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Da rifa ao topo do UFC: Natália Silva transforma superação em aviso para Valentina Shevchenko

Natalia Silva não chega ao UFC 324 apenas com um camp redondo e a confiança de quem sabe o que fez nos treinos. Ela chega com uma história que, por si só, explica por que tanta gente se conecta com ela antes mesmo da luta começar. Em entrevista exclusiva à ESPN, a brasileira contou sobre sua trajetória e abriu o coração a morte de sua irmã.

Vinda de Pingo d’Água, no interior de Minas Gerais – “cidadezinha… cinco mil habitantes”, como ela mesma define –, Natália aprendeu cedo que, no começo, a luta mais difícil quase nunca é dentro do octógono. Para perseguir o sonho, precisou fazer o que muitos atletas brasileiros conhecem bem: rifa, bingo, pedidos de ajuda, vídeos na internet para conseguir viajar e competir. “Antes, para eu poder lutar, participar de campeonatos, eu tinha que fazer rifa, fazer bingo, pedir ajuda”, contou à ESPN.

O caminho exigiu mudança, sacrifício e uma rotina que parecia não combinar com o tamanho do sonho. Quando saiu da cidade e foi para Contagem em busca de estrutura, veio uma fase dura. “Eu dormia na sala de fisioterapia”, lembra, ao explicar que não tinha condições de pagar aluguel e bancar as despesas do dia a dia enquanto tentava manter a carreira viva.

E quando parecia que a porta do UFC estava para abrir, a espera virou teste de resistência. O período entre a última luta no Jungle Fight e a estreia na organização foi marcado por lesões e ansiedade: braço quebrado, depois o mesmo braço quebrado de novo, além do nariz fraturado. Ela resume esse trecho como uma maratona silenciosa: “Foram quase três anos esperando, treinando e me dedicando em meio às lesões”.

“Entrar no octógono, às vezes, nem sempre é a luta mais difícil pra mim”

Quando finalmente estreou no UFC, a vida ainda guardava um golpe que não se defende com guarda alta. Em 2024, Natália viveu o que chamou de pior momento da sua vida: a morte da irmã. “Minha irmã era usuária de droga. E a gente vê o que a droga faz com a pessoa que a gente ama”, desabafa. E é nesse ponto que atleta e pessoa se misturam de vez. Disciplina quando a vontade não aparece.

A partir daí, é sincera sobre o que é ser atleta de alto rendimento longe das câmeras. Nem todo dia existe vontade, nem todo dia existe energia, nem todo dia existe clima de camp. Mas existe compromisso. “Nem todo dia eu acordo animada, mas todo dia eu preciso fazer isso. É o meu sonho”, explica. A mensagem vira conselho para quem acompanha do outro lado: pode chorar, pode gritar, pode sentir o peso, só não pode parar. “Se precisar chorar, chore, mas não desista. Siga firme”, diz, citando também a fé como parte do caminho.

O UFC 324 não é só mais um compromisso no calendário. É um passo decisivo numa escalada que, segundo ela, tem ano marcado. “Eu acho que 2026 é um ano perfeito. Um ano de viver as promessas”, cravou. E isso ajuda a entender o peso da luta atual.

Vencer não significa apenas somar mais um resultado. Significa bater mais forte na porta do título. Natália conta que, após a última vitória, sobre Alexa Grasso, conversou com o UFC pedindo title shot. A organização priorizou outro cenário e ela aceitou esperar. Depois, veio a indefinição. “Eles falaram que a Valentina Shevchenko não estaria disponível para lutar agora”, relembra. O UFC, então, quis mantê la ativa para não ficar parada desde maio e ofereceu uma nova luta. A que estava casada era Alexa Grasso x Rose Namajunas, mas a mexicana saiu do confronto e o telefone tocou para a brasileira.

A escolha de aceitar diz muito sobre o momento dela. “Estou aqui pra trabalhar. Quem dá as cartas é o UFC”, resumiu. E quando fala da adversária, ela não vende facilidade. Rose é nome grande, duríssima, respeitada, e justamente por isso a luta tem cara de oportunidade e de prova de fogo. “Uma vitória sobre ela concretiza mais ainda que eu estou pronta para ser campeã”.

Só que, mesmo com o foco em Rose, a sombra do cinturão está ali. Valentina Shevchenko é o topo da divisão. Natália lembra quando ouviu a campeã dizer que não a conhecia e não esconde como recebeu. “Eu vi como um pouco de desdém”. Para quem passou a vida insistindo quando o mundo dizia “não dá”, a resposta veio no mesmo tom. “Vai me conhecer lá no octógono”.

No sábado, ela luta por mais uma vitória. Mas, no fundo, também luta para transformar 2026 no que ela prometeu que seria: o ano em que as promessas viram realidade e o ano em que a campeã, enfim, para de dizer que não conhece Natália Silva.