Nesta terça-feira, o Ajax visita o Tottenham, às 16h (de Brasília), pelo jogo de ida da semifinal da Champions League. E para sair com um bom placar de Londres, a equipe de Amsterdã se apoia principalmente no brasileiro David Neres, que vem "comendo a bola" na temporada.
O mais interessante, porém, é que o Ajax nunca teve uma grande tradição de "brazucas" em seu elenco. Prova disso é que o clube alvirrubro só foi ter um atleta tupiniquim em seu elenco pela primeira vez na temporada 1995/96, quando a equipe já tinha 95 anos.
O escolhido foi o zagueiro Márcio Santos, que um ano antes havia se sagrado tetracampeão do mundo com a seleção na Copa do Mundo dos Estados Unidos e estava defendendo a Fiorentina, da Itália.
O paulista foi observado de perto por um bom período pelo Ajax, que à época era o campeão da Champions, e contratado no final da temporada 1994/95.
"Eu fui o primeiro brasileiro a jogar no Ajax. Eles me contrataram para o lugar do Frank Rijkaard, que havia se aposentado. Após a Copa de 1994, vieram o Tottenham e a Fiorentina atrás de mim e travaram uma baralha grande. Mas naquela época só o Mirandinha, ex-Palmeiras, havia jogado na Inglaterra, ainda não era um mercado bom para os brasileiros. Como eu tinha vindo da seleção e o Dunga e o Taffarel haviam falado bem do futebol italiano, optei pela Itália e assinei com a Fiorentina", lembrou, em entrevista à ESPN.
"Assim que acabou o italiano, veio o Ajax atrás de mim. Era o maior time do mundo na época, atual campeão da Liga dos Campeões e cheio de craques no elenco. Fiquei lisonjeado. O (Louis) Van Gaal, que era o técnico do Ajax, mandou o auxiliar dele me acompanhar sem eu saber nos últimos sete jogos do Italiano", revelou.
À época, a contratação de Márcio Santos causou um pouco de estranhamento aos torcedores, já que o Ajax era conhecido (como é até hoje) por fazer seus craques em casa, e não trazer de fora.
"O Ajax sempre foi um clube de revelar, tanto grandes jogadores locais, que depois iam para a seleção holandesa, como estrangeiros bem jovens, que eles encontravam bem cedo e desenvolviam no próprio clube. Só que como o Rijkaard, que era a referência do time e ia se aposentar, eles preferiram trazer alguém já experiente para jogar na vaga dele, e eu fui o escolhido", recordou.
"O Rijkaard terminou a carreira jogando como líbero, e quanto o Ajax me observou na Itália acharam que eu encaixava bem. Em 1995, houve também a Copa Umbro, que o Brasil foi campeão, e eles foram acompanhar os jogos da seleção. Eu assinei pouco depois da final contra a Inglaterra", complementou.
O início do Tetracampeão do mundo na Holanda, porém, não foi fácil.
"Quando eu acertei, o Ajax estava invicto há uns 60 jogos. O time estava encaixadinho. Em resumo, foi uma passagem ótima. No entanto, eu tive uma ruptura de tendão com cinco meses de clube, que sofri em um amistoso entre Brasil e Uruguai, em Salvador [11/10/1995]. Fiquei quatro meses sem jogar, foi minha única lesão grave na carreira", rememorou.
"Inclusive acabei perdendo o Mundial de Clubes contra o Grêmio [28/11/1995] do Felipão. No fim, porém, eles até me pagaram direitinho e eu também ganhei o prêmio de campeão do mundo", contou.
ADAPTAÇÃO À HOLANDA
A adaptação de Márcio Santos à Holanda foi facilitada por um companheiro de seleção brasileira que, curiosamente, jogava em um dos maiores rivais do Ajax: Ronaldo "Fenômeno", à época chamado ainda de Ronaldinho, que era a estrela do PSV Eindhoven.
"Naquela época o Ronaldinho estava estourando no PSV e a gente era muito amigos, vivíamos sempre juntos. Nós nos enfrentamos algumas vezes em campo também. A adaptação à Holanda é mais difícil pela língua. Até que eles falam inglês bem, mas o holandês é ainda mais complicado que o alemão. Como eu falava italiano e francês, conseguia conversar com alguns atletas que tinham jogado fora. No começo, eu grudava neles para entender o que o Van Gaal falava nos treinos (risos). Depois eu comecei a entender um pouco e ficou mais fácil. Mas eu não aprendi a falar holandês, não", admite.
"A Holanda não tinha muito sol na época que eu morei lá, era tempo fechado e muita garoa e chuva. Eu acabava ficando junto com os brasileiros de Amsterdã fazendo churrasco e conversando. Mas, como o Ajax jogava muitas partidas nessa época, eu não tinha muito tempo livre. Eu morava no centro de Amsterdã e passeava um pouco nas horas vagas. Fui para algumas cidades e visitei o Ronaldo em Eindhoven. E ele ia para Amsterdã ver a gente também", ressaltou.
O elenco alvirrubro também o recepcionou bem, mesmo com muitos atletas daquele Ajax tendo sido eliminados pelo Brasil de Márcio Santos na Copa do Mundo de 1994.
"Eu cheguei lá como 'vilão' da eliminação deles na Copa dos Estados Unidos (risos). Isso acontece no futebol... Não fui eu que montei a tabela da Copa (risos). Mas todos me receberam bem demais. Havia muitos atletas que eram do Suriname ou descendentes de pessoas do Suriname, como o David, o Kluivert, o Seedorf. Eles seram humildes e não tinham aquela vaidade dos mais experientes. Eram garotos que queriam aparecer para o futebol. No começo era um pouco difícil comunicar, mas eles fizeram de tudo para que eu me adaptasse à Holanda e sempre me convidavam para eventos", elogiou.
Os hábitos de futebol da Holanda também eram bem diversos do que o brasileiro estava habituado.
"Era tudo diferente. Na Holanda, eles não concentram antes dos jogos. Eles não almoçam, só comem um lanche. Aí tinha jogo às 14h e eu tinha que me apresentar ao clube umas 11h. O que eu fazia? Almoçava uma comidinha brasileira em casa e só tomava um suco de laranja no clube, pois já estava abastecido. Havia vários restaurantes brasileiros perto de casa, e eu sempre achava tudo o que precisava", relata.
Não que a Holanda também não tivesse seus encantos...
"Eu era solteiro naquela época, mas era tranquilão, não era de bagunça (risos). Mas uma coisa que me chamou a atenção foi a beleza da mulher holandesa. Elas são lindas! E outra: o topless (risos). Era novidade para mim na época, mas lá é coisa normal. Você está jogando vôlei na praia e elas estão todas de topless. Acho que por isso a praia ficava tão lotada no verão (risos)", brincou.
PROBLEMAS COM VAN GAAL
Durante a temporada que passou no Ajax, em 1995/96, Márcio Santos foi campeão holandês com a equipe alvirrubra, terminando 6 pontos à frente do PSV. No entanto, ele foi mais um brasileiro a ter problemas com o técnico Louis van Gaal, conhecido por detestar atletas tupiniquins.
"Eu tive problemas com o Van Gaal. Na época, ele mandava no clube em todos os setores. Até na alimentação! Era considerado o general dentro do quartel (risos). O cara se metia em tudo: parte física, parte alimentar, concentração, que horas a gente chegava, que horas saía... Decidia tudo no clube!", contou.
"Só que ele é o tipo de treinador que quer aparecer mais que o jogador. Ele já se sentiu incomodado comigo quando eu cheguei, porque a Holanda parou. Eu cheguei ao país com status de Tetracampeão do mundo. Não era comum o Ajax contratar jogadores de tanto peso, ainda mais um campeão do mundo. Aonde a gente ia na Holanda, parava tudo, e isso começou a gerar ciúme nele", revela.
"Ele não esperava que seria desse jeito. Eu cheguei muito badalado à Holanda, e ele claramente sentiu o choque. E sentiu mais ainda porque estava acostumado a mandar nos meninos. O que ele falava, os moleques abaixavam a cabeça e obedeciam, ninguém falava nada. Só que ele começou a me dar ordens e eu batia de frente, porque sempre tive personalidade forte", complementou.
Márcio, então, revelou com detalhes como foi seu "arranca-rabo" com Van Gaal.
"Meu principal problema com ele foi logo na primeira semana, e daí para frente não tivemos mais acerto. Eu jogava de 4º zagueiro na Fiorentina, que sempre foi minha posição. Ele mandou o auxiliar dele me ver na Itália e eu jogava assim, e na seleção também jogava assim. Quando fechai com o Ajax, podia jogar tanto de 4º zagueiro como de líbero, pois por vezes eles usavam esquema com três zagueiros. Mas aí deu tudo errado no primeiro dia", lembrou.
"Na minha primeira conversa cara a cara com o Van Gaal, ele veio me dizer umas coisas. Tinha um diretor que falava italiano e foi fazendo a tradução. O Van Gaal disse que ia atuar com três zagueiros na temporada e que o Danny Blind era o líbero. Ali eu vi que já não teria como jogar nessa posição. E o 4º zagueiro era o Frank de Boer, que era canhoto. Pensei: 'Aonde será que vou me encaixar?'. Aí Van Gaal disse que queria que eu fosse ala, como lateral direito. E na hora eu disse que não dava, pelo meu biótipo e porque eu não tinha preparo físico para ir ao ataque e voltar toda hora", relatou.
"Ele falou que eu teria que ser o responsável pelo lado direito todo, da defesa até o ataque. Disse que eu tinha que ser veloz e ter recuperação, e eu não tinha essa característica. Aí falei que eu não tinha como fazer essa posição. Disse: 'Sempre joguei assim. Vocês foram me ver na Itália e na Inglaterra jogando de zagueiro e líbero e aqui querem que jogue de lateral? Aí prefiro não jogar, pois não quero prejudicar o Ajax e nem a minha imagem'", revelou.
"Na hora que falei isso, o Van Gaal ficou uma fera. Bateu na mesa e gritou: 'Quem manda aqui sou eu'. E eu na maior calma respondi: 'O senhor é quem manda, mas, se eu não quiser jogar fora de posição, eu não vou jogar. O senhor só me fala que eu vou ser lateral depois que eu assinei contrato e me apresentei?'", complementou.
O entrevero fez com que Márcio Santos demorasse a receber chances no Ajax. Tanto é que sua estreia acabou acontecendo apenas em setembro de 1995.
"Nos primeiros jogos, eu fiquei esquentando banco. Aí começou a birra comigo. O Van Gaal não estava acostumado a ter ninguém peitando ele, e ele achou que comigo seria a mesma coisa. Ele mandava, todos acatavam. Mas eu já tinha experiência, comigo não seria assim. Aí começou a ter pressão da imprensa em cima dele e ele ficou mais incomodado ainda", relembrou.
"Chegou uma hora que o Blind machucou na primeira fase da Champions e eu recebi algumas chances como titular de líbero, e fui muito bem. Mas, quando o Blind se recuperou, o Van Gaal me tirou do time... Foi quando eu voltei ao ao Brasil para jogar o amistoso contra o Uruguai, me lesionei e fiquei quatro meses fora", lamentou.
Apesar das brigas com Van Gaal, o brasileiro guarda excelentes memórias do título holandês vencido com o Ajax. Além disso, a equipe de Amsterdã chegou novamente à final da Liga dos Campeões em 1995/96, mas acabou derrotada nos pênaltis pela Juventus.
"O futebol que a gente jogava me marcou muito. Contra qualquer um a gente jogava no ataque, sendo dentro ou fora de casa, e terminava com 70% de posse de bola. Tínhamos dois pontas ofensivos, que eram o Finidi e o Overmars, e o Kluivert era o centroavante goleador. Nos jogos, a gente atacava muito, parecia que estávamos treinando. Nosso esquema de jogo era incrível, focado na recuperação de bola. Quando a gente perdia a posse, logo ia para cima tentar retomar. O Guardiola implementou isso no Barcelona depois. Nosso time do Ajax influenciou muito as ideias dele, já que ele foi comandado pelo Van Gaal quando ainda era jogador. Mas nós éramos ainda mais ofensivos do que aquele Barcelona do Guardiola", garante.
VOLTA AO BRASIL
Como vinha jogando pouco no Ajax, Márcio Santos viu sua posição na seleção brasileira ser ameaçada. Por isso, decidiu deixar a equipe de Amsterdã e retornar ao futebol brasileiro, que possuía diversas equipes fortes naquele momento.
"O Van Gaal saiu do Ajax e foi para o Barcelona, e aí contrataram o Morten Olsen. Na intertemporada, ele foi falar comigo para que eu voltasse ao Ajax depois das férias e até me convenceu a voltar. Mas eu comecei a ficar incomodado, porque tinha parado de ser chamado pela seleção, já que não vinha jogando com regularidade no Ajax", relembrou.
"A verdade é que eu estava incomodado lá. Então, pedi para ser emprestado ao Atlético-MG em 1997. Ia ter Copa América e eu queria jogar. Acabou dando certo, porque eu fui convocado e fomos campeões. Em seguida, o Olsen queria que eu voltasse, mas eu tinha ficado chateado por causa do Van Gaal e tinha vontade de seguir no Brasil. O Palmeiras do Felipão veio atrás de mim, através da Parmalat, e eu cheguei a acertar quase tudo com eles, mas o Palmeiras não chegou a um acerto com o Ajax e não deu certo. Então, surgiu o São Paulo, que acertou as coisas com o Ajax e eu fui para o Morumbi", revelou.
Enquanto isso, na Holanda, o Ajax até foi campeão holandês na temporada 1997/98, mas depois não conseguiu manter o mesmo domínio da "era Van Gaal", que passou a levantar títulos com o Barcelona - e também a fazer novos inimigos brasileiros.
"Quando o Van Gaal ainda estava no Ajax, ele estudava espanhol escondido, pois já tinha acertado com o Barcelona havia um ano e ninguém sabia (risos). Depois que ele saiu, aquela cultura de revelar jovens caiu um pouco. O Van Gaal dava muitas chances à molecada no time de cima, mas essa cultura diminuiu e eles passaram a contratar jogadores do resto do mundo. Durante alguns anos, o Ajax deu uma sumida até por causa disso: eles pararam de revelar jogadores. Agora voltaram, e deu no que deu. Por isso estão fazendo essa ótima Champions", ressaltou.
"Só que O Van Gaal seguiu implicando com brasileiros no resto da carreira, como fez comigo. É só você ver o que ele fez com o Rivaldo no Barcelona. O Rivaldo era o cara, o melhor do mundo, e o Van Gaal queria escalar o craque de ponta esquerda para não aparecer mais que o time", criticou.
Tantos anos depois, Márcio Santos guarda carinho pelo clube de Amsterdã, e torce por sua ex-equipe voltar a conquistar a Europa.
"Eu ainda tenho um amor enorme pelo Ajax. Inclusive fui convidado ao evento de inauguração da Arena de Amsterdã. Até hoje, aquele time foi o melhor que eu já joguei", suspira.
"O Ajax tem muitos meninos atualmente, como era no meu tempo. Em uma possível final, a experiência às vezes pesa, mas o time está voltando a ter essa cultura da juventude de novo. Os meninos, quando sobem, não sentem tanta dificuldade de adaptação à equipe adulta. Eles estão bem na Champions e sabem como se comportar. Prova disso é que golearam o Real Madrid e ganharam da Juventus na Itália", exaltou.
"Eu não duvido que eles possam ser campeões de novo. Já fizeram estragos em dois dos maiores gigantes da Europa, e não será nenhuma novidade se isso acontecer. Assim como nesse ano, em 1995 o Ajax era uma equipe de garotos, e eles foram lá e ganharam do todo-poderoso Milan na final", encerrou.
