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Campeã mundial de jiu-jitsu superou depressão e ainda enfrenta preconceitos por ser mãe

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Campeã de jiu-jitsu conta como superou o nojo pela luta e venceu a depressão após a morte do pai: 'Acendeu algo em mim' (1:59)

Carina Santi, que é a número um do mundo na categoria master, concedeu entrevista exclusiva para a ESPN (1:59)

O Brasil no lugar mais alto do pódio. Carina Santi chegou ao topo do jiu-jitsu em agosto, ao conquistar o campeonato mundial em Las Vegas e encerrar a temporada como líder do ranking da categoria master I da International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF). Na última semana, a paulista ainda foi vice-campeã do World Pro, em Abu Dhabi.

O início dessa trajetória vitoriosa aconteceu há 15 anos, quando Carina, que cursava Educação Física, superou a aversão à luta no chão e mergulhou de cabeça na modalidade.

"Na primeira academia onde eu dava aula de musculação e ginástica, a sala de jiu-jitsu ficava ao lado. Era pequena e fechada, com uma porta de vidro. Quando abriam a porta, o cheiro era insuportável, e eu morria de nojo. Falava que nunca praticaria aquilo", contou Carina em entrevista exclusiva para a ESPN.

O que parecia improvável se tornou uma válvula de escape. Com passagem pelo handebol na adolescência, Carina encontrou no jiu-jitsu uma forma de enfrentar adversários invisíveis, que a machucavam na sua vida pessoal.

"Meu pai tinha acabado de falecer, dois dias antes do meu aniversário de 19 anos, e eu fiquei em depressão, com síndrome do pânico e crises de ansiedade. Ganhei mais de 20 kg em menos de dois meses".

Foi nesse momento difícil que seu atual mestre, Júlio Pinheiro, sugeriu que ela experimentasse a modalidade.

“Eu ministrava aula de natação na época em uma academia na Aldeia da Serra e, duas vezes por semana, pegava carona com o Júlio para Osasco. Então, ele falou: ‘Por que você não aproveita que você tem que ficar me esperando e não começa a treinar o jiu-jitsu?’. Respondi que não era para mim, mas ele insistiu tanto que eu acabei fazendo uma aula".

"Apanhei horrores, mas algo acendeu dentro de mim e eu não podia abaixar a cabeça. Iria treinar até eu voltar e bater e quem me bateu. No final das contas, nunca mais parei de treinar jiu-jitsu e são 15 anos praticando a modalidade", contou Carina.

Além de se encontrar no jiu-jitsu, Carina deixou o avô orgulhoso.

“O sonho dele era ter alguém na família que fosse para o lado da luta, porque ninguém treinava, era uma família de sedentários. Quando levei ele para me acompanhar numa competição, ele chorou”.

Superação diária nos tatames e no papel de mãe-atleta

Para Carina, o esporte foi transformador, inspirando-a a buscar sempre sua melhor versão.

"Você se supera todos os dias. O jiu-jitsu é um esporte técnico e em constante evolução, o que me motiva a sair da zona de conforto. Isso me faz levantar da cama todos os dias. Tento transmitir isso aos meus filhos: dar o meu melhor diariamente, independentemente das circunstâncias".

Mesmo acumulando medalhas, Carina ainda precisa enfrentar preconceito na luta por patrocínios.

“Pelo fato de eu ser mãe, muitas empresas já fecham as portas de cara e nem querem saber. Parece que a sociedade tem a impressão de que a mãe não é capaz de fazer as coisas, porque estaria 100% dedicada à família, porque os filhos seriam uma limitação para as atividades. Algo que, claro, não é verdade".

“É complicado demais para você conseguir patrocínio, porque as empresas acham que dar um produto é patrocinar. Eu não pago meus boletos ou compro uma passagem para competir com produtos. Sempre estou na batalha para conseguir patrocinadores. Tenho media kit e envio para várias empresas. A maioria nem responde", desabafa.

Para contornar essa dificuldade, Carina recorreu a vaquinhas, que a ajudaram a custear competições internacionais, e também trabalha como personal trainer e influenciadora fitness.

"Hoje, sou um atleta profissional e o que que difere um profissional de um amador é a remuneração, não é? Só que eu nunca fui remunerado para isso. A vaquinha vem desde do meu primeiro campeonato Internacional. Eu era estagiária, ganhando 300 reais por mês, e surgiu a oportunidade de lutar o Pan-Americano na Califórnia. Nunca imaginei que ia um dia para fora do país, nunca tinha pego um avião".

“Eu trabalhava em duas academias na época e fazia faculdade, então, comprei um porquinho de porcelana e escrevi Carina Santi rumo ao Pan-Americano. Para onde eu ia, esse porquinho ia comigo. Ali consegui o dinheiro da minha alimentação e parcelei a passagem em 10 vezes".

Desigualdade de gênero e transição para o fisiculturismo

A atleta também denuncia a disparidade entre as premiações de homens e mulheres no jiu-jitsu.

“Alguns campeonatos até tem premiação, mas são raríssimos, principalmente no feminino. Você vê premiação no jiu-jitsu que o homem ganha 50 mil e a menina ganha 2 mil. Olha que diferença absurda. Isso porque muitas vezes eles oferecem para gente fazer as lutas sem ganhar nada em troca".

Aos 34 anos, Carina vê a idade como um possível limite para os rendimentos no jiu-jitsu, mas já vislumbra uma nova trajetória no fisiculturismo.

“Eu sou faixa branca no fisiculturismo porque tem só 2 anos que estou participando. Quero me profissionalizar nisso. Eu não sou talentosa, sou muito esforçada. No ano que vem, planejo participar de pelo menos três ou quatro competições no fisiculturismo, sem deixar de lado os principais campeonatos de jiu-jitsu. Então, quero ganhar tudo".

Carina Santi segue competindo nos tatames, já de olho em novos desafios e buscando inspirar outras mulheres a superarem limites.