Na noite anterior do draft de 1999 da NHL, Brian Burke, general manager do Vancouver Canucks, foi dormir furioso. Burke tinha um enigma quase indecifrável à sua frente e pouco tempo para resolvê-lo. Dono da 3ª escolha geral do draft, os Canucks já tinham um jogador em sua mira. Um, não. Dois.
Em uma pequena cidade da Suécia chamada Örnsköldsvik, com pouco mais de 30 mil habitantes, nasceram Henrik e Daniel Sedin em 26 de setembro de 1980. Gêmeos idênticos, cresceram juntos e começaram a jogar hockey – o esporte mais popular da quase sempre congelada Örnsköldsvik – também juntos. Pelo time local, MoDo, impressionavam desde adolescentes. Com 15 anos, já dominavam a liga Sub-20 sueca. Começaram a representar sua seleção em torneios internacionais a partir do Sub-16. Aos 16, estrearam na liga profissional sueca, a SHL. E aos 18, em 1999, entraram no draft da NHL.
Brian Burke dormiu furioso na véspera do draft porque Vancouver havia feito apenas uma troca. Os Canucks mandaram Brian McCabe e sua própria escolha de 1ª rodada do draft de 2000 para Chicago, pela 4ª escolha geral do draft de 1999. Vancouver, então, tinha a 3ª e a 4ª escolhas gerais.
Mas não seria suficiente.
Na frente da ordem, Atlanta estava disposto a negociar a 2ª escolha geral. Tampa Bay, dono da 1ª escolha, não estava. Burke tentou uma troca com o general manager de Tampa, Jacques Demers, sem sucesso. Tudo poderia dar errado para Vancouver. Se Tampa escolhesse Daniel e Atlanta escolhesse Henrik, Burke seria demitido, e toda a estratégia (incluindo a troca com Chicago) iria por água abaixo.
Porém, momentos antes do draft começar, Demers mudou de ideia. Vancouver trocou a 4ª escolha geral e mais duas escolhas de 3ª rodada pela 1ª escolha geral de Tampa. Em um acordo verbal com Atlanta – que consistia basicamente dos Thrashers não selecionarem um dos Sedins -, Vancouver fez sua última troca: mandando a 1ª escolha geral para Atlanta em troca da 2ª escolha geral. Sem mais, nem menos. Três trocas e muita dor de cabeça depois, Burke subiu ao palco do draft e anunciou as escolhas número dois e três simultaneamente: Daniel e Henrik Sedin.
Quase 20 anos depois, todos jogando pelo Vancouver Canucks, Daniel e Henrik estão prontos para se aposentarem com currículos de Hall da Fama.
Os Sedins se aposentam como os únicos irmãos da história da NHL a marcar mil pontos cada. Henrik é o primeiro na franquia dos Canucks em pontos, assistências, plus minus e jogos disputados. Daniel é o segundo em todas essas categorias, também liderando a franquia em gols, game winning goals (gols da vitória), gols no power play, gols no overtime e tiros a gol.
Os Sedins se aposentam também com um troféu Hart (MVP da temporada) para Henrik, um Art Ross (mais pontos em uma temporada) para cada, um Ted Lindsey (MVP votado pelos jogadores) para Daniel e três nomeações para o All Star Game. Eles também venceram uma medalha de ouro olímpica em 2006 e uma de prata em 2014.
Falar de tantas e tantas credenciais assim parece não fazer jus ao que os Sedins representaram. Principalmente porque, para os gêmeos, nunca foi sobre eles, ou suas marcas e recordes. Henrik, capitão desde 2010, sempre colocou o time em primeiro lugar.
Após a mais dura derrota da história da franquia, nas finais da Stanley Cup contra Boston, Henrik respondeu a todas as questões feitas pela mídia. A postura do capitão se repitiu nos anos seguintes, quando Vancouver foi eliminado por Los Angeles, San Jose e Calgary nos playoffs. Ele também nunca se escondeu quando os Canucks falhavam em chegar na pós-temporada, respondendo sobre como o time jogava mal, ou como a franquia estava em decadência. Henrik sempre deu a cara a tapa e não se importava, colocando a franquia em primeiro lugar.
Daniel já foi socado no rosto em múltiplas ocasiões. Já levou cotoveladas, sofreu concussões, perdeu diversos dentes da boca, jogando com dores e lesões que não deveriam permitir um jogador a disputar uma partida de hockey. De fato, essas são consequências que a grande maioria dos jogadores sofrem. O que torna Daniel especial é a maneira com que ele lidava com tantas adversidades. Nenhuma retaliação em sua carreira. Sequer uma jogada suja, ou uma entrevista em que ele falasse mal de alguém, ou uma briga.
Uma briga? Nenhuma? Sim, nenhuma. Era assim que os Sedins jogavam hockey: com lealdade, respeito e tremenda habilidade.
Daniel para Henrik. Henrik para Daniel. Esse foi o mantra repetido por narradores, fãs e técnicos que assistiram aos Canucks no século XXI. A chance de irmãos jogarem juntos em uma liga por tanto tempo é muito pequena. Irmão gêmeos, jogando na mesma linha e somando mais de dois mil pontos juntos? Parece coisa de cinema.
E por vezes, o que os gêmeos fizeram dentro do gelo parecia, de fato, coisa de cinema.
Em 18 anos, a história dos Canucks foi reescrita pela mágica dos gêmeos suecos. A tremenda percepção que apenas gêmeos podem ter, passando discos sem olhar um para o outro. E quando se olhavam, conseguiam enganar os adversários com jogadas que se distinguiam dos highlights normalmente produzidos na NHL. É difícil fazer algo que nunca tenha sido executado antes, e os Sedins o fizeram. Nenhuma dupla na história do hockey jogou como eles.
Como responder à pergunta “o que você lembra dos Sedins quando eles jogavam”?
Me lembro dos primeiros jogos de hockey que assisti, justamente dos Canucks. Me lembro dos shifts de mais de dois minutos, circulando o disco e fazendo passes que questionavam o meu raciocínio e percepção do que era possível se fazer dentro de um rinque de gelo. Me lembro dos tiros perfeitos do Daniel, da precisão incomparável dos passes do Henrik. Me lembro dos Canucks dominando, dos Canucks vencendo e levando o time à tão esperada final da Stanley Cup.
Me lembro deles sendo chamados de irmãs, de fracos por não responderem as pancadas sujas que levavam durante os jogos. Me lembro de como eles eram questionados após fracassos nos playoffs.
E também me lembro de eles responderam a todas essas críticas não com palavras, mas com trabalho. Sendo líderes dos Canucks, os mais dedicados durante a pré-temporada, os primeiros a chegarem na academia e os últimos a irem embora. Me lembro deles doando mais de $2 milhões de dólares à comunidade de Vancouver, ajudando hospitais e criando campanhas que solidificaram o legado dos gêmeos não apenas na franquia, mas também na cidade de Vancouver.
Vários times têm jogadores que mudam uma franquia da água para o vinho, mas mais importante: mudam franquias para o melhor. Vancouver teve a sorte de ter não um, mas dois jogadores que mudaram tudo, literalmente tudo, ao mesmo tempo. E os fãs de hockey tiveram a sorte de assistir a dois dos maiores jogadores da história do esporte desde 2001.
Não restam dúvidas que ambos poderiam jogar, no mínimo, por mais dois anos. Mas eles decidiram que não. Decidiram parar nos seus termos, parar sem que uma lesão os forçassem a isso. Longe de ser um problema. O próximo destino é inevitável e uma consequência: o Hall da Fama.
Aos gêmeos Sedins, Henrik e Daniel, o mundo do hockey os agradece.
