<
>

O legado da prata: como a medalha olímpica de Douglas Vieira transforma vidas com o judô no Vale do Ribeira

Douglas Vieira e a medalha de prata de uma final inédita transformam o judô social em Iguape, uma das cidades mais carente do rico estado de São Paulo


O judô brasileiro é o esporte olímpico que mais coleciona medalhas para o Brasil na história dos Jogos Olímpicos. Foram 24 pódios contra 19 da vela e do atletismo, modalidades que vêm logo atrás, em um país que insistem em chamar de "do futebol".

Em 1984, o Brasil foi o país do vôlei, com a prata da equipe masculina, do atletismo, com o ouro de Joaquim Cruz nos 800 m, da natação, com o segundo lugar de Ricardo Prado nos 400 m medley, e também do judô, com a primeira final para o Brasil nos Jogos.

O dono do feito foi o paranaense Douglas Vieira, hoje com 61 anos, um ídolo para os judocas e, particularmente para mim, que treinava aos 14 anos no extinto Volkswagen Clube, em São Bernardo do Campo, ainda faixa roxa, sonhando ser como ele ou desejando um dia poder falar com o atleta que chegou pela primeira vez numa final olímpica da modalidade.

Algo que a profissão de jornalista, com o passar do tempo, me deu de presente.

Desde 1991, como amante e praticante amador do esporte, faço reportagens com ídolos como o sensei Douglas, cara humilde, inteligente, generoso e mestre no treino, na lapidação e na formação de atletas para a seleção.

Aquela medalha de prata foi apenas o resultado de uma extenuante entrega ao esporte de alto rendimento que, segundo o próprio Douglas, é apenas uma parte importante, mas não a principal da filosofia do judô.

“O judô competitivo é apenas uma parte do esporte. São pouquíssimos que conseguem chegar e se manter lá. Mas o que eu vejo de importância mesmo é o judô na formação educacional das crianças e dos adolescentes. É isso que a gente tenta fazer em Iguape com o sensei Lucas”, disse o medalhista olímpico em 1984.

O depoimento foi dado à reportagem em um tatame que praticamente pegava fogo no calor escaldante de Iguape, na vila do Rocio, uma das mais carentes da cidade.

A prata de Douglas Vieira não lhe rendeu apenas fãs. Também abriu as portas para que o medalhista vivesse para o resto da vida ligado ao esporte.

Ele se tornou técnico, comentarista, inclusive com passagem pelos canais ESPN em Jogos Olímpicos, e treinador de grandes clubes. Recentemente foi demitido pelo Pinheiros e pela Confederação Brasileira de Judô (CBJ), mas continua colaborando como coordenador da modalidade no Paulistano e encabeçando um projeto social que vem transformando muitas vidas no litoral paulista.

Como técnico, Douglas treinou Lucas Alexandre de Oliveira, hoje com 46 anos, professor de judô em Iguape. O pupilo foi um atleta dedicado, mas não conseguiu alçar voos mais longos como o mestre e alcançar uma medalha olímpica.

Lucas é gente humilde. Nasceu na favela de Paraisópolis, em São Paulo, e aos sete anos mudou-se com a família para o Vale do Ribeira, no litoral paulista, uma das regiões mais pobres e esquecidas pelo poder público.

Quando criança vendia cocada na balsa, que ligava sua cidade ao município de Ilha Comprida.

Morou em São Paulo na época que acreditava no judô de rendimento, voltou às raízes com o intuito de fazer outro tipo de história na cidade que cresceu. Isto é, oferecer algo a mais para as crianças e adolescentes do bairro carente.

Os caminhos da prata

Na missão de levar esporte e educação para a comunidade, Lucas vem enfrentando uma série de dificuldades, desde 2006, para manter o próprio projeto em pé.

Para que as portas não fechassem, Douglas Vieira abraçou a causa do antigo pupilo. Reuniu 30 amigos, parceiros do projeto, que ajudam com R$ 200 cada um por mês.

A sede é um galpão de 200 metros quadrados, que abriga um grande tatame.

Com o dinheiro arrecadado, Lucas ganha uma ajuda de custo de menos de um salário mínimo por mês, paga o aluguel do espaço e, quando sobra alguma verba, fornece lanches para as crianças que geralmente chegam na academia sem nada no estômago.

Quando Lucas percebe que a criança está com fome, logo mobiliza a turma do medalhista Douglas, que faz ações extras, como cestas básicas para ajudar pais que têm filhos e encontram dificuldade para conseguir alimento.

Lucas também sobrevive com a família vendendo sorvetes nas ruas de Iguape e Ilha Comprida.

O sonho de momento do discípulo de Douglas é construir uma sede própria para treinar e receber as crianças para aulas de reforço escolar no novo espaço.

O terreno doado pela Prefeitura em Iguape aguarda a liberação do projeto e o início das obras que serão feitos por uma empresa parceira. Douglas e os amigos acreditam na transformação e nos caminhos da medalha de prata.

Mas o Projeto Judô Iguapé, que atende 150 crianças e adolescentes, ainda precisa de apoio e está aberto aos interessados em visitar o local, na avenida Júlio Franco, número 1.000, na Vila Rocio, ou ajudar virtualmente pelo Instagram ou Facebook.