Maior destaque da seleção brasileira masculina e artilheiro dos Jogos Olímpicos de Tóquio, com cinco gols marcados, Richarlison é uma das maiores esperanças de conquistar a segunda medalha de ouro consecutiva para o país. O Brasil enfrentará a Espanha na decisão do futebol, neste sábado.
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Antes disso, porém, o atacante passou por momentos bastante complicados e conseguiu superar as dificuldades.
"Eu sou de Nova Venécia, interior do Espírito Santo. Eu trabalhava vendendo picolé e bombom na rua. Também já trabalhei por um dia em lava-jato, limpando carros. Fiquei pouco, porque era pesado demais, não aguentei (risos). Mas eu tinha que ajudar em casa. Eu estudava de tarde e de manhã trabalhava. De vez em quando ia com meu avô para a roça", disse, em entrevista à ESPN, em 2018.
"Eu aprendi muita coisa nessa época. A dar valor para a vida. Tudo se conquista trabalhando na dedicação e na humildade. É preciso dar o melhor de si".
Richarlison usava os horários vagos para poder se dedicar ao seu sonho. "Comecei com 10 anos na escolinha do Régis, na minha cidade. Era difícil ir até lá. O treino mais pesado era de segunda, em que tínhamos que correr 9 km em uma avenida e sempre ia feliz com meus companheiros", contou.
"Fiquei até os 16 anos, quando fui fazer testes no Avaí e no Figueirense. Fiquei um mês em cada clube, mas não passei. No Avaí, me disseram que o grupo estava fechado e não iria entrar e nem sair ninguém. No Figueirense, o treinador ficou em dúvida entre eu e um outro colega, que foi escolhido. Fui mandado embora no dia do meu aniversário. Foi o aniversário mais triste da minha vida. Eu pensei em desistir, mas tive pessoas que me ajudaram demais. Foi onde surgiu o Real Noroeste", explicou.
"Joguei a Copa Espírito Santo sub-17 e sub-20. Fui artilheiro com 16 anos e surpreendi muita gente. Muitos ficaram de olho em mim e o clube queria assinar contrato. Fui para casa para depois assinar contrato, mas no dia que fui voltar, estava na rodoviária e o ônibus atrasou uns 20 minutos", disse Richarlison, que ficou na equipe do Espírito Santo.
"Eu fui para o ginásio de esportes, onde estava tendo uns jogos e encontrei com um amigo chamado Teco. Ele tinha sido mandado embora do Real Noroeste e disse que não era pra eu assinar porque iria perder tempo. Nisso, eu mudei de ideia. Foi Deus quem colocou esse menino na minha vida. Porque se tivesse assinado com o Real, acredito que estaria por lá ate hoje", comemorou ele.
O jovem recebeu algum tempo depois uma nova oportunidade que mudou sua vida.
"Fiquei treinando mais um tempo, mas não tinha onde morar. Meu pai morava na roça e não tinha como ir treinar porque era muito longe. Nisso, eu fui ficar na casa do meu tio Elton. Minha tia estava viajando para o Rio de Janeiro e ele falou para eu ficar lá. Estava torcendo para minha tia não voltar logo, senão eu tinha que ir embora porque a casa era pequena. Nessa época, o Régis, da escolinha, marcou uma avaliação para mim no América-MG".
Richarlison embarcou para Belo Horizonte sem saber se teria como voltar. "Fui em um domingo e cheguei segunda de manhã. Eu não tinha dinheiro para voltar para casa porque tinha gasto o pouco que tinha em comida. Fui apenas com a passagem de ida. Fui com o pensamento de passar mesmo. Dei a vida. E com três treinos, eu fui aprovado. Ele ficou encantando comigo porque eu realmente fiz belos treinos", lembrou.
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Depois disso, o atacante se destacou e chegou rapidamente ao time principal. "Fui morar no alojamento da base e fiz só quatro jogos no sub-17. Fazia 17 anos que o América não era campeão e ganhamos do Atlético-MG na final. Fiz o segundo gol e sofri um pênalti também. Já assinei o primeiro contrato e fui ao Sub-20, mas não joguei a Copa São Paulo porque as inscrições tinham acabado. Fiz sete jogos pelo Mineiro e o Givanildo Oliveira (técnico) e o Claudinho Prates (auxiliar) me pediram para completar um treino do profissional", contou.
"Da minha chegada ao América até estrear no time principal foram cinco meses. Neste primeiro jogo, estava 'nervosão'. Era a primeira vez que eu estava jogando com torcida no estádio. Assim que entrei, me deu um frio gigante na barriga. Passou muita coisa na cabeça. Lembro que o Marcelo Toscano chutou, a bola bateu no zagueiro e consegui fazer o gol. Naquela hora eu corri e comemorei demais", relembrou ele, que balançou as redes logo em seu primeiro jogo como profissional.
Em seis meses, ele ajudou o América-MG a conseguir o acesso à primeira divisão do Brasileirão e passou a ser especulado em inúmeros clubes, mas acabou indo para o Fluminense no início de 2016. "Todo dia agradeço por ter passado por essa fase no América. Tinham muitos times atrás de mim, como Palmeiras, Corinthians, Inter, Grêmio e de fora também como Basel e Porto. Mas o Fluminense veio com a melhor proposta para mim e também para o América, que aceitou. Agradeço demais ao Fluminense porque foi um clube que me ajudou demais".
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No clube do Rio de Janeiro, teve alguns problemas de lesão e só passou a ganhar espaço com a chegada de Abel Braga, em 2017. E foi sob o comando do treinador que viveu sua maior alegria no futebol brasileiro. "Meu gol contra o Flamengo na nossa vitória por 2 a 1 foi especial demais. A Taça Guanabara que fomos campeões em cima deles, não tem nada melhor. Não consegui dormir", lembrou.
E quando vivia sua melhor fase no clube, acabou negociado. Em 31 de julho de 2017, o Fluminense confirmou a venda do atacante ao Watford por 12,5 milhões de euros (cerca de 46 milhões reais à época). Seu início na Inglaterra foi arrasador, com uma ótima temporada de estreia, ajudando o Watford a se manter na primeira divisão.
Em seguida, foi contratado pelo Everton e também virou presença constante na seleção brasileira principal. Campeão da Copa América em 2019 e vice em 2021, ele foi chamado para os Jogos Olímpícos de Tóquio.
Humilhação ao pai serviu de motivação
Com infância bastante humilde, uma das diversões de Richarlison era pescar. E foi assim que, com um engano seu, viveu algo que jamais será esquecido.
"Teve uma vez que um cara humilhou meu pai porque ele morava numa casa que era alugada. Sem querer, eu fui pescar numa lagoa que o dono da casa não tinha liberado. O peixe fisgou e o cara viu. Daí, ele humilhou meu pai na minha frente. Aquilo me deu uma força danada. Eu estava na base do América-MG e aquilo mexeu comigo. Falei para o meu tio Elton que isso não iria ficar assim. 'Vou dar uma casa para o meu pai e tirá-lo desta situação. Ele não precisa passar por isso'".
E o objetivo do garoto não demorou a ser realizado. "Eu consegui dar essa casa logo no meu segundo contrato no América-MG. Eu renovei e falei que era para reservar uma casa para o meu pai na nossa cidade. Foi uma felicidade muito grande para mim. Uma das coisas que mais admirei ter feito na vida foi ter dado essa casa. Por causa da humilhação que meu pai passou", finalizou.
