Rebeca Andrade arrastou dezenas de pessoas para o vão do Masp, no meio da Avenida Paulista, em plena quinta-feira à noite. Foi a pré-estreia do novo documentário da maior medalhista olímpica da história do Brasil: "A história que só Xico pode contar - Rebeca Andrade, pelo olhar de seu técnico".
Como o nome indica, o curta, que vai ao ar nesta sexta-feira, às 12h (de Brasília), no Youtube da Adidas, conta a história da ginasta a partir da perspectiva de Francisco Porath, treinador que a acompanha desde 2006.
As gravações ocorreram ao longo de 2025, ano sabático da tricampeã mundial. Após a exibição, Rebeca conversou com jornalistas.
"São 20 anos de ginástica batendo o tempo todo meu pé no solo, os joelhos, em todos os aparelhos, enfim. Eu falei 'meu corpo não precisa mais disso'. Eu não preciso provar mais nada para ninguém, sou uma pessoa muito realizada, trouxe muitas medalhas para o meu país, tenho todos os resultados que eu gostaria de ter a minha carreira. Eu tenho muito orgulho de mim", admitiu a atleta.
"Eu consigo ter o meu momento de lazer, de estar com os meus amigos, com meu cachorro, de visitar minha família e mantendo os treinos também, lógico que de uma forma muito mais leve e focando muito mais na academia e na parte de fisioterapia, mas sempre movimentando o corpo, porque eu sei que eu não vou parar. Ano que vem o corpo precisa lembrar de tudo que eu preciso fazer. Eu estou bem feliz, de verdade mesmo. Se eu estiver feliz e amando o que eu estou fazendo, mas ter certeza que vai dar tudo certo'', comentou.
Rebeca Andrade é ausência certa no Mundial de Ginástica Artística que acontece em outubro na Indonésia. Apesar de não competir, a atleta estará na torcida pelas companheiras do sofá de casa.
"Claro que eu gostaria de ter mais uma medalha, mas eu pensei 'a que preço?'. Será que o meu corpo vai aguentar? Será que eu vou continuar treinando? Pode ser que não aguente [mesmo com a pausa] também, mas pelo menos eu vou ter certeza que eu me priorizei'', explicou.
A lista de quatro atletas que vão disputar a competição entre os dias 19 e 25 do próximo mês ainda não está fechada, como comentou o treinador Xico.
"O Mundial ainda é aquela incógnita. A gente pensa em levar cinco meninas, uma reserva''.
Rebeca Andrade indicou que deve voltar às competições em 2026, mas não quis fazer promessas. A única decisão já tomada é que não vai mais competir no solo, aparelho em que foi coroada campeã olímpica em Paris 2024. Com isso, ela também fica fora das disputas de individual geral.
Questionada se o foco agora será medalhas na trave e nas barras assimétricas, a ginasta foi direta.
''Tem muita coisa pra acontecer ainda e se tiver que vir, vai vir. Se não vier, também está tudo certo. Eu já sou muito feliz'', pontuou.
O documentário mostra a relação que Rebeca e Xico desenvolveram ao longo dos anos, dentro e fora da ginástica. O treinador, inclusive, foi responsável por grande parte da gravação e das entrevistas. Além de Xico, a atleta chegou a morar com a técnica Keli Kitaura
"Eles tiveram que criar uma responsabilidade para criar outras crianças que não eram seus filhos e eles tiraram de letra'', comentou Rebeca.
O curta retrata ainda as lesões sofridas pela ginasta. Foram três cirurgias no joelho, as quais a fizeram cogitar desistir da ginástica.
"A terceira vez foi a mais difícil, porque o Xico e a minha mãe não tinham mais argumentos para eu voltar. Eu questionava 'será que a ginástica é para mim?', porque eu não aguentava mais", desabafou a guarulhense de 26 anos.
Xico, por sua vez, admitiu que carregou uma grande culpa após o terceiro problema no ligamento cruzado anterior da pupila.
"A última lesão foi bem pesada, eu entrei no meu apartamento, fiquei na sacada com tudo apagado, curtindo minha fossa, e foi a Rebeca que me levantou. E aí como equipe a gente disse 'não vamos errar de novo', e deu certo".
Por fim, Rebeca fez questão de demostrar seu apoio às futuras gerações, manifestando seu desejo de criar o "Instituto Rebeca Andrade" para trabalho de base.
"A ginástica não acaba comigo, não acaba com as meninas do meu ciclo. A gente precisa de novos talentos, novos potenciais. Eu estou sempre torcendo pelas meninas e querendo o melhor para elas, tentando usar a minha voz para fazer o melhor, porque eu já tive o melhor da geração que passou e eu quero que elas tenham ainda mais da minha geração depois quando eu parar", disse aos jornalistas presentes após a exibição do filme. Ela, inclusive, admitiu que acha divertida as comparações com a promessa Julia Coutinho, de 16 anos, apelidada nas redes sociais de "filha da Rebeca Andrade".
Os convidados do evento passaram por família, amigos e influenciadores. Na plateia, ainda tinham 15 integrantes da equipe de ginástica rítmica das Olimpíadas Especiais Brasil, chamados especialmente pela estrela da noite. Rebeca conheceu as atletas Érika Rayssa e Carolina Limongi Silva quando elas se apresentaram na cerimônia de gala do Mundial de Ginástica Rítmica que aconteceu em agosto no Rio de Janeiro. As Olimpíadas Especiais acontecem de quatro em quatro anos e são voltadas especialmente para esportistas com deficiência intelectual.
