Faz quatro meses que pai e filho se reúnem e discutem uma ideia que, se der certo, pode mudar a história do tiro com arco no Brasil. Eles querem produzir arcos de PVC para reduzir o custo inicial de quem está começando na modalidade e, assim, tornar o acesso ao esporte mais democrático.
Um dos idealizadores do plano é o professor de educação física Jean Machado, 38, que é técnico da seleção de tiro com arco do Mato Grosso do Sul. Hoje, ele está em Brasília com dois atletas para a disputa dos Jogos da Juventude, competição olímpica entre os estados brasileiros destinada a atletas de até 17 anos.
A ideia surgiu a partir do contexto que Jean Machado encara no dia a dia.
“A realidade no Mato Grosso do Sul é bem diferente de outros Estados que investem mais na modalidade. A capital Campo Grande está localizada bem no centro do estado, e a cidade mais próxima está a 60 km. A seguinte, a 80 km. Depois, a 100 km. Ou seja, são poucas cidades e todas são muito distantes umas das outras. E, quando a gente vai falar com uma prefeitura, quando tenta iniciar um projeto com tiro com arco, tudo gira em torno de dinheiro”, disse Jean.
Segundo ele, o equipamento básico necessário para iniciar na prática do tiro com arco pode ultrapassar R$ 4.000. O cálculo foi feito com base em experiências recentes nos projetos sociais que ele já coordena.
“Um ‘arco escola’, básico, oficial, está em torno de R$ 2.000, R$ 2.500. Só o arco. Uma dúzia de boas flechas custa em torno de R$ 800. Ainda tem o protetor de braço, o protetor de dedo e outros acessórios. Somando tudo, falamos de um investimento de R$ 3.000 a R$ 4.000”, explicou.
“E isso considerando um material básico, mas funcional porque quando se avança para o nível competitivo, quando o arco passa a ser intermediário ou oficial, os valores aumentam bastante. Podemos falar de arcos que vão de R$ 7.000 até R$ 21.000. Ou seja, o céu é o limite”, disse Jean.
A realidade acaba sendo cruel, pois afasta muitos jovens que podem até ter talento e técnica para o tiro com arco, mas que nem chegam a ter a chance de conhecer o esporte por causa do alto custo.
“Por isso, meu pai e eu estamos procurando uma forma de desenvolver um arco funcional que possa baratear o custo do projeto. A ideia é criar algo acessível para levar até as prefeituras da seguinte forma: ‘Olha, esses aqui são os arcos oficiais, com este valor, mas também temos essa versão alternativa, mais acessível, que pode ser usada no início da trajetória do atleta no projeto”, completou.
Se a ideia de Jean e de seu pai, Walmir Machado, funcionar, o custo poderá ser reduzido em até 92%.
“A gente está tentando fazer arcos de PVC, né? Não só um arco que a gente fala ‘arco recurvo’, tentamos criar um ‘arco composto’ de PVC e que seja seguro porque, como a gente vai trabalhar com eles em projeto social, temos essa responsabilidade. A gente está testando o material ainda. Se der certo, vai baratear bastante. Talvez, para R$ 150 a R$ 200. O composto, em torno de R$ 500”, disse.
E quanto tempo essa ideia ainda precisa para ser testada?
A resposta é difícil. Jean Machado administra o tempo que tem com a responsabilidade de um projeto social voltado para o Esporte e também os treinamentos da equipe de tiro com arco.
Além dos dois atletas que viajaram para os Jogos da Juventude, ele treina outros jovens, os profissionais e também trabalha com a equipe paralímpica do Estado. No próximo mês, estará em São Paulo para acompanha-los numa competição no CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro). Além disso, é preciso testar. Por exemplo, as flechas de PVC não tiveram um bom resultado.
“Como técnico eu não aconselho adaptar, porque o PVC é um material que, às vezes, pode quebrar. Então, pelo menos a flecha é o único material que eu não deixo adaptar, porque é um material que quebra muito fácil e na hora de do disparo parece que ele vai reto, mas, não, ele acumula a força, ele dá uma recurvada no arco. Nesse momento, uma flecha que não está boa, ela pode quebrar”.
Enquanto isso, ele continua trabalhando pelo futuro dos jovens. Vieram com ele para Brasília Gabriel Mendes e Raysla Lopes. O primeiro está há mais tempo no tiro com arco, enquanto ela soma apenas três meses de prática.
Cada um, à sua maneira, trilha o caminho para o sucesso no esporte, cuja principal referência é Marcus D’Almeida — duas vezes medalhista de prata em Campeonatos Mundiais e campeão da Copa do Mundo em 2023.
Jogos da Juventude
Disputado desde 2000, quando nasceu como Jogos Escolares, em Brasília, os Jogos da Juventude são reconhecidamente os divisores de águas para os atletas que pensam em evoluir para o alto rendimento.
Vários campeões mundiais e/olímpicos já participaram da competição, como Rebeca Andrade, Arthur Zanetti, Hugo Calderano, Sarah Menezes, Etiene Medeiros e até Rodrygo, do Real Madrid, que disputou o torneio de futsal.
A edição deste ano bateu o recorde em número de participantes: 4.700 atletas.
