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Milton Neves: Um gigante do rádio rico, polêmico, briguento, generoso e infeliz

Os canais ESPN apresentam cinco documentários com os “big five” da história do rádio brasileiro. São eles: Milton Neves, José Silvério, Pedro Ernesto Denardin, Osmar Santos e José Carlos Araújo, o Garotinho.


Miltons e suas Paixões...

Para mergulhar na história da vida de Milton Neves Filho, 70, é preciso se despir de todo e qualquer tipo de preconceito.

Não é um exercício fácil, mas necessário para os dias de hoje onde as pessoas julgam as outras sem o mínimo conhecimento e com toda a autoridade de um juiz.

Como diz aquele velho ditado, as aparências enganam. Com Milton não foi diferente.

Confesso que no início eu e o jornalista Rafael Valente, profissional com o qual dividi toda a reportagem, produção e roteiro dos cinco documentários da série especial pelo 100 anos de rádio no Brasil, estávamos ressabiados com o que iríamos encontrar, além do que os companheiros, ávidos em analisar todo tipo de trabalho jornalístico, comentariam.

Optamos por, como sempre, nos dirigir ao personagem principal para tentar extrair dele o melhor de sua história profissional e humana.

Antes de mais nada é preciso se livrar de julgamentos precipitados como: “Esse cara só pensa em dinheiro”. Ou: “Ele não faz jornalismo, faz publicidade”. Ou ainda: “Vocês vão dar espaço para um reacionário que defende políticos indefensáveis?”

Mas insistimos na ideia de produzir um documentário de Milton Neves para tentar ajudá-lo a lidar com uma depressão profunda, que toma conta dele desde o falecimento da esposa Lenice Neves, em 30 agosto de 2020, vítima de um câncer fulminante.

Milton também é um gigante da história do rádio, o que o credencia a fazer parte das homenagens dos canais ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil.

Então, prepare-se para se surpreender...

De volta à terra amada, Muzambinho

Muita coisa mudou na vida de Milton Neves nesses últimos 40 anos como comunicador. Mas a querida e pacata Muzambinho, cidade do sul de Minas, situada a 300 km de São Paulo e de Belo Horizonte, continua oferecendo a mesma paz dos tempos de infância.

O que mudou para o filho da terra é que ele ficou famoso, milionário, dono de fazendas, imóveis, prédios e empreendimentos, que são verdadeiros novos bairros que surgem na vizinha Guaxupé, onde planta café e têm milhares de cabeças de gado.

Nossa viagem rumo a cidade tão falada por Milton em seus programas de rádio e TV começou partindo de Alphaville, em Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo, onde o comunicador vive com o filho mais velho, Rafael Eduardo.

A convite de Milton, viajei no mesmo carro que ele, acompanhado por outro carro, este com os demais membros da nossa equipe de reportagem, com o jornalista Rafael Valente e o repórter cinematográfico Nelson Batista.

No trajeto de pouco mais de três horas de viagem, conheci um cara que não deixa ninguém falar. Milton parece uma metralhadora, com inúmeras histórias que fazem parte das mais de cinco décadas dedicadas por ele ao jornalismo esportivo.

Ansioso, vaidoso, bravo, enfim, tudo passou pela minha cabeça até chegarmos à fazenda em Guaxupé onde tudo ficou ainda mais confuso.

Assim que desembarcou do carro Milton desabou a chorar. Tudo porque desde a morte de Lenice ele não voltava à fazenda que ela tanto amava e cuidava com carinho, afinal era o maior símbolo de uma conquista de uma família que praticamente saiu de Muzambinho com uma mão na frente e outra atrás e, depois de anos, desfrutava de conquistas inimagináveis para um casal simples do interior.

Milton entrou no casarão e por lá ficou por meia hora. Nos disse que ficou na frente do quarto que dividia com Lenice chorando e lembrando de sua companheira por 48 anos.

Ali entendemos que aquele documentário do qual ainda não havíamos começado a gravar poderia ser uma ferramenta para levantar a autoestima de um cara que tinha todo o dinheiro do mundo para ser feliz, mas que se encontrava profundamente entristecido, frágil e perdido.

Para nos recompor, fomos até o centro de Muzambinho. Conhecemos as ruas onde Milton cresceu, a escola onde estudou, a igreja que tanto frequentou e ouvimos as aventuras que ele teve naquela cidade antes de conhecer a fama em São Paulo.

Por lá tivemos a ideia de contratar um carro, daqueles que fazem propaganda sonora pelas ruas, com um microfone para falar ao vivo.

Em seguida, Milton entrou no carro e, com o microfone na mão, encontrou o antídoto que o fez reviver os anos dourados da própria infância, desfilando no centro da cidade, com palavras de amor e carinho por Muzambinho, além de parar por várias vezes para abordar os amigos que ele não falava há anos, alguns décadas.

Ali, conhecemos o “Mirtinho Bolão”, um homem apaixonado pelo rádio, pela terra natal e, claro, pela amada Lenice.

Guardião da memória e dos aflitos

Milton Neves começou a carreira no rádio em Muzambinho cobrindo o que fosse necessário. Tentou a sorte em Curitiba, mas não deu certo. Foi em São Paulo, onde foi aprovado em um vestibular para um curso de jornalismo, que a história mudou.

Ao se mudar para a cidade paulistana, conseguiu um emprego na rádio Jovem Pan, onde ficou cobrindo o trânsito durantes os primeiros anos. Um encontro inesperado com Osmar Santos, já um dos locutores principais da rádio, no Detran, ajudou o comunicador mineiro mudar de editoria. Passou a cobrir notícias de esportes.

Milton Neves nunca mais trocou de editoria. Ganhou espaço, ganhou relevância e virou um dos grandes comunicadores da crônica esportiva do Brasil. Quase 30 anos depois, começou também a trabalhar em televisão, primeiro na TV Band. Depois, na Record.

Para este documentário, foram entrevistadas 28 pessoas, que nos deram detalhes da trajetória de Milton Neves, seja do começo aos dias atuais. Alguns são amigos do comunicador e até hoje têm divergências de ideias, como Vital Battaglia, ex-companheiro de Jovem Pan, e Paulo Calçade, com quem trabalhou na Record.

O empresário Milton Neves vai muito além dos contratos publicitários e do homem do rádio. Há quase 20 anos, ele tem sido um dos pouquíssimos jornalistas do Brasil preocupados em manter viva a memória do nosso esporte.

Com o portal “Que fim levou”, o apresentador do Grupo Bandeirantes mantém vivos ídolos ou até os anônimos atletas do passado de todos os esportes.

Claro que o futebol é o seu carro-chefe, tanto que, por intermédio dessas histórias publicadas no site, Milton acaba auxiliando ex-jogadores e até jornalistas que passam por dificuldades de saúde ou financeira.

Com dinheiro do próprio bolso, Milton ajudou na reforma da casa do ex-goleiro e ídolo do Botafogo, Manga, que desde 2020 vive com a esposa Cecília no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro. Outro exemplo foi dado ao pagar o aluguel da ambulância que levou Régis Pitbull, ex-atacante de Ponte Preta, Corinthians e Vasco, até a clínica para dependentes químicos em Jaboticabal, interior paulista. Lá, o ex-jogador teve uma internação involuntária por causa da dependência química em crack.

Mas o apoio mais nobre vai para a Associação dos Voluntários Muzambinhenses no Combate ao Câncer, em Jaú, também interior de São Paulo, onde os conterrâneos de Muzambinho e região são recebidos de graça para tratarem essa doença cruel.

Jornalismo x Publicidade

Dizem que Milton não entende nada de futebol e política. No futebol, testemunhamos que Milton tem memória fantástica, quase fotográfica, pois conhece todas as escalações dos grandes esquadrões do Brasil dos anos 1960 para cá.

Mas se tem uma coisa que Milton conhece muito, além de fazer rádio ao vivo, é fechar contratos de publicidade onde trabalha.

Assim fez fortuna atuando na rádio Jovem Pan, na TV Record e, desde 2000, no Grupo Bandeirantes. Por causa dos acordos publicitários, Milton é criticado por muitos jornalistas que enxergam conflitos de interesses entre as duas profissões.

Milton não liga pra isso, pelo contrário. Hoje mais ativo como publicitário do que como apresentador, segue sua vida trabalhando, não tanto quanto anos atrás, quando ficava em média 16 horas no trabalho, mas bastante para quem está próximo de completar 71 anos.

Obcecado pelo trabalho, Milton não viu os seus três filhos crescerem, Rafael, Fábio Lucas e Milton Netto, além de suas duas netinhas, filhas do ex-repórter Fábio.

No documentário muitos colegas de profissão como: Paulo Calçade, Ricardo Capriotti, Cláudio Carsughi, Vital Battaglia, entre outros, opinam sobre os prós e contra de se trabalhar com jornalismo e publicidade ao mesmo tempo.

Além de histórias saborosas de jornalistas como Paulo Vinícius Coelho (PVC) e Renata Fan contando como Milton Neves foi importante em suas carreiras profissionais.

Nesses tempos de pandemia, Milton passa parte dos dias da semana em seu escritório na avenida Paulista e em sua mansão em Alphaville, onde faz questão de cuidar das cachorrinhas de sua amada Lenice.

Para tentar superar a falta da esposa, o apresentador finalmente concordou com os filhos que pedem, desde a perda da mãe, para que o pai faça terapia.

Um caipirão de coração

É claro que o documentário “Miltons e suas Paixões” não será capaz de trazer um raio-x da vida particular e profissional de um cara do tamanho de Milton Neves, mas certamente o especial trará um outro ponto de vista do apresentador, um cara de 1,90 m de altura que perdeu 25 kg com a morte da esposa e que chega à terceira idade muito triste e depressivo.

Se existe um remédio para tanta fragilidade, o antídoto só pode ser o microfone. É lá, durante seis horas interruptas, todos os domingos, que Milton Neves se realiza e realiza sonhos em forma de resgate dos grandes ídolos do futebol.

É também com o microfone na mão que ele se apresenta forte, com relação à memória e o passado do rádio e do futebol e vulnerável, quase como um ignorante quando teima em falar de política ou criticar algum desafeto que ele escolheu pra chamar de seu inimigo momentâneo.

Assim é Milton Neves, um astro do rádio. Um cara doce, ácido, inteligente, generoso e frágil, como todos nós....

Assista:

“Miltons e Suas Paixões" já disponível no StarPlus

Estreia na ESPN em 26 de julho, às 1h00 (de Brasília).

A série especial

Ao todo, são cinco especiais feitos pela ESPN em homenagem aos 100 anos de rádio no Brasil. O primeiro deles é "Miltons e suas paixões, com Milton Neves". Os outros são "José Silvério, o Menino Chato", "Pedro Ernesto, o locutor vovô", "Osmar Santos e os irmãos do rádio" e "Coisas de Garotinho, com José Carlos Araújo".

Todos serão exibidos na última semana de julho na ESPN (de 25 a 29) e estão disponíveis no Star+.