Markus Perez, o 'Maluko', sobe no octógono neste sábado para enfrentar Dricus Du Plessis. Com 2 vitórias e 3 derrotas no UFC, o brasileiro busca o começo de uma sequência de triunfos, e garante que 'dará as boas-vindas' a seu adversário, estreante no Ultimate.
Nos últimos dois meses, Markus teve três lutas canceladas, e em entrevista exclusiva à ESPN Brasil, reafirma que se Rodolfo Vieira fingiu a lesão para não enfrentá-lo, ele não tem honra como lutador. Entretanto, tira suas palavras se o problema na costela do compatriota for verdade.
Agora, finalmente, ele voltará a fazer o que mais ama: lutar. Em uma conversa descontraída, o lutador revisitou seu passado, quando desistiu de uma carreira segura aos 21 anos e decepcionou sua família, contou a origem do Coringa, sua marca registrada, e também revelou detalhes sobre seu ciclo de preparação, trabalhando em obra, como segurança de balada e ainda treinando.
Preparação insana: trabalho em obra, em balada e mais treinos
Em 1º de agosto, Markus tinha um encontro marcado contra Eric Spicely. O americano teve um problema com corte de peso, e horas depois Charlie Ontiveros, o substituto, sequer subiu na balança. Sua entrada no octógono foi adiada em mais de dois meses, mas esse ciclo de treino segue sendo o melhor de sua carreira, conta Maluko.
Por um problema familiar que o lutador preferiu não comentar, e que inclusive o atrapalhou psicologicamente antes da derrota para Wellington Turman, Markus precisou de novas fontes de renda. Assim sendo, em Miami, trabalhou das oito da manhã até quatro da tarde em construção, e no fim de semana era segurança em um bar, entrando às 10 da noite e saindo às três da manhã.
Foi o melhor camp que eu fiz na minha vida. Eu pude me descobrir e retornar às minhas raízes, lembrar das coisas que fazia quando comecei, de dormir na academia, comer no tatame... Era muito corrido, muito difícil. Busquei um pouco de humildade, me tornei um ser humano melhor.
Na construção, o trabalho era diário, então eu trabalhava, uns 3, 4 dias na semana, e os outros eu treinava mais. O funcional eu cortei porque eu chegava quebrado da construção, então eu só treinava técnico. Eu trabalhava na área de construção de piscina, então tinha que cavar o perímetro, instalar o encanamento, às vezes tinha que cavar com trator.
De final de semana, quase não dormia, dormia de dia, porque chegava de madrugada e no dia seguinte tinha treino. Foi muito puxado, mas foi bom.
Quem vai chegar numa balada e ver um atleta o UFC trabalhando de segurança? As pessoas nem imaginam. A balada era de brasileiro, e brasileiro é complicado, é f***. Principalmente morando no exterior... Dava trabalho, tive que expulsar muita gente lá de dentro.
Teve cara que veio me peitar e falar: "Você tá achando que você aguenta muito?". E eu pensava: "O que você quer, pra mim é diversão...". Eu não falava nada, mas chegou em um ponto que ele falou que ia enfiar a mão em mim. Eu olhei para ele rindo e falei: "É o seguinte, a única coisa que eu preciso é que você me acerte o primeiro, mas me acerte com vontade para eu cair. Porque eu preciso de um álibi de defesa pessoal para poder pegar você e te dar uma lição. Então acerta minha cara. Deixa meu olho roxo ou corta minha cara. Se você for cortar minha cara, dá uma cotovelada e bate bem no osso que fica mais fácil". Aí eu fiquei olhando para ele e dando a cara, e ele não fez nada. O cara estava causando, passando mão em mulher na balada, folgado, bêbado. Aí arranquei ele da balada e todo mundo comemorou.
Dos computadores ao octógono
"Para meus pais, o mundo caiu; acabou meu filho", Markus Maluko
Professor de Informática e estudante da Ciência da Computação, aos 21 anos o garoto nunca tinha subido em um octógono. Nove anos depois, ele está na Ilha da Luta e faz seu 6º combate pelo UFC.
A história de Markus Maluko é diferente da maioria e envolve um drama familiar para realizar seu sonho.
Imagina só, um pai que é Doutor em física nuclear pela USP (Universidade de São Paulo), uma mãe que tem duas faculdades... Aí o filho resolve largar os estudos, uma carreira promissora em uma área que ninguém passa fome, ainda mais sendo desenvolvedor. Para meus pais, o mundo caiu; acabou meu filho. Até fiquei fora de casa um tempo, foi bem complicado. Eles não aceitaram no começo.
Eu larguei tudo. Comecei treinando aos 21 anos e logo na primeira semana me apaixonei. Eu saia do trabalho e já ia para a acadêmia e fazia uns 5 treinos seguidos, de tanto que gostei da coisa. De noite, eu tinha faculdade, mas eu chegava atrasado normalmente, ou até faltava. Depois de três meses de treino, fui lutar em um evento de MMA amador em Paulínia, interior de São Paulo. No dia que eu lutei eu vi que eu nasci para isso. Quando eu senti isso, vi que não podia mais negar. Larguei o trabalho, larguei a empresa com meu pai, tranquei a faculdade e comecei a viver de luta. Nisso, meu pai e minha mãe... Já era.
Atualmente eles me apoiam, minha mãe é minha nutricionista, eles têm orgulho de poder falar que o filho deles é um dos melhores lutadores do mundo. Isso para mim é mágico, eu consegui mudar e fazer valer.
A história do Coringa
No UFC São Paulo, em novembro de 2019, Markus Maluko assustou o mundo ao chegar para a pesagem de sua luta contra Wellington Turman com o rosto pintado de Coringa. Agora, na Ilha da Luta, antes de enfrentar Dricus Du Plessis, repetiu a dose. Questionado pela reportagem sobre a história por trás disso, o lutador contou tudo:
Eu ia com um amigo para uma festa de Halloween e ele foi comprar nossas fantasias, mas não achou. Aí ele comprou umas tintas e decidiu ir de caveira. Eu não queria ir igual, aí ele falou: "Você não é o tirador de sarro, o cara da zoeira... Por que você não vai de Coringa?". Aí eu pensei e falei: "Vou de Coringa!". Eu sempre gostei do Coringa, ele luta contra todo mundo sem ter nada além da inteligência. Sempre valorizei ele por isso. E ele é louco, outra coisa que eu valorizo demais.
Aí ele pintou minha cara e na festa fez muito sucesso. Aos poucos, eu fui incorporando aquele negócio, realmente começando a pensar que eu era o Coringa. É muito louco. Eu entrei de uma forma no personagem que eu não queria mais tirar a maquiagem. Quando eu me pintei, eu não estava imitando o Coringa. Eu era o Coringa.
Na festa, um monte de gente falando que eu era o Coringa, gente dizendo que estava com medo e eu só dava risada. Depois da festa, a gente foi no Burguer King e eles me deram lanche de tão igual que estava, e eu entrei na cozinha para pegar, e eu comecei a sentir que não tinha limites.
Nessa festa, eu já tinha feito minha primeira luta no UFC, e em um momento eu estava sentado na sala e falei para um amigo que ia entrar de Coringa algum dia na pesagem. A gente estava vendo um evento do UFC. Ele disse que eu não tinha coragem, e aí no UFC São Paulo surgiu a oportunidade e eu fiz.
Todo mundo do UFC gostou, achou legal. Surpreendeu todo mundo. Muitos atletas me conhecem por Joker (Coringa em inglês). Não é o Markus Maluko, é o Coringa.
