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Considerado o último revolucionário do rádio esportivo, José Carlos Araújo, o Garotinho, revela o segredo da juventude

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José Carlos Araújo apresenta sua rotina no rádio, digna do apelido Garotinho (1:35)

Especial "Coisas de Garotinho" é o quinto documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 29 de julho, na ESPN (1:35)

Em julho, os canais ESPN apresentam cinco documentários com os “big five” da história do rádio brasileiro. São eles: Milton Neves, José Silvério, Pedro Ernesto Denardin, Osmar Santos e José Carlos Araújo, o Garotinho.


Você gosta do Garotinho? Era assim que iniciávamos qualquer conversa no Rio de Janeiro para ouvir histórias de José Carlos Araújo, personagem de “Coisas de Garotinho”, o quinto e último documentário da série especial da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil.

É chover no molhado dizer que todos os entrevistados manifestaram enorme simpatia pelo locutor, que tem a cara e o jeito do Rio de Janeiro. Foi o mesmo que sentimos nos três encontros que tivemos com ele durante as gravações.

De cara ele nos surpreendeu pela simplicidade. Nos recebeu sorridente, amigável e agitado na Super Rádio Tupi, no centro do Rio, em um sábado de transmissão. Ele estava prestes a entrar no ar para irradiar do estúdio a partida entre Ceará e Flamengo pelo Campeonato Brasileiro.

Mesmo assim fez questão de nos mostrar toda a rádio, passando pela redação, pelos estúdios mais usados e até por um que estava prestes a ser inaugurado.

Depois nos apresentou aos colegas da Tupi, falou da rotina de trabalho, da empolgação que sente ao transmitir jogos e interagir com o público. Parecia um garoto mostrando aos amigos o local onde trabalha, entusiasmado como se estivesse em começo de carreira.

Foi um encontro que ganhou ainda mais significado para nós quando descobrimos que o locutor não muda por nada a rotina em dias de transmissão. Ele é muito metódico e focado no trabalho. Costuma chegar ao local de trabalho pelo menos três horas antes de a jornada esportiva começar. Gosta de se preparar, ler e reler as notícias, conversar com os repórteres, revisar os textos comerciais...

Justamente por entender nosso trabalho e que nosso tempo no Rio era curto foi que abriu a exceção de nos receber.

O encontro acrescentou muito ao documentário, pois fomos novamente surpreendidos. Diante do repórter cinematográfico Marcelo D’Sants, Garotinho revelou para a ESPN o que carrega na mala que o acompanha em todas as transmissões.

É um verdadeiro kit emergencial de trabalho. São dois rádios de pilha, um maior para ser colocado sobre a mesa e o outro pequeno para acompanhá-lo onde o locutor for. Ambos servem em casos de emergência, quando o jogo é transmitido do estúdio e a energia simplesmente acaba.

Garotinho também leva consigo diversos papéis com anotações, cada um separado por um assunto. Tem um com os nomes dos parceiros comerciais. Outro com o dos ouvintes para quem vai mandar abraços no ar. Mais um com as informações da partida. Também tem separado o nome do time de transmissão. Cola todas as anotações na mesa de transmissão com uma fita adesiva, outro item do kit.

O locutor chega a ser tão organizado que fica irritado quando algo foge do controle ou com as travessuras dos amigos radialistas. Gérson, o Canhotinha de Ouro e campeão do mundo em 1970, tinha o costume de colocar os papéis dele em cima dos de Garotinho só para provocá-lo…

É entusiasmante ver José Carlos Araújo se preparando para trabalhar e falando sobre seu trabalho. Isso sem falar na generosidade. Não faltaram abraços a nossa equipe quando ele já estava no ar.

Um garotão de 82 anos

A frase é de Washington Rodrigues, o Apolinho, um dos monstros sagrados do jornalismo no Brasil e também um dos mais fiéis companheiros de José Carlos Araújo.

Eles estão juntos desde o final dos anos 60, com alguns breves hiatos por mudanças de emissoras de um ou de outro. Apolinho foi primeiro repórter e depois comentarista.

Ele sabe o que diz quando afirma que o amigo ainda hoje é um garotão de 82 anos.

José Carlos Araújo vive intensamente o trabalho de locutor. Quando não está no ar divide a rotina entre compromissos com parceiros comerciais de longa data e novos anunciantes.

Também usa o tempo livre para cuidar do corpo, com academia quase todos os dias e caminhadas pela praia, e da alma, tendo como companhia a esposa Deise Mazziotti, em uma união de quase 60 anos.

É cuidadoso com a alimentação e com a voz, evitando pipoca, casca de maça, bebidas geladas e destilados. São ensinamentos que aprendeu na prática e também com as aulas da professora alemã de canto Hilde Sinnek.

Com todas atividades e tanta disposição, ele faz jus ao apelido Garotinho, uma criação de outro monstro sagrado do jornalismo, o repórter Denis Menezes.

Assim como Apolinho, com que formou a dupla de trepidantes da Rádio Globo nos anos 70, Denis foi um parceiro fiel de José Carlos Araújo. Ele deu o apelido ao amigo por um motivo curioso.

“Zé Carlos sempre teve péssima memória para nomes. Então, ele chamava todo mundo de garotinho ou garotinha, independentemente da idade. Aí eu disse que ele era o Garotinho”, relembrou Denis.

“Eu me lembro que pegou, e o Haroldo de Andrade chegou para mim e disse: ‘Isso vai ser sua marca. Procure preservá-la e registrá-la’. Foi o que fiz no INPI, em 1982”, disse Garotinho.

Mas José Carlos Araújo não está livre de sustos, afinal é um homem idoso. Na madrugada de 11 de julho, mais de um mês depois das nossas gravações, ele sofreu um infarto e passou por um cateterismo cardíaco. Não teve nenhuma sequela e retornou ao trabalho uma semana depois.

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Ídolos, jornalistas e concorrentes falam o tamanho do locutor José Carlos Araújo, o Garotinho, para o rádio

Especial "Coisas de Garotinho" é o quinto documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 29 de julho, na ESPN

Coisas de Garotinho

Depois do primeiro encontro na Tupi, estivemos com Garotinho mais duas vezes. Ele nos recebeu numa quarta-feira, no luxuoso condomínio onde reside na Barra da Tijuca.

Lá, nos presenteou com uma entrevista de mais de duas horas. Revelou a origem humilde na Vila Isabel, bairro da zona norte do Rio, o interesse pela locução esportiva graças as partidas de futebol de botão, e o início da carreira no rádio em 1954, em um programa musical infantil.

O que impressiona é que mesmo ciente do quanto foi importante para a comunicação, especialmente por conduzir o que para muitos foi a última revolução na linguagem e no jeito de transmitir eventos esportivos pelo rádio, Garotinho não é vaidoso.

Prefere elogiar os mestres, como Waldir Amaral e Jorge Curi.

Aliás, ele nem se considera tão importante assim. Encara cada nova transmissão como se fosse uma Copa do Mundo. Aos 82 anos, também revelou que não tem um plano para encerrar a carreira. Quer estar no rádio até o final da vida, que ele espera que seja longa.

O último encontro nosso com ele ocorreu também no dia em que estávamos nos despedindo do Rio com 15 entrevistas na bagagem, muitas histórias divertidas e reveladoras e a conquista de um novo amigo. Garotinho nos atendeu para gravar cenas dele dirigindo seu carro pela cidade e cantando sucessos de Roberto Carlos, um dos tantos truques que aprendeu com a professora Hilde para aquecer a voz.

José Carlos Araújo é um homem que presa muito o que faz. Cada passo que dá é devidamente cronometrado e planejado. Ao mesmo tempo, ele é um sujeito inquieto. Tem praticamente todos os dias ocupados com atividades profissionais e outras diferentes. Também é simpático e procura dar atenção a todos. Características que, somadas ao talento como comunicador, explicam tamanho sucesso.

A jovialidade e a energia dele acabaram nos inspirando ao escolher “Coisas de Garotinho” como o nome do último documentário especial pelos 100 anos de rádio no Brasil.

Assista

"Coisas de Garotinho, com José Carlos Araújo". Já disponível no Star+.

Estreia na ESPN em 29 de julho, às 23h55 (de Brasília).

A série especial

Ao todo, são cinco especiais feitos pela ESPN em homenagem aos 100 anos de rádio no Brasil.

O primeiro deles é "Miltons e suas paixões, com Milton Neves". Os outros são "José Silvério, o Menino Chato", "Pedro Ernesto, o Locutor Vovô", "Osmar Santos e os irmãos do rádio" e "Coisas de Garotinho, com José Carlos Araújo".

Todos serão exibidos na última semana de julho na ESPN (de 25 a 29) e estão disponíveis no Star+.