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Mayra Aguiar desaba e revela tudo que passou para estar nas Olimpíadas: 'Não conseguia andar'

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Três vezes medalhista olímpica, Mayra Aguiar cai para número 1 do mundo e dá adeus a Paris 2024; VEJA como foi (1:11)

Judoca tricampeã do mundo estreou contra a italiana Alice Bellandi na categoria até 78kg (1:11)

Mayra Aguiar desabou após perder logo na estreia nas Olimpíadas para a italiana Alice Bellandi, número 1 do mundo da categoria abaixo de 78 kg no judô. Desabou ao lembrar todo o ciclo olímpico, toda a dificuldade que enfrentou para estar em Paris. Disse por que “se escondeu” nos últimos tempos, sem participar de competições que a prejudicaram no ranking e a fizeram estrear logo contra uma adversária tão dura. E foram palavras tão fortes que não há como alguém não entender.

No relato que ela mesmo faz, o ciclo teve uma batalha bem intensa contra lesões e dores, que em muitos momentos parecia que seria perdida. Mas também um acolhimento das pessoas do judô e do Time Brasil que a fizeram chegar até Paris.

“Eu já passei do meu limite tem um tempo, tem um tempo que eu venho mentindo para o meu corpo que está tudo bem. Eu tenho oito cirurgias, já. A primeira veio com 16, 17 anos. E sinto ela até hoje. Sinto a última (cirurgia). É uma coisa que eu aprendi a treinar assim, lutar assim. Mas nos últimos anos tem sido mais difícil, chega uma idade que não adianta eu fingir que está tudo bem, brigar com o meu corpo porque não está. Mas eu fui até onde eu consegui, onde o corpo deixou e não deixou.

Por isso fiquei um pouco mais excluída, mais fechada. Até peço desculpas à mídia, quem me procurou. Não estava tudo bem. Para não ficar reafirmando isso, talvez fosse mais fácil mentir para mim mesma.

Talvez tenha sido o ciclo mais difícil, por questão de dor física. É uma coisa que eu estou acostumada há muito tempo, essa dor física, de lesão, não a de treino. É dor de chegar em casa e não conseguir andar (choro). Talvez tenha sido mais difícil por conta disso, por lesão, por brigar mais com meu corpo do que estou acostumada.

E não tinha como fazer muita competição, eu voltava muito ruim, fuso horário é difícil para conseguir conciliar alimentação, sono. Já estava com transtorno alimentar, insônia. Por isso fiquei mais fechada, é difícil falar disso. É muito mais fácil mentir para mim mesma. Se eu falar, acabo desabando, ainda mais agora que estou mais sensível, vocês me pegaram em um momento mais sensível. Acho que essa foi a maior luta.

Só tenho a agradecer à CBJ, Sogipa, meu clube, que compreendeu há algum tempo, sentei com eles e falei: olha, eu não consigo fazer o tanto que eu quero fazer, não sei se dá mais. Isso já faz uns três anos. E eles sentaram comigo e falaram: calma, faz teus treinos, volta para casa, descansa. Fico muito feliz por eles terem compreendido, aceitado fazer dessa forma.

E ano passado, no Japão, eu ganhei a competição, era uma competição que eu queria muito ganhar lá, é um lugar que eu tenho muito carinho e foi muito gostoso. E foi especialmente porque eles acreditaram em mim, deixaram eu fazer esse ciclo dessa forma, ficar um pouco mais em casa. Então, eu tentei fazer tudo que deu, tudo que estava disponível.

Para essa competição, não sabia se ia conseguir treinar o tanto que precisava, a dieta, tudo que eu podia fazer. Claro que vou sempre me cobrar que podia ter feito algo e eu vou. Mas eu sei que me esforcei muito, sei o quanto me dediquei, o quanto as pessoas me ajudaram. É agradecer a essas pessoas que têm um carinho por mim. Aceitar que eu dei meu melhor”, disse Mayra.

Mas e o futuro? Ela vai continuar com a briga contra o próprio corpo? Nossa tricampeã do mundo ainda não sabe responder a essa pergunta. Ainda que tenha vontade de jogar tudo para o alto (ou para uma fogueira) às vezes.

“Eu não sei, nunca afirmei isso para mim. Tem momentos que penso que não dá mais, vou chegar em casa e queimar meus quimonos. Isso eu falo tem uns cinco anos. E eu levanto, respiro, porque eu amo esse esporte, esse clima, a força que os atletas têm. Isso que me fortalece, me faz treinar com dor, lutar com dor. Essa motivação, essa união, esse amor pelo esporte que eu tenho. Já tem um tempo que eu falo isso, mas é difícil, porque eu amo muito. Eu posso ter certeza que vou voltar para casa, esfriar a cabeça e ver como estou, como está meu corpo e pensar mais friamente depois”, diz.

Além dos três títulos mundiais, Mayra é a mulher brasileira com mais medalhas em Jogos Olímpicos. São três bronzes para ela (2012, 2016 e 2021).