Boeser e Barzal: a briga pelo título de melhor novato da NHL

No dia 26 de junho de 2015, Jim Benning fazia contas. O General Manager do Vancouver Canucks, com uma extensa lista em mãos, analisou os diversos nomes ranqueados de prospects até chegar a posição de sua equipe: 23ª. “De jeito nenhum que o Boeser chegará até a gente. Ainda tem 13 escolhas a serem feitas”, desabafou Benning na mesa de draft dos Canucks.

No mesmo dia, Garth Snow também tinha um alvo em mente. O General Manager do New York Islanders não estava satisfeito com a evolução do seu principal jogador recrutado do draft de 2012, Griffin Reinhart, 4ª escolha geral, e vinha discutindo uma troca com Peter Chiarelli. Os Oilers ainda enxergavam muito valor no defensor, que tinha muito potencial quando foi draftado, e apertaram o gatilho para adquirir o canadense. Em troca, duas escolhas: a 16ª e a 33ª. Snow, no entanto, tinha uma exigência: que Mathew Barzal estivesse disponível na 16ª posição. E ele estava.

O americano Brock Boeser, nativo de Minnesota, teve uma carreira curta, mas memorável na NCAA. Campeão nacional com North Dakota ainda quando novato, Boeser se tornou profissional após o seu segundo ano na faculdade. O acordo entre o sistema universitário americano e a NHL permite que os jogadores draftados se tornem profissionais apenas entre uma temporada e outra, isto é, assim que o ano competitivo da NCAA se encerre ou o time seja eliminado,

O sonho de uma dobradinha no Frozen Four para Boeser se encerrou no dia 24 de março de 2017, uma sexta-feira. Um dia depois, no sábado, Boeser voou para Minnesota, sua terra natal, onde ele encontraria o time dos Canucks, que estavam prestes a enfrentar o Wild pela temporada regular da NHL. Seu contrato foi assinado, Boeser estreou e ainda marcou um gol, para a felicidade dos muitos familiares presentes no Xcel Energy Center.

O canadense Mathew Barzal, nativo de British Columbia, foi um fenômeno da Western Hockey League, uma das três grandes ligas de desenvolvimento do Canadá. Barzal capitaneou o Seattle Thunderbirds ao título da WHL, sendo também um dos melhores jogadores canadenses a disputar o World Juniors, mundial sub-20 onde os melhores prospectos do hockey defendem as bandeiras de seus países.

Barzal foi dominante em todos os níveis que disputou de hockey. Foram 278 pontos em 202 jogos na WHL, incluindo 65 pontos em 49 jogos de playoffs. No World Juniors, 8 pontos em 7 jogos, ajudando o Canadá a conquistar a medalha de prata, após serem derrotados pelos americanos em uma das finais mais disputadas deste século.

Não apenas esses dois são os favoritos a levarem o Calder, troféu que premia o melhor novato da temporada da NHL, mas eles também assumiram papéis fundamentais em suas equipes de maneira muito rápida, graças a um arsenal de habilidades que poucos jogadores têm.

A começar por Brock Boeser: o melhor atirador da franquia dos Canucks desde Pavel Bure, curiosamente o último jogador de Vancouver a vencer o Calder. Boeser não tem a velocidade que o russo tinha, mas seu tiro é indiscutível, principal motivo que o levou a conquistar o prêmio de MVP do All-Star Game.

No vídeo acima, Boeser marca quatro gols de maneira parecida: com wrist shots perfeitamente executados e colocados. No primeiro, Boeser recebe o disco cara a cara com Carey Price, também conhecido como melhor goleiro do mundo. Price se adianta barbaridades, saindo de sua crease (a área azul do goleiro), e Boeser consegue um disparo perfeito. Boeser teve tempo para processar a situação em todos os gols, analisar a posição dos goleiros e escolher o canto correto. Mas não tem problema. Brock também consegue marcar mesmo quando seu tempo é extremamente limitado, em uma jogada de alta velocidade:

Nestes gols, é praticamente impossível determinar o tempo que o disco fica no stick de Boeser antes do seu disparo. E é justamente esse fator que vale o destaque: seu gatilho, a maneira que ele consegue dominar o disco e dispará-lo em seguida de maneira extremamente rápida, não permitindo que o goleiro se posicione da melhor maneira para fazer a defesa. O primeiro do vídeo, inclusive, foi seu terceiro gol no jogo contra os Penguins, consolidando o primeiro hat-trick de sua carreira.

Para completar o argumento de que ele é um atirador nato, a marca registrada dos snipers destros: tiros de primeira. No primeiro, ele domina o disco rifado pela defesa dos Leafs – causando um turnover – passa para Thomas Vanek, apenas para receber o disco de volta momentos depois, disparando um tiro de primeira que o goleiro Frederik Andersen não consegue rastrear. No segundo, durante o power play, um foguete, sem dar chances para Matt Murray.

Boeser lidera os novatos dessa temporada em gols (24), pontos no power play (18) e gols no power play (8), enquanto também lidera o time inteiro dos Canucks em pontos (43), com uma diferença de oito para o segundo colocado, Thomas Vanek (35). Para efeito de comparação, apenas três jogadores na temporada passada de Vancouver somaram mais de 40 pontos. Boeser já tem 43 com 46 partidas disputadas.

Agora, Matt Barzal. Após uma partida contra Montreal, o capitão dos Habs, Max Pacioretty, teve o seguinte a dizer sobre Barzal: “Ele é o melhor patinador da liga. Sem dúvidas. Toda vez que nós perdemos o disco na zona ofensiva, eu olhei para trás por um segundo e vi o seu cabelo voando, partindo em direção a nossa zona”.

E este, de fato, é o melhor atributo. Barzal tem uma mecânica diferente para patinar. Ao invés de desacelerar ao fazer curvas, ele impulsiona seu corpo na direção correta para ganhar ainda mais velocidade, fazendo com que ele seja quase imarcável. Somando isso a maneira impecável que ele controla o disco, Barzal é capaz de dar voltas e mais voltas no gelo, fazendo com que a defesa adversária o persiga em diversas ocasiões.

A maneira que Barzal corta o meio do gelo, passando por todos os defensores com sua velocidade, não é algo que se vê todos os dias na NHL. O controle do disco, a visão e a capacidade de aproveitar os espaços deixados pelo adversário são atributos que tornam de Barzal o segundo jogador mais perigoso dos Islanders, ficando atrás apenas do capitão John Tavares. Ele consegue ser incisivo, acelerando e aumentando sua velocidade exponencialmente, mas também consegue manter essa alta velocidade para aumentar seus turnos no gelo.

Entrando no mérito que torna Barzal um jogador de elite, sua visão do gelo e capacidade de achar companheiros em posições de marcar gols é absolutamente invejável. Principal companheiro de linha nesta temporada, Jordan Eberle voltou a ser um jogador de impacto graças a, majoritariamente, Barzal, e sua capacidade criativa no centro do gelo.

Mais uma categoria que Barzal se destaca: seu tiro. Não suficiente com todas as características destacadas acima, ele também é capaz de mirar e acertar o ângulo do goleiro sem grandes dificuldades.

Barzal lidera os novatos dessa temporada em pontos (51) e assistências (35), ficando atrás apenas dos All-Stars John Tavares e Josh Bailey nos Islanders em ambas categorias. Graças a sua velocidade, Barzal é o segundo jogador que mais sofreu penalidades nesta temporada, ficando atrás apenas de Matthew Tkachuk.

Três jogadores serão indicados ao Calder no final da temporada, e nem chegamos a falar dos outros candidatos que vêm tendo excelentes temporadas: Charlie McAvoy, Mikhail Sergachev e Clayton Keller, fundamentais em suas respectivas equipes. No entanto, Boeser e Barzal se distanciaram desse grupo e, por enquanto, vêm fazendo uma corrida de dois concorrentes ao prêmio de melhor novato.

Vale lembrar: o Calder considera apenas a temporada regular. Barzal e os Islanders estão brigando por uma vaga nos playoffs, enquanto os Canucks de Boeser estão afundados na conferência oeste.

Auston Matthews venceu o prêmio na temporada passada após marcar 40 gols pelos Leafs. Evgeny Malkin foi o último a conquistar o Calder com uma média superior a um ponto por jogo. A tarefa é difícil, mas podemos presenciar a quebra dessas duas marcas ainda nesta temporada com Boeser e Barzal.