Era difícil pisar em uma LAN house no Brasil do início dos anos 2000 que não tinha uma máquina rodando Counter-Strike. Tão difícil quanto isso era não encontrar Warcraft 3 no emaranhado de ícones daqueles PCs. Lar da popularização de DotA e do gênero MOBA, o game de estratégia da Blizzard volta no tempo e recebeu, nessa terça-feira (28), o esperado Warcraft 3: Reforged — uma nova edição completamente remasterizada para os fãs matarem as saudades dos inúmeros mapas que foram criados pela comunidade e da campanha que conta as histórias anteriores à World of Warcraft. Mas a nostalgia também pega muitos competidores brasileiros que se dedicaram muito pelo jogo nesses 18 anos.
“Eu vejo a gente como aqueles jogadores de futebol dos anos 60, anos 70, sabe? Aquele pessoal que não ganhava muito bem, mas que jogava porque gostava mesmo.” A rotina de Skyward é meio complicada pra alguém de fora chegar e bater um papo assim, do nada. Só conseguimos trocar ideia por áudios de WhatsApp, mas isso não foi uma limitação na hora de contar a sua carreira pelos campeonatos de videogames há 15 anos. Lembrou de 2003, 2004; de quando ganhou seus primeiros torneios e viajou Brasil afora.
Skyward tem 34 anos e no seu dia a dia atende pelo nome de Marcus Locatelli, mas uma das fotos enviadas pelo Whats mostra ele no auge dos seus 19. Por lá, também está ao lado de um grande amigo até hoje, Bernardo Rodrigues, que na época usava "PaTo" como nick e é outro dos grandes nomes no game de estratégia que ambos fizeram sucesso. Ao contrário do irmão StarCraft, Warcraft 3 foi lançado ainda em 2002 e aqui a brincadeira acontece com exércitos pouco numerosos e heróis que evoluem no fervor da batalha. O jogo explodiu no Brasil durante a febre das LAN houses e foi o seu editor de mapas que popularizou o DotA e posteriormente inspirou o League of Legends — dois jogos responsáveis pelo estouro nas premiações e campeonatos de videogames por todo o planeta.
Foi nessa época aí que surgiram os campeonatos e seletivas brasileiras para competições pelo mundo, como a Electronic Sports World Cup (ESWC) e a World Cyber Games (WCG). PaTo ficou conhecido como um dos vários mestres brasileiros com os elfos noturnos, mas Skyward apostava no jogo calculista dos mortos-vivos.
Hoje, Skyward é auditor fiscal em São Paulo, e PaTo estuda há anos para seguir o mesmo caminho. Mas 16 anos atrás, quando os torneios de Counter-Strike também estouravam pelo mundo, eles e outros adolescentes travavam partidas de xadrez complexas entre orcs, humanos, mortos-vivos e elfos noturnos sem saber que muitas histórias ainda estavam por vir.
ENTREGUEI MESMO!
A dupla marcou presença em uma das primeiras oportunidades de o Brasil mostrar seu Warcraft 3 perante o mundo, a ESWC 2004. Ambos se classificaram na seletiva nacional e foi lá, em território francês, que uma amizade chegou ao ponto de um sacrificar o resultado para levar o outro mais longe no torneio.
“Aconteceu de eu e o Sky cairmos no mesmo grupo”, puxou PaTo em suas memórias de um garoto de 14 anos viajando pelo mundo. Também foi um baita azar: eram oito grupos iniciais, e os dois se enfrentariam já no início. “Eu lembro que tinha o Insomnia, do SK, lá da Bulgária, e o xiaOt, lá da China. Classificavam dois, e eu tinha perdido já dos dois. Aí eu ia jogar com o Sky e eu batia muito no Sky nessa época”, riu.
“Aí, hoje em dia pode falar, né? Eu entreguei pra ele”, confessou. O resultado foi fundamental para Skyward disputar o desempate do grupo, mas o brasileiro não conseguiu vencer nenhum dos dois para seguir para a próxima etapa.
PaTo seguiu firme nas competições depois disso, integrando a equipe de elite de brasileiros da Jungle, cuja sigla era jNg. O time reuniu os dois ao lado de Levin e MysT, sendo a única equipe brasileira a disputar a Warcraft 3 Champions League, o campeonato “de elite” organizado pela ESL na época.
Com os anos, a equipe se separou e PaTo integrou outras organizações, como a norte-americana united5 e a alemã mTw. Só não entrou na fnatic porque, pelas palavras que ele mesmo escutou, a organização não iria chamar um brasileiro pois ele jogava com muito lag e a internet brasileira era muito “imprevisível”.
BRASIL: O PAÍS DOS ELFOS NO WARCRAFT 3
Campeonatos de LAN houses pipocavam por todo país entre 2004 a 2007. Iam de Brasília a Belo Horizonte, do Rio de Janeiro até Curitiba. Isso sem falar nas seletivas de eventos internacionais.
Quando PaTo voava com direito a passagens pela Rússia (na KODE5) e pela China (na Stars War), foi justamente um jogador quase “aposentado” que derrubou ele dos céus.
“Todos sabem que no início de minha trajetória eu era um MH bem sacana e cara de pau”, relembrou MysT, um dos quatro melhores jogadores de Warcraft 3 no Brasil e também jogador de Elfos Noturnos. MH era a sigla para “maphack”, um tipo de trapaça que o adversário usa para ver o mapa inteiro. Mas na Latincup 2004, um campeonato presencial que aconteceu em São Paulo, ele quis mostrar que não precisava disso para vencer.
“Ninguém botava fé em mim pois achavam que eu ficaria completamente perdido jogando sem hack. E eu tinha a necessidade de demonstrar que eu não usava mais hack e que realmente tinha alcançado um bom nível de jogo”, completa.
“Minha performance foi talvez a melhor que já tive em qualquer campeonato offline. Eu estava muito motivado em ganhar e provar quanto eu tinha evoluído e que não era mais ‘dependente’ de maphack. Naquele momento, ganhei a confiança e o respeito do pessoal e fui aceito pela ‘panelinha’ da Hangar”, completa, relembrando de um dos fóruns mais antigos em que a comunidade se reunia para desenrolar tretas e campeonatos.
Sua maior conquista depois disso? Derrubar o PaTo na seletiva da WCG 2007 e garantir a única vaga para o campeonato. O top 3 do evento, inclusive, ficou marcado pela raça favorita entre os jogadores de Warcraft 3 do país: MysT, Ice e PaTo — todos Elfos Noturnos. A lista de elfos se estendia para além, afinal Levin também fazia seu nome com os sentinelas.
“Pra mim, era péssimo”, contou PaTo. “Eu tava me destacando internacionalmente porque os caras treinavam juntos pra ganhar de mim. Night Elf contra Night Elf”, lembra.
Lá fora, MysT terminou a última campanha brasileira em anos na WCG vencendo o francês ToD com a estratégia que era quase sua marca registrada: Priestess of the Moon com mass Huntress, apostando tudo em um ataque poderoso das escoltas elfas no mid game. Se garantiu entre os oito melhores.
“E era engraçado que os Night Elf brasileiros tinham um jeito diferente de jogar que os de fora do Brasil. Eu não conseguia treinar direito contra um Night Elf lá da Europa. Tudo mundo lá fazia Demon Hunter. Aí eu tinha que falar ‘faz Priestess e mass Huntress contra mim’, mas pô, os brasileiros faziam isso bem melhor que os caras. Então era complicado”, completou PaTo.
As seletivas pelo Brasil foram cessando depois disso e o Warcraft 3 competitivo esfriou. Embora alguns jogadores continuassem online pela “ladder” ou mesmo pelas ligas externas, muitos acabaram parando ou se dedicando a outras coisas.
MysT agora é Rodrigo Martins, um homem casado e dono de uma pizzaria que toma praticamente todo o seu tempo livre. Skyward jogou muito Hearthstone e criou até um canal no YouTube. PaTo chegou a jogar League of Legends por uma época, mas revelou que, no fundo do coração, está torcendo para finalmente passar no concurso em fevereiro. Isso porque, no dia 28 de janeiro de 2020, estreia a nova versão do Warcraft 3.
Uma versão que todos eles confirmaram que irão jogar.
WARCRAFT 3 REFORJADO, 18 ANOS DEPOIS
Warcraft 3: Reforged foi anunciado durante a BlizzCon 2018 e promete uma remasterização completa para o jogo clássico de estratégia. Os gráficos do jogo receberão um tapa visual e mais moderno, algo que também se estenderá para a campanha, para os mapas customizados e até para o cenário competitivo.
“Eu vejo o Warcraft 3 como um dos precursores [dos esports]”, recorda Skyward. “Ele veio logo depois do StarCraft e era uma época que não tinha a visibilidade de hoje. Não era nem 10% do tamanho que os esports são hoje”, completa.
O maior pedido dos brasileiros, no entanto, é algo antigo. “O lag e o ping alto sempre foram fatores que nos atrapalharam demais e sempre ‘freavam’ nossa evolução, de certa forma”, comentou MysT. “Lembro de milhares de vezes em que PaTo e eu sofríamos e tínhamos que jogar nos campeonatos com um lag absurdo aos finais de semana...”, reflete.
Até o momento, a Blizzard não confirmou se o Brasil terá um servidor dedicado para Warcraft 3: Reforged ou se manterá apenas com os localizados na América do Norte, onde os brasileiros jogam em uma latência de 200ms e delay de alguns microsegundos em seus comandos. Esse delay beirava os dois segundos por conta da arquitetura antiga da Battle.net — algo que só foi ajustado com as atualizações nos últimos anos.
Mas isso não afeta a empolgação dos mestres brasileiros. “Todo mundo tem que dar uma chance pro jogo porque a Blizzard tá fazendo isso e não é à toa”, comenta PaTo. “O jogo é muito bom, marcou a história. Faz parte da vida de muita gente, da minha é uma parte grande né. Vai ser bem legal no começo, a presença de todo mundo, hoje em dia tá todo mundo mais bem-humorado”, brinca, esperando que a Blizzard também mantenha a comunidade envolvida pelos próximos anos.
“[Ele também é pra] quem gostou muito de DotA, HOTS; são jogos que foram originados por causa do Warcraft. É bem legal, dêem uma chance pra ele.”
* Maximilian “Forkxx” Rox é apaixonado por esports desde que conheceu o Warcraft 3. Se aventurou por todos os cantos das competições - do League of Legends aos games de luta e indo até os games mais desconhecidos, mas descobrindo sempre uma história incrível no meio do caminho. Siga-o no Twitter @Forkxx.
