O Brasil ficou longe de conseguir uma vaga na final do revezamento 4x100m no atletismo nas Olimpíadas de Paris 2024 na manhã desta quinta-feira (8), algo que acabou revelando um forte "racha" nos bastidores da modalidade.
A equipe brasileira, com aquela que é considerada uma das mais promissoras na velocidade do atletismo, acabou apenas na sexta colocação de sua bateria e com o 14º tempo no geral, entre 16 países. Gabriel dos Santos, Felipe Bardi, Erik Cardoso e Renan Gallina correram a prova.
Os problemas nos bastidores ficaram claros nos comentários de ex-atletas sobre o resultado verde e amarelo. André Domingos, que fez parte do time histórico que foi prata nas Olimpíadas de Sydney 2000 e também bronze em Atlanta 1996 no revezamento, não poupou críticas em um forte desabafo.
"Infelizmente, o Brasil está fora. Eu fico muito decepcionado, não com os atletas brasileiros, mas com a situação que foi feita para que esse time pudesse treinar, uma confusão horrível. Esse time foi para a Flórida, aconteceu de tudo lá. Treinador que estava e não devia estar, que não tinha mérito para estar lá, atleta totalmente triste com a situação. É vexatório para o Brasil", disse ele.
"Um Brasil que já subiu ao pódio duas vezes no masculino, nós tínhamos atletas com condições reais de estarem na final. Mas, por conta de todo um sistema, não respeitando leis e critérios de convocação, levando qualquer um, fazendo desse revezamento, desculpem o desabafo, uma falta de respeito. Tirando treinadores que deveriam ser titulares para estarem com esses atletas... Você vai ficar 40 dias nos EUA para treinar duas, três vezes. Como pode uma coisa dessa?", complementou.
André Domingos está comentando as Olimpíadas na CazéTV e teve a seu lado Rosângela Santos, também velocista e medalhista de bronze no revezamento 4x100m feminino em Pequim 2008. Ela seguiu exatamente a mesma linha de crítica do colega, atacando a preparação brasileira.
"Uma situação que rolou que eu nunca vi, em todos meus 25 anos no atletismo, 16 anos correndo no adulto, o coordenador do revezamento ser o treinador do revezamento e não ter um planejamento correto. Os atletas passarem 45 dias, abandonando o conforto de casa, a família, comida diferente, e não ter treinamento, planejamento adequado de treinamento. É muito triste", comentou.
"Quem paga são os atletas, 'amarelões', e não. Uma equipe tem que ser treinada, assim como é o futebol, modalidades coletivas. O revezamento é equipe no atletismo. Espero que a confederação reveja seus conceitos. Eles tiveram um investimento que foi além da confederação via COB. Dinheiro foi investido, e não teve planejamento adequado", acrescentou.
O investimento citado pela ex-atleta é uma verba adicional do Comitê Olímpico Brasileiro que foi destinado a algumas modalidades mapeadas como potenciais medalhistas olímpicas nesse ciclo. Um dinheiro que propiciou, por exemplo, o revezamento treinar fora do Brasil.
Acontece que justamente esse camping, realizado na Flórida, durante 45 dias, com a participação dos principais atletas do atletismo do país e seus treinadores (incluindo também Paulo André, que não correu o revezamento 4x100m por opção técnica da comissão), foi muito criticado.
Outra exposição desse "racha" nos bastidores foi feita por Ana Cláudia Lemos, outra atleta com muita história nos 4x100m femininos, em suas redes sociais. Ela, por sua vez, foi ainda mais direta e atacou Rodrigo do Nascimento, que representou o Brasil no revezamento em Tóquio 2020, mas ficou fora de Paris 2024 e comentou a prova no Sportv.
"Rodrigo falando besteira. Como sempre, o atleta passando pano para o treinador do 4x100m, treinador esse que é o treinador dele pessoal. Alô, Sportv, além de comentar muito mal, está passando pano. Gente, que absurdo é esse? Um comentarista que deveria falar a verdade está dizendo que os atletas têm que repensar?", iniciou ela, antes de também citar o camping nos EUA.
Rodrigo comentarista da #Sportv falando besteira. #sportv
— Ana Claudia L Silva OLY (@AnaC_Lemos) August 8, 2024
Como sempre o atleta passando pano para o treinador do 4x100,treinador esse que é o treinador dele pessoal.
Alô @sportv além de comentar muito mal,ta passando pano.
Gente que absurdo é esse ,um comentarista que deveria...
Rodrigo participou desse período de treinamentos na Flórida e tem como seu treinador Victor Fernandes, que foi contratado pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) como técnico do 4x100m tanto para o masculino, quanto para o feminino.
"Conta aqui, Rodrigo, os bastidores, conta a falta de treinos, sua reunião entre os atletas (você não se diz capitão?). Desculpa, você não é capitão e precisa aprender a falar o que de fato aconteceu."
Durante a transmissão, Rodrigo afirmou que "ninguém correu muito bem" para o Brasil e pediu para que a página fosse virada. "Infelizmente não fizemos uma boa largada, não tivemos uma corrida boa de todo mundo. (...) Olhando as parciais a gente viu que ninguém correu muito bem. Já sabia um pouquinho, pela fase que estamos passando na velocidade, agora é fechar o ciclo, virar a página de alguma forma e rever tudo o que foi feito de errado, o que a gente pode acertar novamente."
"Porque não pode ficar assim, não podemos ficar fora das grandes competições com o currículo que a gente tem", complementou ele.
O revezamento do Brasil fez tempo de 38s73 na disputa por uma vaga na final, mais de um segundo abaixo dos Estados Unidos, donos da melhor marca na classificação, com 37s47.
Além dos norte-americanos, disputarão medalha em Paris 2024: África do Sul (37s94), Grã-Bretanha (38s04), Japão (38s06), Itália (38s07), China (38s24), França (38s34) e Canadá (38s39).
Mesmo fora da final, a Austrália quebrou o recorde da Oceania na prova, com 38s12, enquanto países como a Nigéria e Jamaica registraram os melhores tempos de suas temporadas, respectivamente, com 38s20 e 38s45.
