Parecia uma manhã de quinta-feira comum no centro histórico de São Paulo. Pessoas cruzavam as ruas fechadas para automóveis sob um sol escaldante. Na esquina das ruas Álvares Penteado e da Quitanda, o Centro Cultural Banco do Brasil recebia, além das costumeiras exposições, algumas estrelas do skate mundial. Não era uma manhã comum.
Rayssa Leal, Giovanni Vianna, Felipe Gustavo e Chloe Covell participaram de uma entrevista coletiva do SLS Super Crown, a grande final da Liga Mundial de Skate Street (Street League Skateboarding), que acontece neste final de semana, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. As preliminares ocorrem no sábado, às 11h30, e as finais começam no domingo, às 11h15. O quarteto já está classificado para a decisão, graças ao desempenho na temporada e nas sete etapas anteriores da SLS.
Atual campeã, Rayssa é a grande estrela da competição e foi também a protagonista da entrevista. A brasileira, inclusive, proporcionou momentos cômicos ao comentar sobre seu boletim escolar, recheado de notas altas, e ao responder à ESPN sobre a possibilidade de ensinar skate a Memphis Depay. Torcedora do Corinthians, a skatista disse que gostaria de ver o holandês no Ginásio do Ibirapuera.
Depois, os skatistas, acostumados a competir em pistas pelo mundo inteiro, foram ao Vale do Anhangabaú, local sagrado para a comunidade do skate em São Paulo. Lá, amadores e locais se misturaram com as estrelas mundiais.
No In Your City (Na sua cidade, em tradução livre), evento promovido pela SLS, Rayssa e companhia foram os ‘jurados’ do Tricks for Cash (manobras por dinheiro). A skatista de Imperatriz do Maranhão premiava, com notas de 20 reais dadas pela organização, homens e mulheres que mandavam bem na pista, usada diariamente pelos skatistas locais.
Sob um forte sol no início da tarde e com muito som, a vibe do evento refletia os valores do estilo de vida da galera do skate. Os locais não se intimidavam com as estrelas da SLS. Quando alguma manobra dava errado, eles até acabavam trombando em Rayssa ou Chloe, mas sempre pediam desculpas logo em seguida. O mesmo acontecia quando o “encontrão” era com algum “anônimo” que estava apenas de passagem.
A presença de Rayssa, no entanto, não passava despercebida. Dona de duas medalhas olímpicas, a brasileira era frequentemente abordada por homens, mulheres, meninos e meninas para fotos e autógrafos. As crianças eram as que mais buscavam atenção da skatista de 16 anos.
O encontro agradou os skatistas classificados para o SLS Super Crown, incluindo o atual campeão Giovanni Vianna, que cresceu em Santo André, no ABC paulista.
“É daora para caramba. Eu sempre vim para cá. A maioria é amigo e andou muito tempo junto aqui, na Roosevelt ou na Sé. Então, todo mundo já se conhece. É daora que a Street League venha para a rua, porque o skate veio da rua para os campeonatos. As pessoas vão entender que aqui, na rua, é o nosso lugar”, disse em entrevista exclusiva à ESPN.
Os skatistas locais também curtiram a presença dos atletas de alto rendimento.
“Aqui é um marco histórico do skate. Seja bem-vindo ao Vale do Anhangabaú. Aqui o skate é enraizado. É um reconhecimento, o skate sempre veio das ruas. O Vale é o coração de São Paulo. Receber esse evento é gratificante”, contou Formiga, que anda de skate na região há 38 anos.
Para ele, a presença do skate nas Olimpíadas ajudou a diminuir o preconceito da sociedade com esse estilo de vida.
“As Olimpíadas vieram para agregar. A gente era taxado de vagabundo e maloqueiro. A gente cuida das praças onde anda. Agora, a galera reconhece que o skate pode ser um esporte e um trabalho. O skate também é muito mais que isso: é um estilo de vida e uma arte”, completou.
Giovanni, que disputou as duas Olimpíadas, em Tóquio e Paris, concorda com o icônico skatista da região.
“A gente era chamado de várias coisas que são até deselegantes de falar. Depois das Olimpíadas, o pessoal começou a pensar direito.”
Quem também colabora para diminuir o preconceito é Rayssa Leal, que aos 13 anos conquistou sua primeira medalha nos Jogos de Tóquio. A presença da skatista no Vale também foi comemorada por meninas que arriscavam suas manobras.
“É uma sensação incrível. A Rayssa compete no mundo inteiro e vem para São Paulo prestigiar esse evento da SLS. Ela entregar o dinheiro pela minha manobra foi demais. O cenário do skate feminino é difícil. A galera sempre respeitou muito a gente. Agora, o skate feminino tem um espaço maior porque a Rayssa virou um ícone”, contou Amanda Moreira, de 15 anos, que vive em Goiânia e começou a andar de skate aos 8 anos.
Quem também é muito jovem e já inspira outras meninas a andarem de skate é Chloe Covell, australiana de 14 anos, que está empatada com Rayssa no ranking da SLS.
“Todas as meninas do skate são muito amigas. Isso é muito legal. Ouvir de outras garotas que andam de skate que eu sou uma inspiração para elas é incrível”, disse em entrevista exclusiva à ESPN.
