Neymar merece ir para a Copa do Mundo? Pelo que ele não tem feito em campo nos últimos tempos, não. Neymar está se ajudando nessa corrida rumo ao Mundial deste ano? Parece que não muito. Atua pouco tempo, quando joga rende bem abaixo do seu mais alto nível, deixa Carlo Ancelotti no vácuo em Mirassol e mantém sua bacana vida extracampo normalmente, incluindo suas movimentadas redes sociais.
Todos sabem dessa realidade, da mesma forma que todos sabem que Neymar é o maior talento que o Brasil produziu nos últimos 20 anos (já dá para falar mesmo em duas décadas). Vinicius Jr. e Raphinha, estrelas de Real Madrid e Barcelona, não têm o protagonismo que se espera deles com a camisa da seleção brasileira, mais especialmente nos grandes jogos, como contra a Argentina e a França.
Eles nunca chegarão ao nível do Neymar simplesmente porque são atletas de um outro patamar técnico. São grandes jogadores e estão entre os melhores do mundo, mas não são Neymar. Qualquer torcedor brasileiro sabe disso.
Quem pede Neymar na seleção, mesmo na situação atual, está demonstrando sua insatisfação com um grupo de jogadores de apenas bom nível. Carência pura de gênios. Como não dá para pedir Pelé, Garrincha, Zico, Romário e Ronaldo, cobram o Neymar, o que sobrou de craque de verdade do Brasil.
A seleção apostou na reta final deste ciclo de Copa em Carlo Ancelotti, um dos melhores treinadores da história, vitorioso ao extremo e habilidoso no trato com os atletas, inclusive muitos brasileiros. Havia a expectativa grande de que, com o treinador italiano multicampeão no Real Madrid, enfim Vini Jr. jogaria muito bem na seleção como faz no gigante clube espanhol.
Ele pode até ter ficado mais à vontade e melhorado um pouco seu baixo número de gols pela seleção em 2025, mas não o suficiente para convencer a exigente torcida brasileira. Essa frustração agora passa também por Ancelotti, que escalou Raphinha de forma diferente da que ele brilha no Barcelona (mais pela esquerda).
Foram muitos desfalques, sobretudo no sistema defensivo, contra a França, mas a opção pelo contra-ataque para favorecer a velocidade da turma da frente não funcionou, individualmente e coletivamente o Brasil foi superado por uma seleção rival que nem precisou fazer muita força e que jogou quase todo o segundo tempo com um jogador a menos (fez 2 a 0 quando já tinha inferioridade numérica em campo).
Ancelotti tem nove jogos à frente da seleção e perdeu três vezes. Ganhou apenas quatro jogos. Por mais que tenha feito alguns testes e tenha perdido alguns jogadores importantes cortados, a performance do "Mister" é decepcionante até aqui. Ele é mais elogiado por deixar Neymar de fora da lista de convocados do que por qualquer coisa que tenha feito em termos táticos ou técnicos na seleção.
Repetidamente, Ancelotti diz que o Brasil vai competir na Copa do Mundo. O mundo sabe disso, trata-se do Brasil afinal. Com qualquer técnico brasileiro, a seleção de alguma forma iria competir, iria passar da fase de grupos sofrendo com Marrocos, goleando o Haiti e derretendo a Escócia no calor de Miami.
O problema seria nos confrontos contra outras potências da bola no mata-mata, exceção feita à fraca Itália, que, se for à Copa, não terá vida longa. Tal qual o presidente Lula, que era contrário à vinda de Ancelotti no início ("por que nunca resolveu a Itália?") e depois mudou o discurso, o povo brasileiro abraçou a ideia de ter um celebrado treinador europeu após as decepções com Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior.
O aproveitamento de pontos de Ancelotti na seleção brasileira até aqui é de apenas 51,8%, pior do que o aproveitamento de qualquer um dos clubes que ele treinou, incluindo aí a pequena Reggiana, onde ele começou a carreira de treinador. A CBF não contratou um técnico top do mundo para ter esse desempenho.
Se a safra brasileira de jogadores não é das melhores de sua história, seria possível ainda assim mostrar algo bem melhor, ainda mais com o nivelamento do futebol internacional. O Brasil não está muito melhor do que o Japão (de quem perdeu feio de virada) nem está muito pior do que a França, que joga abaixo do que pode com Didier Deschamps no comando (parece que essa máquina francesa fica quase sempre com o freio de mão puxado).
Eu elogio a classe e a paciência de Ancelotti para responder toda hora sobre Neymar, antes e depois de qualquer partida, e ele, claro, já percebeu que o noticiário é quase monotemático na seleção. Não tem jeito: o assunto maior de mais uma Copa do Mundo para o Brasil será o "Menino Ney", estando ele convocado ou não.
Ele é ídolo de quase todos os atletas do time, é do Vini e do Casemiro, o capitão que falhou no primeiro gol contra a França. Se a seleção não ganhar a Copa, vão dizer que faltou Neymar. Se ganhar jogando feio, ainda vai ter gente dizendo que seria melhor com Neymar. E não me parece que o Brasil vai ganhar a Copa deste ano dando show. Pode ser algo como 1994 nos Estados Unidos, talvez em uma disputa de pênaltis, mas parece pouco provável que este time encante o país e o mundo até o final de julho.
Os melhores jogadores do Brasil contra a França foram o atacante Luiz Henrique, que entrou no lugar de Raphinha e fez uma boa fumaça, e o zagueiro Bremer, que fez um gol e quase decretou o empate, sem comprometer tanto na parte defensiva quanto Ederson, Wesley, Léo Pereira e Douglas Santos.
Só o fato de Luiz Henrique tentar jogadas individuais, partir para cima sem medo, já o coloca na Copa agora como uma esperança. Vai brigar na direita com o Estêvão. Não deveria brigar com Raphinha nesse setor. Os caras que deveriam ser os protagonistas contra a França não foram, parecem estar sentindo o peso e responsabilidade agora na hora da verdade às portas da Copa do Mundo.
Tenho a sensação que eles torcem muito pela convocação de Neymar para transferir uma tonelada para as costas do craque santista e aliviar a carga para eles. E Neymar pode ter muitos defeitos, só que nunca foi de se esconder na seleção, tanto que virou o maior artilheiro da equipe contando só jogos oficiais (tem média de 0,62 gol por partida, que é mais do que o triplo da média de gols do Vini Jr. na seleção).
Neymar não fez parte praticamente deste ciclo de Copa, não é culpa dele a troca sistemática de treinadores da equipe nem os resultados sofríveis da única seleção ainda pentacampeã mundial. Os problemas da direção da CBF também não são culpa de Neymar, e o atual presidente da entidade, Samir Xaud, tem tomado algumas iniciativas elogiáveis (vamos ver se vai sair mesmo em abril uma liga de fato independente dos clubes). Neymar também não tem culpa por não ter aparecido no país ninguém melhor do que ele nos últimos anos nem que as outras estrelas do país não desencantam na seleção.
Diante do que estamos vendo nesta Data Fifa, a melhor coisa para o Neymar foi não ter sido chamado desta vez. Ele está se tratando e sendo ainda mais pedido na Copa do Mundo agora.
Se tivesse jogado e ido mal contra a França e contra a Croácia (lembro que Neymar fez um dos seus gols mais bonitos e importantes pela seleção nas quartas de final de 2022 contra os croatas), talvez ficasse mesmo de fora da lista final. Agora, aumenta o coro pelo camisa 10 que, tecnicamente, mais honra essa pesada camisa brasileira.
Não querer Neymar na Copa por causa de política (este ano tem mais uma eleição presidencial que vai polarizar o país) ou por causa de marketing (não é dele a ideia do "Brasa" nem o Air Jordan no uniforme) é algo menor.
A Copa do Mundo é de futebol e, como bem disse Mbappé, é a "competição das estrelas". Para o torneio como um todo, é melhor que Neymar vá, assim como é legal ver Cristiano Ronaldo e Messi de novo no torneio mais atrativo do esporte mais popular do planeta.
A figurinha do Ney no álbum tem muito valor ainda. Quando acabou Brasil 1 x 2 França, um garoto invadiu o campo com a camisa da seleção brasileira para pedir um autógrafo do Vini, e o nome que ele tinha nas costas era o de Neymar.
Eu já defendia a convocação de Neymar, desde que ele estivesse em boas condições físicas em maio e junho, mesmo que seja para ser reserva e entrar nos minutos finais de apenas algumas partidas. Estou começando a achar, também ouvindo o coro da torcida, que a presença de Neymar na Copa (entre 26 convocados para no máximo oito partidas) é muito mais importante para o Brasil do que até mesmo os Neymarzetes imaginavam.
