Hugo Calderano vinha batendo um a um seus rivais no tênis de mesa nas Olimpíadas de Paris 2024. Passou por quatro oponentes de forma convincente até chegar às semifinais nesta sexta-feira (2), quando encarou a sensação sueca Truls Moregardh, perdeu por 4 sets a 2 e deu adeus à chance de medalha de ouro – ainda disputará a de bronze. Mas quem é o jovem europeu de 22 anos que está ‘varrendo geral’ em Paris?
Antes de derrubar o brasileiro, ele já havia eliminado simplesmente o mesatenista número 1 do mundo, o chinês Wang Chuqin.
Truls Carl Eric Moregardh nasceu em Hovmantorp, na Suécia, em 16 de fevereiro de 2022, e vem chamando a atenção por ser uma das maiores estrelas jovens da modalidade. Atualmente em 26º, o atleta já foi o terceiro colocado no ranking masculino, em outubro de 2022.
Moregardh chegou aos Jogos após ser campeão europeu com a Suécia em 2023 e sonha em repetir o desempenho de um de seus maiores ídolos, Jan-Ove Waldner, um dos maiores mesatenistas da história e que foi medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona (Espanha), sendo o único não asiático a conquistar o feito.
Uma das grandes marcas registradas do jovem é o quão emotivo ele é durante as partidas, o que serve, como ele mesmo já apontou, para buscar alguma vantagem psicológica contra os melhores jogadores do mundo. Isto foi perfeitamente demonstrado quando eliminou Wang Chuqin, o número 1 do mundo, e em seguida caiu de joelhos, demonstrando todo seu choque com o que tinha alcançado.
Entretanto, a demonstração pelos seus sentimentos nem sempre é positiva. Da mesma forma que Truls é eufórico na vitória, ele também costuma não aceitar tão bem a derrota. É rotineiro que, depois de um revés, o sueco atire a sua raquete no chão, ou mesmo do outro lado da mesa, como fez durante o Mundial de 2021, contra o sul-coreano Lim Jonghoon.
Fora das Olimpíadas, ele também coleciona boas performances, tendo sido bronze no Mundial de 2018 com a equipe sueca [não chegou a jogar] e prata no Mundial de 2021 no individual. Ele também foi campeão sueco em 2019 e 2021.
Conhecido por usar a empunhadura do aperto de mão, Truls se destaca por usar uma raquete hexagonal ao invés da tradicional redonda, bem mais comum, da marca sueca Stiga. Segundo ele, o formato não ortodoxo é maior no topo da raquete, o que dá mais facilidade e gera mais poder a cada golpe.
Seu sucesso no esporte, entretanto, é tudo, menos inesperado. O sueco vem de uma família de mesatenistas e, quando criança, praticava tênis, futebol e tênis de mesa. Seu início no esporte que se tornaria sua profissão se deu inicialmente em casa, aos seis anos, quando jogava em uma minimesa. Eventualmente, começou a seguir seu irmão mais velho, Malte, aos treinamentos dele no clube local e se apaixonou pelo esporte.
Então, quando mais velho, Truls Moregardh acabou optando por focar no tênis de mesa, e sua família via seu potencial. Eles se mudaram de Hovmantorp, a pequena cidade natal do atleta, com pouco mais de 3 mil habitantes, para Eslov, para que ele pudesse ter acesso a mais estrutura para seguir seu treinamento em um dos melhores clubes do país, o Eslovs AI BTK, que já foi campeão nacional 13 vezes.
A dedicação foi tanta, inclusive, que a família permitiu que o jovem desistisse da escola aos 16 anos, após cumprir toda a grade curricular obrigatória na Suécia, para focar única e inteiramente no tênis de mesa.
E o investimento e o apoio foram bem recompensados. Moregardh coleciona feitos, como sendo o mais jovem jogador a disputar uma Champions League, com apenas 14 anos, e sendo também o jogador pior ranqueado a chegar a uma final mundial, quando foi prata, tendo entrado no campeonato na 77ª posição do ranking.
Hoje em dia, Malte, seu irmão mais velho, que ajudou a introduzi-lo no esporte, é seu técnico e, inclusive, estava presente na vitória sobre Hugo Calderano. É justamente do ambiente familiar que Truls tirou sua marca registrada: a comemoração fazendo a pose de Hércules. Segundo o próprio mesatenista, é a mesma celebração que seu pai fazia quando vencia os filhos em casa. E foi após cruzar olhares com seu progenitor que Truls fez a pose pela primeira vez em público. Porém, mesmo com tantas conquistas, o caminho de Moregardh até às Olimpíadas não foi nada fácil. A Suécia teria apenas três vagas masculinas para serem preenchidas para o torneio. Mesmo com o sucesso de Truls, o compatriota Anton Kallberg subiu nos rankings e o ultrapassou por uma posição, sendo então o melhor sueco da lista, conseguindo a primeira vaga automaticamente. A segunda seria ocupada por Kristian Karlsson, que se classificou nas duplas mistas, ocupando uma das vagas.
Então, a estrela Truls Moregardh competia com o já experiente Mattias Falck pelo posto de segundo melhor mesatenista nos rankings mundiais. Ambos ficaram nervosos, sentiram a pressão e tiveram desempenhos abaixo do esperado, mas, no fim, o jovem de 22 conseguiu prosperar e garantir sua vaga em Paris.
Então, já no torneio, Moregardh juntou seu estilo ortodoxo, seus momentos emotivos e o apoio da família, principalmente do seu irmão, para uma performance histórica não só para ele, como para seu país. Sua apresentação contra Wang Chuqin foi tão especial que sua namorada, Leah Tveit Muskantor, também mesatenista e que estava na Suécia, pegou um voo até Paris para parabenizá-lo. A vitória também garantiu que, pela primeira vez desde 2004, em Atenas (Grécia), a China não fique com o ouro e a prata no quadro de medalhas da modalidade.
Agora, o que Truls Moregardh tem pela frente é a história. Ele enfrenta o chinês Fan Zhendong no próximo domingo (4), às 9h30 (horário de Brasília). Caso vença, pode se tornar o segundo medalhista de ouro não asiático da história da modalidade, além de continuar o legado do seu ídolo, o ‘Mozart do tênis de mesa’ e seu compatriota, Jan-Ove Waldner.
