Mario Yamasaki não precisou vestir as luvas e nem calçar o protetor bucal para levar o nome do Brasil ao redor do mundo usando o MMA. Consagrado como o “Homem do Coraçãozinho”, ele esteve em algumas das maiores lutas do UFC, como no lendário nocaute de Anderson Silva contra Vitor Belfort. Há mais de um ano, porém, ele está banido do octógono mais famoso do planeta. E não estará em ação no UFC 237 deste sábado, no Rio de Janeiro.
Ao olhar para trás, ele mesmo admite: deixou correr demais a luta entre Valentina Shevchenko e Priscila Pedrita, fazendo com que a brasileira tomasse muitos golpes a mais que o necessário. Foram 203 golpes desferidos contra apenas três da brasileira. Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Yamasaki explica detalhadamente o que o levou a cometer esse erro.
“Eu lembro que nesse dia eu tinha muita exposição na mídia, muita gente me badalando e acabei não focando em quem era a Valentina, quem era a Pedrita. Eu acabei não estudando isso”, disse.
“Uma das coisas que eu falo (nas instruções no vestiário) é: enquanto você está se defendendo e está na luta, eu não vou parar. Eu vou deixar você se defender até você conseguir sair. E toda vez que a Valentina estava dando soco, um pouco antes de parar eu falava a Pedrita que se ela não se mexesse eu ia parar a luta. A Pedrita se mexia e continuava se defendendo”, segue.
“Acabei seguindo a minha palavra, mas depois que você analisa, você vê que eu passei do ponto, devia ter parado antes. A diferença de nível entre as lutadoras era muito grande e na hora eu não estava focado nisso, não pensei, acabei errando”, complementa.
A punição a Mario Yamasaki foi praticamente imediata. Na mesma noite, Dana White usou o Instagram para criticar o árbitro publicamente.
“O juiz está lá para proteger, e Mario NÃO FEZ isso. Essa não é a primeira performance nojenta dele no octógono. Outra infelicidade é que não posso fazer nada a respeito, só a comissão (Atlética) brasileira que pode. E eu espero que depois dessa assustadora e incompetente exibição ele nunca pise mais em um octógono”, postou.
Por enquanto, o pedido de Dana foi atendido. Foram mais de 50 eventos do UFC desde então, três deles em território brasileiro. Yamasaki não esteve em nenhum.
Mas o UFC, na teoria, não tem nenhum controle sob os árbitros que estão em seus eventos. São as chamadas Comissões Atléticas que os escolhem. Vale explicar ainda que cada local tem o seu próprio órgão regulador. Para arbitrar, um juiz precisa ter a licença específica da Comissão do lugar em que o card será realizado.
O Brasil, por exemplo, tem a CABMMA (Comissão Atlética Brasileira de MMA). E ela garante: o afastamento não teve nada a ver com Dana White.
Anderson Silva elege seus grandes ídolos e coloca Cristiano Ronaldo na frente de Messi
“Foi uma decisão nossa (não o colocar nos eventos do UFC no Brasil). São vários fatores, mas o profissional escalado precisa estar atuando para eu conseguir escalá-lo, precisa estar se atualizando, fazendo cursos. Ele simplesmente está parado. Ele precisa fazer exatamente o que todos os profissionais precisam: constantemente se atualizando, fazendo cursos, participando de eventos para poder ser escalado em grandes eventos”, diz Cristiano Sampaio, diretor-executivo da CABMMA.
“A experiência conta, mas hoje todos os árbitros trabalham no UFC. Não posso ter tratamento diferenciando. Se ficar sempre me baseando no passado, vou estar sendo injusto em quem está sempre atuando, dando resultados positivos”, complementa.
Yamasaki explica que realmente se afastou um pouco. Nesse tempo, arbitrou em apenas três eventos: dois da PFL (Professional Fight League) nos Estados Unidos e um chamado MMA Brazil Tour, realizado em Ilhabela (SP), em novembro.
Mas resolveu tirar uma espécie de ‘ano sabático’ do UFC, até para não acabar se frustrando por não conseguir voltar ao maior evento de MMA do mundo. Focou em outros negócios, como as academias que tem e palestras que ministrou, e até por isso nem tentou obter novas licenças das Comissões Atléticas.
Yamasaki diz que nunca manteve conversas com Dana White, mas admite que Mark Ratner, vice-presidente para assuntos regulatórios do UFC, o pediu um ‘tempo de repouso’. Agora, porém, o sonho é voltar. Até mesmo para coroar uma carreira que já completa 20 anos dentro do octógono – ele estreou no UFC 20, em maio de 1999.
“Com Dana eu não conversei. Eu só vi pelas mídias. Converso com a Comissão Atlética e com o Mark Ratner, que é o regulador do UFC, e eles falaram que eu tinha que ficar em repouso por um tempo. Esse ano deu para refletir, eu já vi o que eu preciso arrumar, vi o que eu preciso fazer. Em 20 anos você se errar duas ou três vezes, não acho que é uma coisa para você nunca mais arbitrar”, diz.
O caminho para o retorno é simples na teoria. Yamasaki precisa ter a licença aprovada em alguma Comissão Atlética. Ele pretende tentar isso nos próximos meses e até acredita que não terá problemas para conseguir justamente por conta do currículo de carreira que tem.
De qualquer forma, ele garante: não guarda nenhuma mágoa de Dana White e nem do UFC. Pelo contrário!
“Se não arbitrar (no UFC) acho que fiz minha carreira brilhantemente, não tenho que reclamar, nem de Dana, de UFC, nem de nada, porque eu estou feliz com o que aconteceu comigo. Se eu não voltar a arbitrar UFC, já foi. Eu arbitro PFL, Bellator, outros eventos”, diz.
