Sabe aquele velho ditado: tudo que é bom dura pouco? É triste, mas parece ser o fim de uma curta passagem de uma das mais promissoras ministras da história do esporte nacional. Aliás, a única mulher a dirigir a pasta.
A catarinense Ana Beatriz Moser, que vê seu cargo ser altamente cobiçado nos bastidores de Brasília, foi um sopro de esperança para um ministério que, na maioria das vezes, nunca foi levado a sério pelos governantes do Brasil.
Exemplo disso são os nomes que passaram pela pasta desde que foi criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e teve pela primeira vez um esportista à frente do ministério: Pelé, o Rei do Futebol, que não foi um fenômeno na política esportiva, mas foi importante na criação da lei que levou seu célebre apelido.
Depois dele, o nome mais relevante foi o secretário nacional de esporte Lars Grael, um medalhista olímpico com vasta experiência em gestão e com um olhar excepcional para o esporte social e novos modelos de práticas para as escolas públicas.
De lá para cá, os exemplos são os piores possíveis, durante anos em que o Brasil acumulou notícias de desvios de verbas com os megaeventos do Pan de 2007 no Rio aos Jogos Olímpicos de 2016, passando pela Copa do Mundo de 2014. Rombos nos cofres públicos, mas poucos pagando por isso – tanto literalmente, quanto na Justiça.
Ah, e se Deus é brasileiro, até ministro pastor passou pelo Ministério do Esporte, mas, mesmo assim, não tivemos milagre algum.
Eu cansei de comprar briga – e não sozinho – com governo federal, estadual e municipal denunciando mau uso de dinheiro público, além de fiscalizar obras dos megaeventos e projetos que desviaram dinheiro público no próprio ministério, COB (Comitê Olímpico Brasileiro), confederações e federações.
Cansamos de denunciar – e provar – casos de corrupção no esporte olímpico em reportagens e documentários – alguns, inclusive, premiados como o "Brasil Olímpico, uma prestação de contras à sociedade", vencedor do Prêmio Embratel de 2008 por mostrar desvios de dinheiro público na realização dos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007.
Ajudamos a desmontar esquemas fraudulentos em confederações – no taekwondo, desportos aquáticos, atletismo, canaoagem e até no COB. Sempre acreditando em dias melhores, em pessoas competentes à frente do esporte, imbuídas no desenvolvimento das modalidades com profissionalismo e transparência.
Mas, do que adianta tudo isso, se o esporte sempre é vencido pela política? Se o esporte sempre é ocupado por dirigentes que não entendem do "negócio esporte" e sim do "negócio dinheiro" que o esporte pode proporcionar...
Lula, a Ana não é mera coincidência.
Esta história o presidente certamente não vai se lembrar, mas eu, que estou na ESPN desde 1999, jamais me esquecerei. Quando Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002, ele entrou em contato com um grupo de nobres do esporte, que envolvia Juca Kfouri, José Trajano e Doutor Sócrates, para que fosse desenvolvido um projeto nacional de uma política de esporte.
Lembro-me bem do entusiasmo de Trajano, à época também diretor de jornalismo da ESPN, quando desenvolveu o "Caravana do Esporte", que era um projeto que levaria esportes de todos os tipos, com atletas e professores, para todos os rincões do Brasil.
No final, não sei ao certo porque o projeto não foi implantado no Governo Lula, mas Trajano deu de presente para a jornalista Adriana Saldanha e para a ex-jogadora Ana Moser colocarem a Caravana em pé como projeto social na ESPN, Brasil afora.
Ali, Ana, que havia se aposentado recentemente das quadras, também começava a desenvolver seu Instituto, o IEE (Instituto Esporte Educação). De lá para cá, tornou-se uma das maiores autoridades quando se fala em desenvolvimento e implantação de projetos sociais aliados ao esporte e a educação. Criou métodos próprios para treinar professores com o intuito de desenvolver a prática esportiva, mesmo que não haja as condições ideais para o desenvolvimento das atividades. Atendeu com a Caravana milhares de crianças pelo Brasil, encaminhou outros milhares de cidadãos a uma vida digna com seu IEE e sua metodologia.
Foi por isso que foi escolhida por Luiz Inácio Lula da Silva para tocar o Ministério do Esporte e colocar em prática, enfim, o sonho de uma política nacional de esporte, algo que o Brasil nunca teve.
Ana Moser chegou à Esplanada dos Ministérios sem partido político, nunca foi afiliada a alguma bandeira, apesar de ter uma grande afinidade com as políticas públicas dos partidos de esquerda.
Ana também não têm relações políticas com ninguém, não faz lobby no Congresso e não tem trânsito com partido e parlamentares com segundas intenções. Pelo contrário, Ana é gente que faz, sem precisar de “benção” de caciques de partidos A, B ou C – e seus "puxa-sacos".
Ana Moser era a esperança de uma comunidade que se cansou de ser enganada por falsas promessas, por falsos projetos e por desvios de dinheiro público que poderia muito bem ter sido investido na base, na escola, na educação aliada ao esporte, como ela vinha dizendo...
Ana veio para ser ministra para tratar o esporte como ele deve ser tratado, como coisa séria, com o poder de transformação que ele tem. Não pelo poder de entidades, como a CBF ou COB, que já tem capacidade financeira para andar com suas próprias pernas. Esses, sim, não precisam de Ana Moser, mas a base, o pequeno, a criança, o adolescente, o professor, o pai e a mãe do aluno que sonha com o filho brilhando no esporte ou como cidadão, esses precisam da seriedade, da dedicação e da experiência de Ana Moser.
Com esse texto, peço, humildemente, que respeitem a ministra e que a deixem trabalhar, mesmo que com o menor orçamento de todos os ministérios, só R$ 1,9 bilhão. Respeito o currículo, não só como esportista, mas principalmente da gestora de esporte Ana Moser.
Que não nos decepcionem mais uma vez. Pois esta pode ser a última chance para que acreditemos que é possível que um país do tamanho do Brasil, com o povo maravilhoso que temos, possa definitivamente desenvolver, ainda que tardiamente, a tão sonhada política nacional de esporte... E não vai ser outro político qualquer que terá a capacidade de fazer isso, não é mesmo, presidente?
