Os gols de Zidane na final da Copa do Mundo de 1998. O pênalti perdido por Zico nas quartas do Mundial de 1986. A finalização certeira de Thierry Henry na mesma fase em 2006. Imagens traumáticas para o Brasil não faltam ao pensar em um embate contra a França, mas o adversário desta quinta-feira (26), em amistoso marcado para Boston, nos Estados Unidos, já causou outras cenas que alguns gostariam de esquecer.
Em 2011, as duas seleções disputavam uma partida amistosa em Paris quando, aos 40 minutos do primeiro tempo, o camisa 11 do Brasil errou o cálculo e deixou a chuteira no peito de Karim Benzema. Era Hernanes, que começava a ganhar espaço na equipe de Mano Menezes e viu aquela expulsão interromper o processo. A França venceria o jogo por 1 a 0, gol do próprio Benzema.
"Foi um episódio atípico", lembra o Profeta, em entrevista exclusiva à ESPN. "Fazia tempo que o Brasil não ganhava da França. Eu estava muito pilhado, essa coisa de 'vamos ganhar'. Não para bater nos caras, nunca fui assim, eu queria ser mais forte na bola, na elegância. Só que, quando aumenta a emoção, se perde o controle dos movimentos".
Hernanes deixou a seleção na mão naquele dia, mas manteve-se no radar de Mano e depois com Luiz Felipe Scolari, quando, em 2013, teve novamente a chance de encarar a França de Benzema. Hoje, em reflexão, não acredita que aquele lance tenha marcado sua trajetória na seleção, até porque, no reencontro, anotou um dos gols da vitória verde e amarela por 3 a 0, em Porto Alegre.
"Sou muito desligado, nem lembro disso [reencontro com a França dois anos depois]. Teria sido legal ter ido [falar com Benzema]. Se tivesse me dado conta, ter ido falar com ele e tudo, mas legal que fiz o gol", disse o ex-jogador, hoje comentarista na Itália. "Tive outros momentos, recuperei meu lugar. Foi praticamente o 12º jogador no título da Copa das Confederações".
O sonho do ouro olímpico
Nascido em Recife, capital do Pernambuco, Hernanes sempre viu a seleção como uma fantasia, algo até certo ponto inatingível. O sonho de vestir a camisa amarela existia, embora o garoto soubesse que era preciso andar largos passos até alcançá-lo.
A possibilidade virou real em 2008. Já titular e campeão brasileiro pelo São Paulo, o volante foi convocado por Dunga e estreou em um dia 26 de março, com vitória por 1 a 0 sobre a Suécia, gol marcado por Alexandre Pato. A partir dali, começou a ganhar espaço não na equipe de cima, mas no time olímpico, que meses depois disputaria a então inédita medalha de ouro nos Jogos de Pequim, na China.
"Eu era muito moleque, um garoto muito cru. muito cru. Você chega em um ambiente de grandes estrelas, de glamour, de grandeza, e você é apenas um garoto. Futebol acelera isso, um garoto que não sabe nada da vida já vivendo emoções fortíssimas. E tem que encontrar uma maneira de não perder o chão", conta o ex-jogador.
Hernanes ganhou a titularidade nas Olimpíadas. Em uma geração formada por talentos como Marcelo, Alexandre Pato, Diego, Anderson e também reforçada por Ronaldinho Gaúcho, foi do Profeta o gol que abriu a campanha em Pequim, contra a Bélgica de Vincent Kompany e Marouane Fellaini. A seleção alcançou as semifinais sem sofrer gols, mas sucumbiu perante a Argentina de Riquelme, Messi e Aguero. O sonho do ouro virou a realidade do bronze.
"Eu tinha esse grande desejo de ser o primeiro a conquistar essa medalha de ouro que faltava para o futebol brasileiro. Depois daquele jogo foi bem difícil me motivar para ter outros objetivos. Foi uma desilusão que demorou um mês para recuperar. Hoje sou orgulhoso desse bronze olímpico. Não foi ouro, mas ter medalha olímpica me orgulha".
O título sobre Xavi e Iniesta até o 7 a 1
Hernanes aos poucos cresceu dentro da seleção. Como jogador da Lazio, fez parte da passagem de Mano Menezes e se estabeleceu como peça constante do grupo a partir de 2013, com a chegada de Luiz Felipe Scolari ao comando.
Com Felipão, o meio-campista nunca foi titular absoluto, mas emendou uma sequência de 12 partidas seguidas pela seleção, quase sempre saindo do banco.
"Nunca foi o jogador que queria ter sido na seleção. Era sempre um jogador mais tardio, porque fisicamente demorei para amadurecer. Compensava com a técnica, a emoção, a garra. Quando encontrei o equilíbrio, já estava um pouco mais velho", conta Hernanes, que ainda guarda com carinho o grande momento com a camisa amarela.
Em julho de 2013, o Brasil amassou a Espanha por 3 a 0, na final da Copa das Confederações, e garantiu um título com campanha perfeita um ano antes de sediar a Copa do Mundo.
"O time estava redondinho, todo mundo jogando em alto nível. Ganhar daquela Espanha, com Xavi e Iniesta, que era um time absurdo...", recorda o campeão, que ainda guarda uma conquista pessoal daquela tarde inesquecível no Rio de Janeiro. O Iniesta para mim é um monstro sagrado do futebol. Dei uma pedalada em cima dele, para mim foi um troféu (risos)".
Uma pena é que, um ano depois, o futebol oferecia uma outra face para Hernanes. Convocado para disputar a Copa de 2014, a primeira e única de sua carreira, o ídolo são-paulino atuou em dois dos cinco jogos até a fatídica semifinal contra a Alemanha. Do banco de reservas, viu o Brasil sofrer um apagão, levar cinco gols em menos de 30 minutos e destruir o sonho de levantar a taça em casa.
"Participei de poucos enterros na minha vida, mas era esse sentimento de luto", recorda Hernanes. "É aquele pesadelo que você sabe que é um sonho, mas não consegue correr e nem acordar. Negócio doido, não estava entendendo nada o que estava acontecendo. Entrei em estado de choque. A razão estava suspensa, eu não entendi até dar o intervalo, até acabar o jogo, não só eu, mas ninguém conseguiu processar".
Dias depois, ele faria a última de suas 27 partidas pela seleção brasileira, com derrota por 3 a 0 para a Holanda, na disputa do terceiro lugar.
A volta que não aconteceu
A carreira de Hernanes seguiu por outros caminhos. Da Lazio para a Inter de Milão, de lá para a Juventus e até chegar à China. Até que, na metade de 2017, pintou a chance de voltar ao São Paulo, que apostava todas as fichas no meia para escapar de um rebaixamento que parecia fadado a acontecer.
O Profeta desembarcou no Brasil e virou o grande nome do futebol brasileiro naquele ano. Com nove gols e três assistências em 19 jogos, Hernanes salvou o Tricolor da queda, ganhou a terceira Bola de Prata da carreira (as outras em 2007 e 2008) e imaginou que poderia ganhar uma chance de voltar à seleção.
"Minha lamentação foi não ter tido oportunidade com Tite, porque ali [em 2017] era um jogador maduro e pronto", admitiu o ex-jogador, ao se referir ao técnico do Brasil na época.
"Se fosse em qualquer outro momento, essa carga, esse estresse, essa pressão, esse foco de se doar tanto para o São Paulo ia me fazer ter um burnout. Mas eu estava pronto e pude suportar a pressão. Estava autoconsciente, pronto e demonstrei com resultado dentro de campo. Não sei se ia escrever outras páginas, mas eu merecia uma oportunidade", concluiu.
