram sobre como a seleção brasileira reagiu diante do passeio alemão foi o de que faltou “lucidez”, palavra utilizada pelo zagueiro Dante, para entender o que acontecia. Talvez, “se fechando”, como indicaram Fred e Júlio César, o placar da desvantagem seria menor no intervalo, e uma eventual virada, ainda possível.

“Eu lembro que estava 2 a 0 e, preocupado, falei: ‘Calma, gente. Vamos fechar um pouco a casinha’. E a gente só falava em ‘vamos virar, vamos virar’. Eu acho que nós, dentro de campo, tínhamos que ter tido mais maturidade de enxergar que estava tudo errado”, disse Fred, com a experiência da Copa do Mundo de 2006 no currículo, em 2019, à “TV Globo”.

“A gente estava tomando amasso... Recuar um pouco, equilibrar, porque até no segundo tempo, a gente poderia virar. E não: a gente tomou 1 a 0, ‘vamos virar’; 2 a 0, ‘vamos virar’. E acabou o primeiro tempo tomando 5 a 0”, complementou o hoje atacante do Fluminense.

"Faltou uma clareza na cabeça de todos os jogadores. De ler a situação, saber o que estava acontecendo. Depois do primeiro gol, a gente tentou; depois do segundo gol, desandou. Passou um filme na cabeça de todos, 'nós não podemos perder essa Copa', 'vamos que vamos', 'a gente é Brasil'... Aquilo se tornou contra a gente”, lembrou Dante, à ESPN, em 2016.

“Futebol não é só emoção. Vamos para uma guerra? Vamos. Mas não é só porque seus soldados são fortes que podem ir. Vamos ter uma estratégia. Se o primeiro cair, vamos ter outra estratégia, vamos ter calma, vamos segurar", completou o hoje jogador do Nice-FRA.

“Até hoje eu me pergunto: ‘Eu, o mais experiente do grupo, poderia ter chamado o time: olha, 3 a 0, vamos fechar aqui, tentar se reorganizar, para depois no intervalo acertar e voltar para o segundo tempo tentando”, disse o goleiro Júlio César, também à ESPN, neste ano de 2020.

Palavras como essas também vinham do banco, segundo o zagueiro Henrique. “A gente tentava falar para segurar, para fechar, para se organizar de novo”. Mas foi tudo em vão.

'Temos que acreditar que dá'

O fato é que, sem se fechar, o Brasil desceu aos vestiários do Mineirão com cinco gols de desvantagem. Como Júlio César definiu, “buscar um placar de 3 a 0 é diferente de 5”, mas, ainda assim, para alguns jogadores, era possível virar. “A falta de lucidez continua”.

“É complicado. Por mais esperançoso, otimista, que você seja, pegar uma semifinal contra a Alemanha, com jogadores consagrados, que jogam juntos há muito tempo, você virar um jogo de 5 a 0. Pode acontecer, ok. Mas era muito difícil. E 3 a 0 a gente já viu coisas no futebol... É muito mais esperançoso, digamos, do que cinco”, afirmou o goleiro titular, hoje aposentado.

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O relato mais detalhado sobre os discursos do vestiário foi de Dante. Segundo ele, o tom entre os jogadores era motivacional. É dele também o diagnóstico sobre a ausência de clareza...

"É aquela coisa de dizer assim: ‘o que aconteceu?’, ‘temos que lutar mais’, não sei o quê... Aí depois, surgem vozes: ‘Temos que acreditar que dá’... Entendeu? Pode dar, sim. Mas você tem que ter um pouco mais de frieza para dizer: ‘Olha, vai ser muito difícil’.”, relembrou.

“Então, vamos começar da base, começar tudo de novo, fechado primeiramente, não tomar gols e, na hora que pudermos fazer um, dois ou três, nós vamos sair. Mas não continuar...”

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Dante revela como foi intervalo do '7 a 1', abre discurso de Felipão e diz que alguns ainda acreditavam na virada

Na semifinal da Copa de 2014, seleção sofreu goleada histórica para a Alemanha

Henrique, em outra entrevista à ESPN, em 2018, escolheu a palavra “hombridade” para descrever o sentimento do vestiário na volta para o segundo tempo. Nas entrelinhas, porém, confirmou que, apesar do “baque grande”, o pensamento de “tentar reverter” permanecia.

“Todo mundo estava sem reação alguma, sem falar alguma outra coisa, porque estava 5 a 0. Era complicado, mas a gente sabia que podia lutar. No futebol, muita coisa pode acontecer. Foi um baque grande nesse intervalo. Sabíamos que tinha que ter hombridade para terminar aquele jogo e tentar fazer o máximo para tentar reverter ou chegar a outro resultado.”

'Não dá para virar'

As declarações nos seis anos que sucederam o 7 a 1 não deixam dúvida: nem todos no vestiário brasileiro acreditavam que “dava” para virar. Luiz Felipe Scolari era um deles.

“Felipão tentou, foi um cara que nos ajudou para caramba. Foi um treinador que falou: ‘Pessoal, a gente viu que está tudo (não encontra a palavra)... Vamos esquecer esse primeiro tempo, vamos voltar... Com calma’", recordou Dante, em memória que confirma a do técnico.

“Eu acho que, no intervalo, eu disse: ‘Tomem posições defensivas, posições de organização tática, com calma, porque não dá para virar um 5 a 0 em uma partida internacional’. Posicionamento, correções, vamos ver se conseguimos equilibrar mais. Já era. Infelizmente, aconteceu”, afirmou ele, em 2020, ao site inglês “Yellow and Green Football”.

Mas Dante lembra que as orientações foram em vão... “Aqui dentro (no peito) já estava vazio. É aquela coisa. O negócio era aquela emoção que queríamos dar tanto ao povo brasileiro. Sabíamos que estávamos perdendo, que não conseguiríamos a dar essa alegria para eles."

Posições defensivas? “Continuamos atacando no segundo tempo como se tivesse o jogo talvez só 1 a 0. A falta de lucidez continua. Não sabíamos mais o que falar, como agir”, seguiu Dante.

“O que mais me deixou surpreso foi essa atitude de alguns jogadores, até falar ‘vamos que dá’. Sim, nós sabemos que pode ser que façamos seis gols. Mas a realidade, a frieza de interpretar as coisas, era importante. Você quer tanto uma coisa, que não aceita perder. E continua errando", encerrou o zagueiro, que veria a Alemanha marcar mais duas vezes no segundo tempo – nos acréscimos, Oscar diminuiu para o Brasil e definiu o 7 a 1. Há exatos seis anos.