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UFC 253: De corretor de imóveis a desafiante ao título: a incrível jornada de Borrachinha contada por quem o conhece

Em fevereiro de 2012, um corretor de imóveis de 20 anos de Contagem (MG) fez uma estreia profissional silenciosa no MMA, dentro de um modesto ginásio na vizinha Santa Luzia. Seu nome: Paulo Henrique Costa.

As habilidades de Paulo eram cruas, mas ele derrubou seu oponente e venceu por nocaute técnico no primeiro round. Uma ring girl apareceu e colocou uma medalha em seu pescoço, Paulo beijou sua bochecha. Ele recebeu R$ 100 por isso.

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Por acaso - ou destino - o UFC 147 teve que ser transferido do Rio de Janeiro porque uma cúpula das Nações Unidas monopolizou os quartos de hotel. Então, em 23 de junho de 2012, o evento foi transferido para Belo Horizonte. Paulo e seu irmão mais velho, Carlos, imploraram à mãe que os ajudassem a ir ao evento. Eles não tinham dinheiro para comprar os ingressos.

"Eu falei que era muito caro, falei: 'Vão gastar um dinheiro desses para assistir luta?'", conta dona Maria Augusta, mãe de Paulo e Carlos. "E eles responderam: 'A gente precisa ir, precisa ver como que é, precisa estar lá perto para sentir essa emoção'. E eu vi que eles precisavam mesmo e consegui o dinheiro com a minha mãe", complementa.

"E depois eles voltaram e falaram: 'É isso mesmo que queremos fazer das nossas vidas'".

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Há exatos 8 anos atrás eu fiz esta foto. Final do TUF Brasil 1. Wanderlei Silva x Rich Franklin II. Eu estava com meu irmão na arena do Mineirinho em BH assistindo o primeiro @ufc aqui em Minas Gerais . Recorde de público no Brasil até aquela presente data , 18 ou 24 mil pessoas presente, não me lembro ao certo, mas foi um verdadeiro caldeirão. Minha mãe e meu padrasto haviam comprado os ingressos pra gente assistir , pois apesar de querer muito ir, nós não tínhamos dinheiro para pagar... De qualquer forma, Valeu muito a pena irmos assitir à aquele evento , pois estar lá presencialmente ascendeu uma chama dentro de mim que realmente era aquilo que eu desejava fazer da minha vida. Me lembro que em estado de euforia e atônito assistindo eu virei pro lado onde meu irmão estava e disse; "irmão em muito breve eu estarei lá dentro daquele octógono lutando , você vai ver. "Ele respondeu; " vai sim irmão !". Eu não estava treinando MMA, mas percebi que havia encontrado naquele momento um sentido pra minha vida. O evento acabou, e nos continuamos lá sentados, anestesiados com todas as emoções vividas, e eu particularmente, mentalizando que eu iria um dia fazer parte do show, mesmo que sendo praticamente impossível pelas minhas condições atuais , eu sentia no fundo da alma que de algum jeito , o meu sonho era possível. Comecei a trabalhar e me preparar e as coisas foram acontecendo pouco a pouco. O tempo passou e 5 anos depois eu finalmente pisei lá dentro fazendo minha estreia Pelo UFC no dia 11/ março de 2017 com um nocaute em 1:17 segundos e fui premiado com a performance da noite . Hoje estou em treinamento para a minha próxima luta que será pelo título dos médios . Da mesma forma que falei 8 anos atrás, nesta mesma data de hoje eu digo que sinto aquela mesma fé e convicção que serei campeão e subirei para ser campeão de 2 categorias diferentes. Acredite em tudo aquilo que vc sente verdadeiramente e lute por isso. "O universo inteiro sempre conspira a seu favor para que você possa realizar seus sonhos." O Alquimista, de Paulo Coelho.

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Paulo ficou mais conhecido como Borrachinha e enfrenta neste sábado o campeão dos médios Israel Adesanya, no UFC 253, na "Ilha da Luta", em Abu Dhabi. Será um marco na jornada dele, um ex-corretor de imóveis e especialista em TI que largou seus empregos diários logo depois da primeira experiência no UFC em 2012 para se concentrar no MMA.

A mãe, Maria Augusta, acredita que o destino de seu filho é segurar um cinturão. Sua namorada, Tamara Alves, chama de sonho. Um de seus melhores amigos diz que ele é um "psicopata" em sua busca por isso.

A luta pelo título dos médios é uma das lutas mais esperadas de 2020, já que Borrachinha (13-0) e Adesanya (19-0) estão invictos e genuinamente não gostam um do outro. O presidente do UFC, Dana White, previu que será a luta do ano.

Mas quem é Paulo Borrachinha além de um peso médio de alto nível e com um físico totalmente definido? A ESPN falou com aqueles que o conhecem melhor para obter a resposta.

Destino como lutador

Maria Augusta, mãe

Ele era muito espoleta quando criança. Sempre tinha uma confusãozinha, essas coisas normais de criança. Mas uma vez ele colocou uma bombinha dentro do cano que dá entrada para a varanda do meu vizinho. E essa bombinha estourou dentro do cano, estourou o piso da casa do vizinho. Eu estava indo trabalhar e o vizinho me chama. Eu voltei ele para casa e peguei ele de vara!

Ele começou a trabalhar como assistente de informática, como se fosse um estágio. Aí ele trabalhou também em um telemarketing, chegava tarde em casa à noite, por volta de meia-noite. Ele era esforçado, sempre dando o melhor dele. E depois passou a trabalhar como corretor de imóveis. E ele estava conseguindo fazer boas vendas, fazendo um dinheirinho bom. Mas eles viram que não estava dando tempo para treinar. Ele precisava se empenhar para ir atrás de cliente e não estava tendo tempo para treinar. Quando chegava a tarde, já estava muito cansado e não tinha um rendimento satisfatório.

Aí o Carlos me falou: “Mãe, o Paulo Henrique não está tendo tempo, está ficando muito cansado e os treinamentos são muito puxados. E ele tem futuro! Ele nasceu para fazer isso e a gente precisa apoiar ele para ele parar de trabalhar para poder ficar por conta dos esportes e dos treinos”. Só que ele era vaidoso, sempre foi vaidoso, queria a calça, o tênis e o boné de marca. Então falei que podia sim apoiar, mas dentro das minhas condições. Eu trabalhava e tudo que eu fazia era para eles mesmo. Mas eu também não tinha um salário excelente. Eu ia fazer o que tinha condição de fazer e ele ia ter que entender que não poderia ser exigente. E assim foi! Ele deixou o trabalho para ficar por conta do esporte, tinha dia que ele ia treinar só com o dinheiro pra ir e voltar, levando a marmitinha porque não tinha dinheiro para comer na rua... Eu ficava com o coração na mão de não poder atender todas as necessidades. Mas Deus sempre entrou com providências para a gente!

Ele realmente é explosivo! É o natural dele. Se ele estiver insatisfeito com alguma coisa, ele não consegue esconder, é natural, na hora. Mas ele é uma pessoa que se passa dos limites, ele vem e se retrata, pede desculpas. E eu sempre bato nessa tecla com ele, falo que ele não pode explodir. Mas ele é amoroso, carinhoso. A gente mora em família, no nosso lote moramos eu, meu esposo e o Paulo Henrique na nossa casa e na casa debaixo moram o Borracha, a esposa e os filhos. Eles estão o tempo todo aqui. O Paulo é carinhoso com as crianças, brinca demais, tem hora que parece uma outra criança! É amoroso com os animais, gosta muito. Tem até um episódio que ele estava voltando do trabalho e chegou meia-noite com uma cachorrinha toda embarrelada. Era um dia chuvoso, a cachorrinha estava toda suja. Ficamos duas horas lavando essa cachorrinha, dando banho. Se ele acha um cachorro perdido, ele quer cuidar. Ele é amoroso, é dele isso. Uma pessoa caridosa, amorosa, brincalhona... É algo dele. Ele realmente é explosivo, é um temperamento dele, mas que nada tem a ver com o coração dele.

Medo de largarto!

Carlos Borracha, irmão

Meu pai sempre gostou muito de esporte, gostava muito de futebol. E aí me lembro que meu pai fez uns pesinhos com uma latinha de massa de tomate. Botou cimento lá dentro, um ferrinho no meio e fez dois halteres. E eu lembro que meu irmão ficava em casa, no terreno, fazendo exercício para o bíceps com 9 ou 10 anos de idade. Já gostava muito de malhar. Isso partiu dele, bem cedo, com esse incentivo do meu pai.

Meu pai gostava muito de futebol, incentivava a gente a jogar bola. Meu irmão também começou no futebol com uns 8 ou 9 anos. E começou no muay thai quase na mesma época. Depois começamos no jiu-jitsu praticamente juntos, ele começou uns quatro meses antes que eu. Mas ele parou depois de um tempo e focou muito na musculação. Então ele cresceu bastante, ganhou peso, ganhou bastante força. Eu sempre chamava ele para voltar e com uns 16 anos ele voltou a treinar, eu já dava aula e foi onde ele começou a competir e conquistou vários títulos.

Chegou um momento que éramos apenas eu, minha mãe e meu irmão, meu pai já não morava mais com a gente. Eu trabalhava com informática, era técnico e dava aulas, e também já dava aulas de jiu-jitsu também. A situação estava um pouco difícil nessa época e aí minha mãe falou para o Paulinho que ele ia ter que trabalhar para ajudar. Aí me lembro que ele entrou em um serviço de telemarketing. Foi o que ele ficou mais tempo, deve ter ficado no máximo uns dois meses! Mas ocupava muito o tempo dele, já não conseguia treinar direito. Aí foi onde eu conversei com a minha mãe e falei que meu irmão tinha um potencial muito grande para a luta, queria ser um lutador profissional de MMA e a gente tinha que dar esse apoio para ele porque eu acreditava no potencial dele. Eu me lembro que minha mãe falou: ‘Ai, Júnior, se você acredita nisso, então tudo bem. Vamos segurar as pontas do jeito que a gente pode e vamos nessa!’.

Um homem daquele tamanho morre de medo de calango! Lembro uma vez que minha vó fingiu que pegou um calango, mas pegou uma folha e correu atrás dele. O bicho entrou no banheiro e se trancou, não saia mais! Ficou metade de um dia com medo do calango.

Uma outra é quando a gente estava num sítio, uma criancinha lá pegou um calango morto. Eu nem sabia que ele tinha medo ainda. Mas essa criança chegou com o calango morto perto dele e ele ficou bravo demais!

É engraçado, às vezes a gente tem medo de umas coisas... Não é nem medo, é uma gastura com essas coisas, não gosta de chegar perto. A gente até brinca que se um adversário descobrir isso e chegar para uma luta com um calango ali, já ganhou a luta!

"Não acho, eu sei que ele vai ser campeão"

Tamara Alves, namorada de muito tempo

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Porque hoje tem UFC hehehhe... #ufc #ufcnocombate #ufcrio

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Conheci o Paulo em 2013. O marido da minha prima treinou com ele na academia. Ele disse: 'Uau, Tata, tem um cara muito bonito na academia. Acho que você gostaria dele'. A academia estava organizando um campeonato de jiu-jitsu e ele me disse para dar uma passada. Paulo estava competindo lá. Nos cumprimentamos, mas não falamos. Ele estava realmente focado. Depois disso teve uma festa em um sítio do pessoal da academia e eu fui junto. Lá a gente se conheceu, ficou jogando baralho e ele se interessou. Pediu meu número para um amigo meu – nem foi para mim!

Todo mundo falava dele. O Paulo já se sobressaía como competidor de jiu-jitsu na época. E eu pensava: ‘será que é bom mesmo?’. As vezes eles não conheciam outras pessoas, o cara poderia ser bom só na academia mesmo. Mas nesse campeonato eu fiquei impressionada. Ele era muito bom e muito calmo. Você via no semblante dele uma tranquilidade fora do comum, que você realmente não via em mais ninguém. Então eu fiquei bem impressionada em com a cabeça dele de atleta já nesta época. E até hoje é assim!

O Paulo é uma pessoa que não treina 50, 80%, é sempre 100%. Eu e minha sogra quando vamos em dia de sparring, dá vontade de chegar na academia e chorar porque a gente vê que ele está deixando tudo dele ali. É um lado que as pessoas não veem, aquele treinamento intenso. O Paulo dá mais do que pode, inclusive, os treinadores falam até para parar.

Eu não acho que ele vai ser campeão, eu tenho certeza! Porque eu nunca vi alguém ir atrás dos sonhos como ele. Ele é uma pessoa que sente o sonho. A gente fala muito sobre o sonho que Deus colocou na própria alma da gente e esse é um sonho que ele tem ali dentro, é ardente, intenso. E eu não vejo ele terminando essa vida sem realizar o sonho dele. Porque é tão intenso, tão forte e ele é tão dedicado que não tem como não conseguir chegar lá.

Um 'psicopata' competindo

Allan Hugo, amigo de infância

Ele é um cara muito simples. Até hoje ele mora na mesma casa onde foi nascido e criado, poderia já estar em outra situação.

Graças a Deus hoje a gente tem uma vida diferente, mas há um tempo atrás a gente não tinha uma situação financeira favorável. Nunca passamos por nenhuma dificuldade, mas o dinheiro era curto, contado para o mês. E o Paulo já pagou campeonatos para eu disputar. Mesmo sem ter o dinheiro, ele conseguiu arrumar e pagar o Campeonato Mineiro de jiu-jitsu, que eu sonhava tanto disputar. Foi muito bacana isso, demonstrou o cara que ele é. Não falou nada, foi lá no anonimato e fez isso para a minha felicidade, para o meu bem-querer.

Ele ajuda as pessoas e não fala nada para ninguém. Eu sou servidor público, trabalho aqui na prefeitura municipal, e descobri que ele estava ajudando um morador de rua. Antes de tudo ele estudou o cara, para ver se estava mexendo com coisa errada. Depois que viu que o cara queria mudar de vida, que queria uma oportunidade, ele começou a oferecer condições. Não dar coisas, mas oferecer condições para esse cidadão começar a caminhar. Aí ele até me procurou para ajudar a tirar os documentos, o cara não tinha nem identidade, não tinha CPF, nada. Foi aí que descobri que ele já estava ajudando esse cidadão, até dando moradia, entre outras coisas que ele nem gosta de falar. Isso é o que mostra quem é o Paulo Costa!

O Romário tem uma frase que fala: ‘Papai do Céu apontou para mim e falou que eu sou o cara’. No MMA, podemos dizer que apontou também para o Borrachinha. Desde novo, se sobressaía em tudo. Pelo lado bom, é um psicopata! Ele vive para isso, nasceu para isso. É um predestinado. É competente, disciplinado. Ele não aceita o bom, não tem isso no dicionário dele. Ele fala isso para gente, que o bom está muito perto do ruim. Ele quer ser o melhor, que a excelência em tudo.

Não tenho dúvida nenhuma, já considero ele como o campeão. O cara é um fenômeno, em tudo! Os médicos ficam abismados com ele, a genética dele é completamente diferente. Eu te falo hoje: ele é o campeão e ele é o maior de todos os tempos! Tivemos grandes exemplos, desde Anderson Silva, Vitor Belofrt... Mas ele é o mais completo! Tem esse carisma, tem essa identidade, essa aura que é dele mesmo, não é nada forçado. É natural!

Investidor em si mesmo

Tamara Alves, namorada

Hoje um lutador que não entende que tem que dar retorno no evento tanto no octógono quando na parte promocional... Ele tem essa cabeça! Você é lutador, mas tem que entender que é um negócio. Tem que ter uma visão do negócio. E o Paulo tem essa cabeça, entende que estamos em uma outra época. Tem que mesclar, ser um bom lutador, mas também um bom vendedor. E acho que ele entende tão bem porque ele era um vendedor, era um corretor imobiliário, então entende como um negócio. A gente conversa muito sobre isso, como o canal do YouTube. É realmente muito complicado por conta de tempo, qualquer projeto novo demanda muito. Mas a gente viu como uma necessidade de ser mais uma coisa para trazer os fãs mais próximos dele também.

Agora sobre o inglês, o que acho muito legal nele é que ele nunca teve vergonha. Eu mesmo tenho muita, tenho dificuldade de falar língua por medo de errar. E acho isso muito bacana nele. Ele sempre se esforçou desde o começo. Nunca fez curso de inglês, nunca! E veio de uma escola pública, não tinha base nenhuma no inglês. Ele foi para os EUA, focou em aprender. Entendia que isso era importante desde o começo para poder se comunicar tanto com a mídia quanto com os fãs. Os brasileiros as vezes não tem tanta expressão atualmente por não falar inglês, atrapalha ter uma expressão mundial maior e até de conseguir um patrocínio grande.

"O garoto é especial"

Eric Albarracin, treinador

Quando nos conhecemos, eu estava treinando wrestling e ele estava assistindo e disse: “Ei, eu quero aprender esse movimento”. Então, eu ensinei a ele o movimento, mas eu disse, “Vamos voltar ao básico. Isso é um movimento de faixa-preta e esta é apenas sua primeira semana”. E ele disse: “OK, você está certo, você está certo”.

Mas então eu o vi lutando, e ele fez o movimento que eu disse que ele não deveria estar fazendo e olhou para mim. Eu disse a mim mesmo: “Esse garoto é especial!”.

Mas vou te contar uma coisa sobre o Paulo: sempre que vou a algum lugar com ele, a energia muda dentro da sala. Todos os olhares vão para ele. E não é porque ele é um lutador. É a aparência dele.

Vou te dar um exemplo. A gente estava em uma loja de varejo nos Estados Unidos e só depois eu percebi que a gente não tinha o cartão dela, não poderia fazer compras lá. Eu disse: “Aqui está o que vamos fazer: Paulo, use o seu sotaque e diga que não sabia”. Ele foi em um caixa que tinha uma senhora de 70 anos. Ela não só deixou ele comprar como escreveu o número dela no recibo, com as palavras, 'Volte a qualquer hora.' E ele voltou! “Temos o número dela. Agora podemos voltar”, ele me disse.

Uma espécie diferente

Henry Cejudo, ex-campeão do UFC e amigo

Conheci o Paulo um pouco antes dele lutar contra o Johny Hendricks [novembro de 2017]. O conheci através do meu treinador, o capitão Eric Albarracin. Paulo sabia que faltava uma peça em seu arsenal, então decidiu ir com o melhor cara do wrestling no MMA, que é o Eric. Ele veio para o Arizona e passou alguns meses aqui, se não me engano, e nos tornamos amigos. Eu sabia que ele estava se esforçando para ser um campeão mundial desde então. Ele veio e ficou na minha casa, fazíamos tudo juntos e ficamos amigos na hora.

Paulo é mesmo uma espécie diferente. As pessoas pensam isso do Yoel Romero é um espécime, mas realmente não há comparação com Paulo. Ele é um lutador de jiu-jitsu que se apaixonou pelo MMA e se tornou um dos nocauteadores mais cruéis que o UFC já teve.

A maioria das pessoas provavelmente não sabe disso, mas seus pais costumavam ser pastores. Sua mãe e seu pai, que faleceu quando ele era mais jovem infelizmente, eram pastores na igreja cristã e há muito propósito com o Paulo. Ele entra em lutas sabendo o que está por trás do 'The Eraser', os princípios que ele tem, o falecimento de seu pai e o desejo de homenagear seu irmão mais velho.

Ele trabalha muito. Nunca vi alguém trabalhar como o Paulo. E isso diz muito! Já vi de tudo, do mundo do wrestling ao MMA.

Chael Sonnen

Ex-UFC e técnico do TUF que Borrachinha participou

Conheci o Paulo no estúdio do TUF. Wanderlei Silva e eu treinávamos, e os lutadores têm que lutar para entrar em casa. Então o Paulo entrou pela porta e estava com uma pilha de papéis na minha frente com currículos de todos os lutadores. A maioria desses caras já lutou no Jungle Fights ou é faixa-preta no jiu-jitsu ou eles têm algumas lutas de boxe. E o currículo do Paulo simplesmente diz: levantador de peso. E eu disse: “Ok, bem, ele parece um levantador de peso”. Mas ele não se destacou. Não me lembro quando ele foi escolhido. Mas ele era apenas um dos caras, é o que estou dizendo.

Ele perdeu sua primeira luta, e você meio que tem algumas opções quando perde no show. Você pode ficar deprimido, o que é o mais comum e o mais lógico. É devastador ter que morar na casa e estar perto dos caras que ainda estão perseguindo o sonho depois que você foi eliminado. Ou você pode tratar o TUF pelo que ele é, que é o melhor campo de treinamento que você pode conseguir, com os melhores treinadores nas melhores instalações. E foi isso que ele fez. Ele trabalhou muito duro.

Ele estava muito curioso. Ele vinha para o meu time, mesmo sendo do time do Wanderlei. Ele foi pedir permissão ao Wanderlei e conseguiu, o que me surpreendeu porque o Wanderlei odiava tudo em mim. Ele chegava e dizia: “Você pode me mostrar isso? Você pode explicar isso?”. Ele fazia isso com todo mundo, e ninguém estava com muita vontade de ajudá-lo porque ele simplesmente parecia aquele cara que estava no lugar errado na hora errada de sua vida. Ele estava em um esporte tão complexo e sofisticado em termos de tentar alcançar alguém - e é como se ele fosse um garoto de 9 anos. Parecia que não ia funcionar para ele. Mas ele certamente teve o esforço.

Foram muitos dias que minha equipe teve que atrasar o treino, porque a equipe do Wanderlei estava na academia antes da gente e o Paulo ficava lá batendo em alguma coisa, trabalhando em alguma coisa, pedindo alguma coisa para alguém. Ele era o último a sair todos os dias.

Ele ainda é um touro em uma loja de porcelana hoje, mas ele é um touro que entende o poder e aperfeiçoou as defesas para manter a luta em pé. Eu valorizo as memórias dele entrando no esporte e realmente sendo nada mais do que curioso. Não acho que ele estava pensando em um título mundial naquela época, ele simplesmente gostava muito das técnicas e dos ajustes diferentes. Eu me lembro daquela época da minha carreira e isso vem a minha mente. O que você gosta de fazer se torna o que você tem que fazer. E conversando com seus treinadores de agora, Paulo não perdeu isso.