A Seleção Brasileira não tem um jogador cortado de uma Copa do Mundo desde 2006, mas a possibilidade de perder Neymar, por conta de uma lesão de grau dois na panturrilha direita, revive um drama que mexeu bastante com a preparação do time há quase 30 anos.
Em 1998, o Brasil era o grande favorito ao título mundial, por conta do tetra conquistado quatro anos antes e uma dupla de imenso talento no ataque: Ronaldo, na época ainda conhecido por Ronaldinho, e Romário, craque da Copa anterior.
Era na parceria entre os dois maiores atacantes do mundo que Zagallo apostava para conquistar o penta pela Seleção. Mas uma lesão do Baixinho, semelhante a que Neymar tenta se livrar agora, acabou em corte, farpas e o vice-campeonato no Mundial da França.
Convocado por Zagallo normalmente, Romário se apresentou na Granja Comary com uma lesão na panturrilha, sofrida pelo Flamengo. O departamento médico da época, chefiado por Lídio Toledo, deu o aval para que o camisa 11 permanecesse com o grupo e iniciasse o tratamento.
Mas tudo mudou rapidamente. Horas depois de anunciar que esperaria por Romário, a comissão técnica reavaliou a situação e decidiu pelo corte do Baixinho em 2 de junho, oito dias antes da estreia naquela Copa, contra a a Escócia, no Saint-Denis, em Paris.
"Esse foi um caso especial, pela categoria do jogador. Fomos até o limite que podíamos e fizemos o máximo para ele continuar na Seleção", discursou Zagallo, declarado desafeto do jogador. "Não podia garantir que ele fosse jogar o primeiro, segundo, nem mesmo o terceiro jogo. É uma lesão que requer tempo e pode provocar dor a qualquer momento", completou Lídio Toledo.
Romário, então, teve que encarar as câmeras sozinho após o anúncio de que estava cortado. Aos prantos, o atacante praticamente não conseguiu responder a nenhuma pergunta, embora tenha garantido que teria condições de disputar a Copa.
"Tenho certeza de que ficaria bom, confio no meu organismo. Poderia voltar no dia 10. Com minha vontade de disputar a Copa, eu superaria qualquer coisa", relatou o craque, que alfinetou a comissão técnica. "Eles não devem ter confiado na minha recuperação".
Obrigado a voltar ao Rio de Janeiro, Romário deixou a concentração do Brasil na capital francesa revoltado com o tratamento da comissão técnica e culpou dois nomes específicos: Zagallo, com quem não se dava bem há anos, e Zico, a quem o Baixinho acusou de ter trabalhado a favor do seu corte. Décadas depois, eles fizeram as pazes.
O atacante seguiu o tratamento no Flamengo, que atendeu ao pedido do jogador e marcou um amistoso contra o Internacional, no meio da Copa, apenas para provar que ele teria condições de atuar.
Romário, de fato, atuou. Fez mais: anotou o gol do Flamengo no empate por 1 a 1, no Beira-Rio. A partida, disputada em 5 de julho, aconteceu dois dias depois da classificação do Brasil contra a Dinamarca, nas quartas de final daquela Copa. Para o craque, a prova concreta de que ele teria condições de disputar o Mundial, ainda que não inteiro.
Se em 1998 Zagallo decidiu pelo corte de Romário, substituído pelo volante Emerson na lista final, a situação para 2026 ainda não está totalmente clareada. Neymar realizou exames na chegada à Seleção e viu detectada uma lesão de grau dois na panturrilha direita, que deve tirá-lo de qualquer atividade com bola por até três semanas.
Tal prognóstico descarta sua participação na estreia da Copa, dia 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey, mas abre a possibilidade, desde que tudo dê certo, para que o atacante jogue a partir da segunda rodada, contra o Haiti, dia 19, na Filadélfia. A CBF aguardará até a véspera da abertura, dia 12, para tomar uma decisão definitiva sobre Neymar.
