Imagina ter apenas 16 anos, escrever seu nome no livro dos recordes e igualar uma marca impressionante de uma das maiores lendas do skate. Gui Khury já realizou todos esses feitos e ainda almeja mais no esporte sobre rodinhas.
“Um dos meus sonhos é a medalha olímpica e ser campeão mundial no half, além de conquistar o meu lugar no park e poder dizer que sou um skatista de park, porque eu já sou”, afirmou Gui, sem hesitar, em entrevista exclusiva à ESPN, dias após igualar a maior nota da história do skate vertical, registrada primeiro por Bob Burnquist.
O vert ou half é a modalidade do skate em que as manobras são realizadas em uma pista vertical, em formato de “U”, chamada de half pipe (metade de um tubo, em tradução livre do inglês).
No dia 30 de março, Gui conquistou a impressionante nota 98 ao executar uma sequência de aéreos de 720º e 900º, finalizando com um 720º de base trocada no STU de Porto Alegre. A performance rendeu a ele o título da etapa do principal campeonato de skateboarding do Brasil.
“Foi um sonho, e gostei muito. Havia muitos atletas de alto rendimento. Foi espetacular. O Bob sempre foi uma inspiração. Fazer as coisas que esses caras fazem é surreal”, contou o garoto.
O jovem brasileiro é conhecido como um fenômeno nas manobras de giro, sendo o primeiro na história a acertar um giro de 1080º em uma rampa vertical, aos 11 anos, em 2020
Após inscrever seu nome no Guinness World Records, Gui foi além: tornou-se o medalhista de ouro mais jovem da história do X-Games, a competição mais tradicional de esportes radicais do mundo. Ele venceu a prova Vert Best Trick (melhor manobra em pista vertical) em 2021, superando inclusive Tony Hawk, considerado por muitos como o melhor skatista de todos os tempos. Gui ainda detém esse recorde entre os competidores masculinos.
Mesmo com esses feitos já alcançados, Gui sonha alto. Um dos objetivos é competir nos Jogos Olímpicos. Porém, o vert, sua especialidade, ainda não é uma modalidade olímpica. Havia expectativa de inclusão para a edição de Los Angeles, em 2028, mas o programa divulgado recentemente manteve apenas as categorias park e street (de Rayssa Leal), presentes desde Tóquio.
Isso, entretanto, não desanima Gui. Ele também compete no park, modalidade em que também foi campeão do STU de Porto Alegre. Essa prova é realizada em uma pista no formato de tigela, com obstáculos que permitem diferentes manobras.
Na competição nacional, Gui desbancou amigos como Luigi Cini e Augusto Akio. Conhecido como “Japinha,” Akio foi medalhista de bronze no park nas Olimpíadas de Paris, no ano passado.
“A gente é como irmãos. Meu pai nos criou juntos. Ele construiu um vertical quando eu tinha 6 anos. Eles andam direto comigo. Temos uma relação super boa e o sonho de nós três irmos para a Olimpíada. Quem sabe na próxima...”, revelou Gui.
Embora tenha ficado fora da primeira convocação da seleção brasileira, realizada pela Confederação Brasileira de Skateboarding (CBSk), Gui ainda tem chances de se classificar por meio das seletivas organizadas pela entidade.
“Fiquei chateado por não estar nessa vaga da seleção, mas já sabia que teria a seletiva. Isso não me abalou, porque ainda consigo garantir minha vaga. Estou ansioso, mas focado: é só andar de skate e treinar. Estou no caminho certo, treinando bastante e fazendo musculação.”
Aos 16 anos, Gui equilibra a rotina de atleta profissional com os estudos. Ele tinha acabado de chegar da escola quando concedeu esta entrevista.
“O meu colégio me ajuda bastante. Faço aulas presenciais, acordo às 6h e fico na escola até o meio-dia. À tarde, treino e faço musculação. É uma rotina muito puxada.”, detalha Gui, que pensa em continuar estudando depois do ensino médio.
“Já sou profissionalizado pela CBSk e vou seguir nesse caminho do skate, mas também quero fazer faculdade. Estou nessa jornada, indo bem nos campeonatos e me divertindo.”
A família desempenha um papel fundamental na vida do adolescente de Curitiba.
“Meu pai sempre me influenciou a andar de skate. Ele surfava e também andava de skate. Como dizem nos Estados Unidos, ‘like father, like son’ (tal pai, tal filho). Andamos juntos de skate e também surfamos. Ele é minha inspiração. Meu sonho é ser como meu pai.”
Enquanto sonha e realiza grandes manobras, Gui Khury já sabe por quais pistas quer seguir.
“Sempre vou para a Califórnia para treinar. Vou me preparar para a seletiva e para o Mundial (previsto para setembro, em Washington), caso me classifique. Estou me alimentando bem, treinando bastante. É só seguir nesse caminho que vou conquistar tudo.”
