Após quase dois anos longe das competições, Nicholas Meregali, tricampeão mundial de jiu-jitsu, está pronto para viver uma sensação incomum na própria carreira: a de estrear novamente. Nesta quinta-feira (12), ele encara Nicholas Maglicic no UFC BJJ, marcando não apenas seu retorno ao tatame, mas também a inserção em uma nova fase da modalidade dentro da estrutura do UFC.
O período afastado foi desafiador. Foram 17 meses sem competir, um ano inteiro sem treinar e duas cirurgias no caminho. Mais do que a recuperação física, houve uma readaptação mental ao ritmo de camp, ao desgaste do corpo e à pressão de performar em uma data específica. Em determinado momento ele chegou a questionar se ainda fazia sentido enfrentar toda a carga emocional e física que uma preparação exige. Com o tempo, porém, o processo encaixou, o camp evoluiu bem e o sentimento que prevalece agora é o de recomeço uma mistura de retorno e nova estreia.
''Eu quase me coloquei numa posição de não achar legal a questão de lutar e tal, fazer esse camp pesado,o corpo dói, a cabeça fica estressante, mas deu tudo certo, o camp acabou indo bem'', relatou
O palco também é simbólico. O UFC BJJ surge como uma tentativa clara de estruturar o jiu-jitsu sob um modelo semelhante ao do MMA, com maior investimento, organização e alcance midiático. Para o tricampeão, o potencial de crescimento é evidente. Ele reconhece que o jiu-jitsu dificilmente atingirá o mesmo nível de popularidade do MMA, especialmente pelo apelo visual e pela intensidade que a trocação proporciona ao público.
''Os caras têm potencial, têm alcance. Eu não vejo jiu-jitsu chegando no tamanho do MMA, porque no MMA a gente tem sangue, a gente tem mais adenalina rodando, dopamina'', contou. Ainda assim, acredita que a modalidade pode dar um salto significativo de tamanho com uma estrutura profissional sólida, contratos bem definidos e regras pensadas para o espetáculo.
A discussão sobre o papel do jiu-jitsu no MMA também entra em pauta. Parte do público costuma criticar lutas com domínio no chão, classificando-as como pouco atrativas. Na visão do faixa-preta, essa análise ignora a complexidade técnica do esporte. Dominar um adversário de alto nível, controlar posições e neutralizar completamente suas ações exige um grau altíssimo de habilidade. Ele lembra que nomes como Khabib Nurmagomedov e Georges St-Pierre construíram legados utilizando quedas, controle e estratégia como base, mostrando que eficiência técnica nem sempre anda lado a lado com o espetáculo mais explosivo.
''O Khabib construiu carreira sem dar um soco. No final dos últimos dois, três anos, o Khabib era um cara que conseguia usar um pouco de striking para criar conexões e entrar em queda, mas início de carreira na distância, double leg, botava para baixo, dominava por cima e ganhava lutas ali. Acho que o primeiro ponto é que pessoas que não praticam esporte'', disse Meregali.
Para ele, o que mudou no MMA moderno não foi a importância do jiu-jitsu, mas a forma de aplicá-lo. A adaptação ao chamado “scrimmage wrestling” uma combinação de wrestling, sambo e jiu-jitsu voltada especificamente para a dinâmica do cage tornou-se essencial. O foco está em quedas contínuas, domínio de quadril e controle efetivo antes de pensar em finalizações. Atletas que migram do jiu-jitsu esportivo para o MMA precisam reaprender parte do jogo dentro desse novo contexto.
Apesar da aproximação com o universo do UFC, a migração definitiva para o MMA não está nos planos. Ele admite curiosidade pela experiência de lutar em um cage, mas reconhece que não possui histórico na trocação e que o MMA exige uma dedicação total que, neste momento da carreira, não faz parte de seus objetivos. O foco permanece no grappling e na construção da modalidade dentro dessa nova plataforma.
Do outro lado estará Nicholas Maglicic, faixa-preta recente, mas embalado por títulos importantes nos últimos meses. Trata-se de um atleta agressivo, que luta para frente e costuma propor o jogo, o que projeta um confronto movimentado. A escolha do adversário também passa pelo momento técnico e pelo estilo que favorece uma troca franca de jiu-jitsu.
Mais do que um simples retorno, a luta representa superação. Durante os meses afastado, o tricampeão recebeu inúmeras mensagens de apoio, que serviram como combustível para a recuperação. As críticas também vieram, mas foram tratadas como parte do processo. Agora, a expectativa é transformar a volta em afirmação.
Quase dois anos depois, ele retorna ao tatame com a bagagem de quem já conquistou o mundo três vezes e com a motivação de provar que ainda pertence à elite.
