Michael Jordan está em evidência. “The Last Dance”, uma série de documentários com 10 episódios produzida em conjunto por ESPN e Netflix, conta a história da carreira do astro do basquete, com ênfase na temporada de 1998.
Os episódios fazem um excelente recorte histórico e trazem para os fãs atuais o que foi o impacto de Michael Jordan na NBA nos anos 80 e 90. Além de mostrar a sua dominância na quadra, retratam como se tornou um produto midiático gigantesco. Sua linha de tênis sempre foi um sucesso de vendas, foi estrela de comerciais e até mesmo apareceu nos cinemas salvando a humanidade ao lado do Pernalonga.
Jordan era uma estrela global. Ao mesmo tempo, nos anos 90, o consumo de videogames crescia cada vez mais. Se um de seus principais comerciais tinha o slogan “Be Like Mike” (“Seja como Mike”, em tradução livre), poder jogar como Mike era uma realidade alcançável para muitos jovens daquela geração. No entanto, essa trajetória não foi tão simples.
A partir da segunda metade dos anos 90, com games de esportes cada vez mais realistas, não era possível controlar o astro nos jogos licenciados da NBA. Em seu lugar, um personagem genérico, com os mesmos atributos, mas sem trazer nenhuma semelhança e nem usar o seu nome.
Aquela criança que se encantava vendo as finais do Chicago Bulls contra o Utah Jazz só conseguiria reproduzir os lances com o craque Roster Player, número 24. Mas, antes de chegar a isso, vale a pena saber como Jordan foi retratado nos games ao longo dos anos.
As primeiras aparições
Nunca foi fácil criar um jogo de esportes. As limitações gráficas e técnicas dificultavam a reprodução dos movimentos da vida real. Para auxiliar nas vendas, algumas desenvolvedoras faziam acordos com jogadores para estampá-los nos títulos.
A EA Sports, na época Electronic Arts, foi uma das que mais utilizaram a estratégia. Em 1988, a desenvolvedora lançou Jordan vs Bird: One on One para Commodore 64, MS-DOS, Sega Genesis, NES e até com uma versão para Game Boy. O título não poderia ser mais direto: eram partidas de um-contra-um usando Michael Jordan ou Larry Bird.
Um ano depois, a mesma Electronic Arts adquiriu direitos da NBA para iniciar a sua série de jogos de basquete, dessa vez com todos os jogadores em quadra. Lakers versus Celtics and the NBA Playoffs foi o primeiro, disponível para MS-DOS e SEGA Genesis. A ideia era recriar os playoffs da temporada anterior da NBA, culminando com o duelo da final no nome do jogo. Particularmente, achei o nome do jogo fantástico.
A série teve um considerável sucesso, permitindo outros dois títulos: Bulls versus Lakers and the NBA Playoffs e Bulls versus Blazers and the NBA Playoffs. As partidas destacavam-se pela apresentação, que em muitos aspectos remetia a uma transmissão de TV. Jordan, obviamente, estava presente.
O ano de 1992 foi muito movimentado para os games de basquete. Desenvolvedoras como Tecmo e EA lançaram suas versões de jogos licenciados da NBA. Até mesmo a popularidade do Dream Team, a seleção masculina de basquete dos EUA, foi aproveitada com o jogo Team USA Basketball. Mais uma vez, Michael era jogável.
Jogos paralelos
Uma estrela com tanta popularidade como Jordan não perderia a oportunidade de ter um jogo exclusivo. Afinal, até o nem tão popular assim Bill Laimbeer já foi tema de um videogame (o resultado é… excêntrico).
Em 1993, a oportunidade chegou. Michael Jordan In Flight (MS-DOS), da EA Sports, não tinha licença nenhuma com a NBA, e Jordan era o único jogador real no jogo. A jogabilidade trazia gráficos em 3D com captura de movimentos e partidas com três jogadores para cada lado. A estrela, inclusive, aparecia para te dar um apoio quando marcava uma cesta ou reprovar arremessos errados.
Michael Jordan transcendia o basquete. Nada mais justo do que lançar um jogo de ação em plataforma com o craque arremessando bolas de basquete nos inimigos e salvando jogadores sequestrados, certo? Para a EA, sim. Daí surgiu Michael Jordan: Chaos in the Windy City, lançado em 1994 para Super Nintendo.
Avançando alguns anos no tempo, chegamos a 1996. Space Jam, protagonizando Jordan e os personagens de Looney Tunes, chega aos cinemas como um grande sucesso de bilheteria. Além do longa-metragem, foi lançado um jogo homônimo para Playstation 1 e MS-DOS, possibilitando jogar com os dois times da trama: ToonSquad e Monstars.
O jogo de Space Jam foi uma das últimas oportunidades de controlar Michael Jordan em videogames nos anos 90. A partir de 1996, o jogador não era licenciado e, consequentemente, precisava ser substituído por uma versão genérica nos jogos da NBA.
Onde está Jordan?
Em 1993, a Midway lançou NBA Jam, seu primeiro game licenciado pela liga, em fliperamas e consoles como SEGA Genesis e Super Nintendo. O jogo trazia uma versão mais “arcade” do jogo de basquete, envolvendo disputas entre duplas de cada time, jogabilidade simplificada e grandes efeitos visuais.
NBA Jam foi um sucesso e é cultuado pelos fãs do esporte até hoje. As versões caricatas dos astros da liga e as regras modificadas conquistaram o público. O jogo é o 38º mais vendido da história do Super Nintendo e 5º da história do SEGA Genesis nos EUA.
Com tantas novidades, apenas um motivo causava estranheza: Michael Jordan não estava no jogo. A dupla do Chicago Bulls consistia em Scottie Pippen e Horace Grant.
A ausência ocorreu por conflitos de licença. A National Basketball Players Association (NBPA) é o sindicato que representa os jogadores de basquete da liga. A associação possui um acordo coletivo com a NBA para os direitos de imagem e licenciamento de seus jogadores. Michael Jordan, por sua vez, decidiu não fazer parte desse acordo e buscou negociar sua imagem por conta própria, procurando contratos financeiramente mais agradáveis.
A Midway, produzindo NBA Jam, esteve diante desse impasse. Conseguiu adquirir os direitos da NBPA, mas não de Jordan, excluindo-o do jogo. Existem, no entanto, versões raras de fliperamas que possuem um time com Michael Jordan e Gary Payton, conforme relatado pelo criador Mark Turmell em 2013, em uma entrevista à ESPN americana:
"Um dia, recebi um telefonema de uma distribuidora na costa oeste que me disse que Gary Payton estava disposto a pagar o que fosse preciso para entrar no jogo. Então, nós falamos para ele o que fazer em termos de tirar fotos. Ele nos enviou fotos dele e de Jordan, dizendo ‘queremos estar no jogo, nos coloquem’. Então, fizemos uma versão especial do jogo e demos aos dois jogadores estatísticas de superestrelas. Existem apenas algumas dessas máquinas, mas Jordan e Payton estiveram em uma versão do jogo."
A opção por não estar incluso no acordo coletivo afetou a presença de Michael Jordan em jogos futuros da NBA. NBA Live 96, o primeiro para Playstation 1, trazia gráficos em 3D cada vez mais realistas para a época. Os torcedores do Bulls podiam utilizar o elenco campeão com Scottie Pippen, Dennis Rodman, Steve Kerr e… Roster Player?
Sem adquirir os direitos de Jordan, a EA Sports desenvolveu um jogador com as mesmas habilidades, mas sem poder ter semelhança física ou utilizar seu nome. Nem mesmo o icônico número 23 foi usado. Era possível, no entanto, desabilitá-lo no modo de criação de jogador ao digitar o sobrenome “Jordan”, mas a desenvolvedora removeu essa função nos anos seguintes.
E foi esse o cenário na franquia NBA Live entre 1995 e 1998, ano da segunda aposentadoria de Jordan pelo Bulls. Cada edição anual lançada não poderia mostrar a maior estrela do basquete naquele momento. O nome “Player” era mantido, mas os números variavam: 62, 24, 89 e 99 foram as camisas usadas nas edições.
Retorno aos games
Muita coisa aconteceu na vida de Michael Jordan desde sua última aparição nos games, em Space Jam. Resumidamente, ganhou seu segundo tricampeonato da NBA pelo Chicago Bulls, aposentou pela segunda vez em quatro anos, assumiu um cargo no Washington Wizards e voltou da aposentadoria mais uma vez.
Na virada do milênio, Jordan finalmente deu as caras num videogame. Ainda aposentado das quadras, foi anunciado como personagem jogável em NBA Live 2000 (PC, PS1, Nintendo 64), da EA Sports. Além disso, fez parte de um dos modos de jogo: “Michael Jordan in 1-on-1”, no qual o jogador escolhia um atleta da atual NBA para enfrentá-lo em uma partida mano-a-mano.
A partir de seu retorno como jogador ao Washington Wizards, em 2001, o astro passou a estar incluso nas séries anuais de basquete até o fim (dessa vez definitivo) de sua carreira de atleta. Foi possível utilizá-lo em jogos de desenvolvedoras como EA Sports, 2K, Konami e Left Field. Obviamente, não tinha os atributos de seu auge, mas ainda era a estrela.
Sua carreira foi homenageada em NBA Street Vol. 2 (Playstation 2, Gamecube, Xbox), famoso jogo de basquete de rua produzido pela EA Sports Big. Nele, Jordan era um personagem jogável em três versões diferentes : de 1985, calçando seu clássico Nike Air Jordan 1; de 1996, em meio aos títulos conquistados; e do Washington Wizards. Era possível, inclusive, jogar com os três Jordans no mesmo time.
NBA Street Vol.2 foi uma das últimas aparições do jogador na geração de consoles. A última foi em NBA Live 2004 (Playstation 2, PC, GameCube, Xbox), lançado em 2003, presente em um time de lendas dos anos 90. Os fãs de basquete precisariam esperar sete anos para usá-lo novamente.
Devida homenagem
Depois de tanto tempo fora dos games, Michael Jordan retornou em 2010. A 2K Games, produtora da série NBA 2K, assinou um acordo exclusivo com o ex-atleta e o fez capa dos jogos NBA 2K11 e NBA 2K12. A decisão ajudou a estabelecer a hegemonia da franquia entre os games de basquete, durante um período de queda da série NBA Live.
Com os direitos de Jordan, a desenvolvedora resolveu explorar a fundo toda a carreira do atleta. Com o novo modo “Jordan Challenge” no NBA 2K11, os jogadores poderiam reviver dez grandes momentos da jornada de Michael Jordan na NBA. Isso incluía o jogo de seu recorde de 69 pontos, finais disputadas e o famoso “Flu Game”, quando marcou 38 pontos na final com o Utah Jazz mesmo com uma intoxicação alimentar.
A receita foi repetida em NBA 2K12, dessa vez com momentos históricos de Larry Bird e Magic Johnson. Desde então, a série disponibiliza times clássicos da NBA nos seus jogos, incluindo os do Chicago Bulls campeões.
Jordan passou pelos mais diferentes momentos com os videogames. Jogos simplificados de mano-a-mano, um jogo de ação, a exclusão das principais edições dos anos 90, finalizando com uma das mais belas recriações da carreira de um atleta em jogos de videogame. Culminando, justamente, em uma forma de trazer sua grandeza.
* Em colaboração para a ESPN
