Enquanto descia as escadas da AfreecaTV PC Bang em um dia chuvoso em Seul, não sabia o que esperar.
A ESPN teve a oportunidade de passar o dia com uma equipe que está disputando o Campeonato Mundial de League of Legends, a Afreeca Freecs. Começamos no PC bang da empresa e terminamos na sede do time para uma entrevista com o veterano técnico de esports com quase duas décadas de experiência, Choi "iloveoov" Yeon-sung.
De todos os principais competidores do Mundial, os Freecs eram os que eu menos tinha esperança de poder acompanhar. Quando eles teriam tempo?
Afreeca Freecs, na sua essência, é um time conhecido por seus treinos incansáveis. Treinado por iloveoov, que cresceu nos primórdios super competitivos do boom dos esports na Coréia do Sul com StarCraft: Brood War, seu time de League of Legends seguiu o mesmo estilo duro, de baixar a cabeça e trabalhar, que o tornou famoso.
Enquanto a maioria dos times marca duas ou três partidas por dia contra times que também estão se preparando para o torneio, dizem que os Freecs jogam quatro por dia e treinam até de madrugada, intercalando com alguns solo queue. Quando não têm mais contra quem jogar, não tem problema, os Freecs têm um plantel de 10 jogadores, o que significa que enquanto os outros times estão dormindo pacificamente em suas camas, Afreeca pode jogar entre si, o time principal duela com os reservas, que treinam duro para um dia entrar em seu lugar.
Não digo que esperava condições adversas na entrevista, mas com o vento soprando lá fora, o sol se pondo e a chuva caindo sem parar o dia todo, pensei que o time estaria um pouco incomodado de estarmos roubando um tempo precioso de seu treino. Em vez disso, fui recebido no PC bang por um alegre garoto loiro de óculos, que mal batia no meu peito e nos cumprimentou tímido antes de sentar-se na cadeira reservada para ele para começar a gravar a entrevista com um de meus colegas. Era Lee "Mowgli" Jae-ha, o sexto homem dos Freecs, que será o único substituto disponível para o time durante a competição. Junto com treinadores e assessores do time, um dos técnicos e antigo jogador profissional, Lim "Ccomet" Hye-sung, sentou-se ao lado de Mowgli em um dos computadores da PC Bang, navegando por algumas páginas da internet.
"[Nosso time] tem sido uma inspiração para outros participantes da LCK," disse Ccomet. "Os outros times começaram a seguir o que o Afreeca Freecs vem fazendo, como o plantel de 10 jogadores e aumentar o número de horas de treino."
Ccomet me disse que os Freecs não são o melhor time individualmente. Separados, talvez com exceção do novato sensação e topo do time Kim "Kiin" Gi-in, os jogadores dos Freecs têm muitas falhas. Mas com treinamento rigoroso, entrosamento e quantidade de prática, Afreeca faz de tudo para tirar o máximo de cada um de seus jogadores. "Somos uma obra de arte esculpida através de muito esforço", disse Ccomet. A identidade do time vem do treinador principal iloveoov e os jogadores seguem sem dizer um pio, respeitando o fato de ele também já ter estado na mesma posição, treinando até o sol nascer e dormindo apenas algumas horas antes de recomeçar toda a rotina.
Ao longo de duas hora no PC Bang, clientes davam espiadas em Mowgli antes de seguirem para suas cadeiras. Lá fora um fã gritou "MOWGLI!" e saiu correndo, com medo de saber se alguém o tinha visto (spoiler: eles viram). Diferente da América do Norte, onde um jogador profissional não consegue caminhar até o banheiro sem ser abordado para dar um autógrafo ou tirar uma foto, na Coréia do Sul isso não acontece. Os fãs querem falar com Mowgli mas ao mesmo tempo querem ser respeitosos, preferem observar de longe a correr o risco de importuná-lo em um momento importante.
Quando estávamos encerrando as entrevistas, um dos membros da equipe falava inglês perguntou se podíamos esperar alguns minutos para que Mowgli pedisse um lámen e comesse antes que a van levasse o time para casa. Quando perguntamos por que ele não podia pedir comida quando voltasse para seu apartamento, nos disseram que aquele era o horário reservado para os jogadores comerem. Se Mowgli não comesse naquela hora, não poderia comer até o fim da próxima partida, marcada para mais tarde aquela noite.
Ficamos até Mowgli terminar seu lámen. A viagem de volta até a sede do Afreeca foi uma odisséia.
Andamos em zigue-zague pelas ruas molhadas de Seul. Luzes neon começavam a refletir nas poças, enquanto caminhávamos até o transporte do time. Era impossível não notar. Em meio as vans e carros prata e bege, estava o veículo do Afreeca - grande, branca e com um logo enorme do clube pintado na lateral. Dentro do automóvel, tinha tudo que você esperaria em um veículo onde, todos os dias, o time viajaria: grande, confortável e, para seu prazer, uma televisão instalada no fundo para os passageiros assistirem durante a viagem.
"Nunca a usamos", Mowgli me disse, sincero, em inglês.
O que parecia ser uma simples jornada até a sede do time, acabou se transformando em um suplício de quase duas horas por causa do transito e da chuva. Ccomet dirigiu o time para casa e Mowgli estava em um dos bancos traseiros, olhando pela janela a chuva torrencial que caía sobre nós. Não demorou muito para que ele pegasse no sono, o capuz caído sobre o rosto e a cabeça recostada na janela.
Por duas horas fiquei sentado, ouvindo a playlist provavelmente escolhida por Ccomet ou uma seleção dos Afreeca Freecs. Era uma dose saudável de K-pop, rap e R&B, com um Ed Sheeran no meio para equilibrar. Tinham até o tema do campeonato mundial deste ano, "RISE", que tocou enquanto nuvens carregadas deram lugar ao céu da noite lá fora. Mowgli, que tinha horas de treino pela frente quando chegasse em casa, só acordou quando a viagem acabou, avisado por um dos membros da equipe do Afreeca que estavam em casa.
Quando a van parou, eu saí e dei de cara com a chuva - esqueci minha sombrinha no banco de trás. Mowgli já estava do lado de fora, esperando que o resto de nós saísse. Ele colocou sua sombrinha roxa sobre minha cabeça, sorrindo e me protegendo da chuva. Quando fiquei de pé, ele fez o que pôde para ficar na ponta dos pés, estendendo o braço o mais alto que conseguia pra que a sombrinha continuasse sobre minha cabeça.
"Você tem 1,95 m", disse ele rindo do absurdo da situação, a pessoa mais baixa da van segurando a sombrinha para a mais alta.
"Acho que tem razão", respondi, não sabendo fazer a conversão de metros para pés de cabeça.
Mais tarde no hotel, procurei no Google para ver se ele tinha acertado. Com 6'5", tenho 1,98 m.
Chegou perto.
Se esta é a parte da história em que você esperava ler sobre uma sede luxuosa, com quatro andares, o logo do time impresso em 4D na porta da frente e uma máquina de fumaça no topo fazendo parecer que está entrando em uma nave alienígena de um filme sci-fi barato, desculpe por desapontá-lo.
A casa dos Afreeca Freecs é como eles, simples. É um condomínio de apartamentos igual a qualquer outro. Crianças estavam voltando para casa de onde quer que crianças voltam às 18:30 h. Mães chegavam com as compras para preparar a janta. Não fosse por uma pequena placa do Afreeca Freecs ao lado da porta da frente, você nunca desconfiaria que ali treina um dos melhores times do mundo.
Dentro não era diferente. Um mar de sapatos e sandálias criava uma barreira no chão. Para a esquerda, alguns jogadores jogavam um solo queue antes do treino. Um dos jogadores reserva que não entrou como o sexto homem no time do mundial, Kim "Aiming" Ha-ram, correu até nós quando entramos na casa, curvando-se em reverência e falando algumas palavras cordiais em coreano antes de sair correndo para um computador.
Fomos então recebidos pelo chefe da casa, o próprio iloveoov, que também era mais alto que qualquer um ali. Vestindo sua jaqueta cinza do Afreeca, seu rosto apresenta uma linha tênue entre um sorriso e uma careta, nunca deixando claro se está irritado ou feliz com você. Ele levou todos nós - a equipe de redes sociais do Afreeca, a equipe da ESPN -, ao seu pequeno escritório para fazer a entrevista. Sua mesa de madeira estava repleta de todo o tipo de doces e guloseimas, o que mais se sobressaía era um saco de Tootsie Pops, estrategicamente colocado ao lado de seu computador.
"Quando se trata de esforço, é sempre quantidade ao invés de qualidade", disse ele. "Coréia [do Sul] é uma sociedade muito competitiva. O vencedor leva tudo. Se você perde, é porque mereceu. Você cresce nesta sociedade e se acostuma com isso, desde muito novo, então nos acostumamos com essa mentalidade competitiva em relação a tudo".
A agenda rígida dos Freecs não é para qualquer um. A programação quase masoquista dos Freecs correu o mundo.
"Ouvi dizer que eles fazem quatro [rodadas de treinos]", disse Eugene "Pobelter" Park do Team Liquid. "Cara, deve ser péssimo para os jogadores, pra começar. Sim, são muitas horas".
"Acho que deve ficar muito estressante se fizer isso por mais de dois ou três dias" disse Petter "Hjarnan" Freyschuss do G2. "Não me vejo fazendo isso, com certeza".
Quando perguntado por que o time treina tanto, iloveoov tentou explicar com um entendimento comum. Acredita-se que leva 10 anos de treino constante para que alguém domine uma técnica, seja algo artístico como guitarra ou prático como matemática. Para jogadores profissionais de vídeo game, este luxo não é possível. Dez anos atrás, StarCraft: Brood War era um fenômeno na Coréia do Sul. Depois de um escândalo de resultado arranjado, a geração mais jovem mudar para tipos diferentes de jogos e desafios não previstos, Brood War perdeu terreno. Um jogador profissional tem um tempo finito para maximizar seu potencial de jogo e financeiro.
Os jogadores de iloveoov não têm uma década para dominar suas técnicas, apenas dois ou três anos.
O suporte titular do Afreeca, Park "TusiN" Jong-ik disse: "Tem mais pontos positivos que negativos no cronograma de treinamentos que temos. Fisicamente, sim, podemos ficar desgastados, mas exatamente por isso tentamos programar estrategicamente dias ou horas de descanso para evitar isso".
Tudo que iloveoov faz tem uma razão por trás. Não existe momento desperdiçado em seu plano para garantir a seus jogadores a melhor chance possível de ganhar o Mundial. Antes de ele assumir o time, dois anos atrás, a organização dos Freecs era um carrossel de mediocridade. O financiamento, talento e treinamento do time mal foram suficientes para levá-los aos playoffs como quinto seed, nem perto de derrotar organizações com histórias de sucesso como SK Telecom T1 ou KT Rolster.
Depois que ele assumiu o time, os Freecs melhoraram um pouco no primeiro, mas tiveram um aumento de rendimento este ano. Afreeca foi um dos finalistas da primeira etapa e ficaram de fora de outra final por pouco, alcançando o terceiro lugar na segunda etapa. Ainda assim, foi o suficiente para a classificação automática para o Mundial.
No final da entrevista, agradecemos por seu tempo, terminando mais cedo que esperávamos, mas não queríamos interferir em outro bloco de treinamentos que começaria às 19h. Antes de ir embora, perguntamos se podíamos dar uma olhada no resto da casa e tirar algumas fotos. Depois de alguns segundos de conversa entre ele a alguns membros da equipe, a expressão indecifrável de iloveoov deu lugar a um aceno de cabeça demonstrando que não tínhamos permissão.
O que estavam escondendo?
Estavam com medo de que encontrássemos algo que eles não gostavam?
Tinham receio de suas caras simpáticas ficarem feias durante o treino, quando as coisa ficassem sérias?
Iloveoov riu, dando fim à especulação idiota que passava pela minha cabeça. "Não limpamos a casa. Se tivessem avisado antes, teríamos feito uma faxina.
Um dia depois de nossa entrevista com a Afreeca Freecs, os três membros que mais passaram tempo conosco, Mowgli, Ccomet, e iloveoov, foram advertidos ou multados pela Riot Games por comportamento tóxico no jogo. Mowgli e Ccomet foram apenas multados por seu comportamento, enquanto iloveoov, o comandante da Afreeca, foi multado em US$ 1,5 mil. Ele foi denunciado em quase 80 partidas, o que representa mais de 70% de seus jogos na solo queue no último mês.
Dias depois, Afreeca Freecs teve uma campanha de 1-2 na fase de grupos do Campeonato Mundial de League of Lends. "O clima no time estava horrível naquele momento" disse o meio.
Que conclusão podemos tirar disso?
Iloveoov é um mau técnico por seu comportamento tóxico no jogo e promover um estilo de treino que é incomum para a maioria dos ocidentais?
Os Freecs, que pessoalmente são um dos times mais próximos que já vi, se abraçando e conversando o tempo todo, estão na verdade escondendo o esgotamento que a programação de treinos provoca em seus corpos?
Não. Esta é uma reação instintiva.
Não podemos tirar conclusões tão rapidamente. Só porque Mowgli foi um dos jogadores mais legais que conheci no esports, sem exagero - e tive que entrevistar vários -, não quer dizer que não pode ser grosseiro enquanto joga na solo queue. Só porque no papel, treinar até 20 horas em alguns dias parece tortura, não quer dizer que o time não dá dias de descanso aos seus jogadores entre essa maratona.
Ninguém sabe ao certo o que realmente acontece nos bastidores de um time além das pessoas que moram nas sedes dos times. Tudo que pessoas, como eu e você, recebemos são fragmentos. Às vezes, de seus melhores momentos e outras, dos piores. Times, e principalmente pessoas, não podem ser resumidos em uma única linha de texto. Pessoas são complexas.
Quando fui para a cama naquela noite, revisei o dia. Pensei no PC bang, na longa viagem de carro e Mowgli segurando a sombrinha para mim, no clima na casa do time, na maneira singular de iloveoov falar e seu aparente amor por doces.
Eu não sabia o que pensar do Afreeca Freecs. Esperava uma coisa e vi outra completamente oposta. Então descobri mais sobre eles alguns dias depois. A resposta, no entanto, como a maioria das coisas, provavelmente fica no meio termo.
A única certeza que eu tinha era que a uma hora de distância de mim, em seu condomínio de “apartamentos normais”, com famílias dormindo em outras unidades ao seu redor, os Freecs estavam bem acordados, treinando, digitando em seus teclados até que a chuva cessasse e o sol aparecesse por suas janelas.
Só então, imagino eu, o rosto de iloveoov realmente estamparia um largo sorriso.
