Depois das mortes de Zagallo e Beckenbauer, dois dos maiores nomes da história das Copas do Mundo, bateu um saudosismo grande em mim e em muita gente que tem já algumas boas décadas de vida. Infelizmente, estamos perdendo grandes figuras da bola em série. Não faz muito tempo, demos um adeus ao Rei Pelé e a Sir Bobby Charlton, outros que estão no Olimpo do esporte mais popular do planeta.
Nas merecidas homenagens ao Velho Lobo Zagallo, no Brasil e nos outros países, muitas referências à seleção brasileira de 1970 como a melhor equipe da história do futebol. Sem dúvida, um time lendário que venceu com jogo bonito e que conquistou de forma definitiva a Taça Jules Rimet para o Brasil.
Mas eu coloco a seleção de 1958 à frente da de 1970, o que parece chocar algumas pessoas. Vi e postei uma entrevista de Beckenbauer à ESPN Brasil (um épico “Bola da Vez”) em que o genial alemão pôs em primeiro lugar também a seleção de 58, mesmo com seu amigo Carlos Alberto Torres (outra lenda que está na “seleção do céu”), capitão da equipe de 1970, presente ali como um dos entrevistadores.
Franz Beckenbauer, que também pensa como treinador (foi campeão mundial também como técnico), escalou nesse programa aqui em São Paulo a equipe que ganhou a Copa do Mundo na Suécia, durante muito tempo um caso único de seleção sendo campeã do mundo fora de seu continente. Citou mais os craques do meio para a frente, como Zito, Didi, Vavá e Garrincha. Falou com carinho de Zagallo, que jogava pela esquerda, e exaltou, claro, um menino de 17 anos que viria a ser um de seus grandes amigos alguns anos depois, parceiro nos Estados Unidos e em eventos diversos da Fifa.
Pelé foi Rei já em 1958, quando, jovem, fazia gols em profusão. Apenas no Campeonato Paulista daquele ano, Pelé anotou incríveis 58 gols, uma marca que hoje lhe daria quase que seguramente a Chuteira de Ouro. Em 1970, Pelé era muito mais experiente, ainda mais inteligente dentro e fora de campo, mas não exibia a velocidade, a condição física e a mesma veia artilheira que possuía em 1958. Talvez o auge de Pelé tenha acontecido entre 1958 e 1965, claro que por questões de idade. Não quer dizer que ele não tenha sido brilhante de 1966 para frente (em 1970 o Rei produziu verdadeiras obras-primas), mas o número de gols foi caindo, ele foi dividindo mais responsabilidades com os companheiros mais jovens.
Comparar o Pelé de 1958 com o Pelé de 1970 não é das tarefas mais fáceis, mas eu levo em conta nessa disputa a capacidade goleadora, a explosão, a condição física. Ponto para 58, que tinha Garrincha. A presença do ponta direita do Botafogo na equipe que ganhou a primeira estrela para o Brasil faz muita diferença nessa disputa entre as duas seleções mais emblemáticas do nosso país. Com Pelé e Garrincha juntos, a seleção brasileira jamais foi derrotada. Os dois gênios possuem uma aura toda especial no imaginário do nosso futebol, isso tem um peso absurdo para a minha preferência por 1958.
Acho que a grande diferença entre os times está no setor defensivo. A seleção de 58 passou os quatro primeiros jogos sem sofrer gol. O Brasil de 70 sofreu gol em todas as partidas, exceção feita ao grande duelo amarrado contra a Inglaterra (1 a 0, sendo que Félix fez uma defesaça nesse jogo). Se pegarmos individualmente, de fato o time que ganhou a primeira Copa tem nomes mais fortes na defesa.
Considero (como quase todo mundo) Gilmar melhor goleiro do que Félix, não tenho dúvida de que a “Enciclopédia” Nilton Santos superava bem Everaldo e prefiro Bellini a Brito.
A briga entre Djalma Santos, eleito o melhor lateral-direito da Copa de 58 mesmo tendo atuado apenas na final, e Carlos Alberto Torres é do mais alto nível. O capitão do tri sempre foi muito reverenciado pelo poder de apoio, muito bem visto no quarto gol brasileiro contra a Itália na decisão de 70. Ele leva a melhor muito por isso, mas Djalma Santos não fica muito atrás dele.
Como quarto zagueiro, eu ficaria com Piazza, um volante que foi recuado por ter boa técnica, e deixaria de fora Orlando Peçanha, que tinha um excelente entrosamento com Bellini, uma vez que eles eram companheiros de Vasco.
Na cabeça de área, não tem discussão. Zito, que tem estátua na frente da Vila Belmiro e que é o capitão eterno do Santos (tem um Z na faixa de capitão do time por causa dele). Clodoaldo é uma joia santista que sabe bem o tamanho, a importância e a liderança de Zito.
Didi, o maestro que consagrou a “folha seca”, foi o melhor jogador da Copa de 58 (lembro que Pelé chegou contundido e não foi titular desde o início).
O ídolo do Botafogo foi quem calmamente pegou a bola no fundo do gol do Brasil após a Suécia, dona da casa, abrir o placar na final. Veio caminhando com ela até o meio-campo dando um sinal para todos de que a situação poderia ser revertida, como foi com rapidez e elegância. Gérson, outro craque que fez história no Botafogo (também conseguiu isso em outros clubes), sentaria no banco para Didi numa seleção das seleções de 58 e 70 (e o “Canhotinha de Ouro”, como bom comentarista que é e por entender muito de bola, ainda reverenciaria seu mestre).
Garrincha desbanca o excelente Jairzinho na história da seleção e do Botafogo, sem discussão.
Vavá é muito mais centroavante do que Tostão, um falso 9 em 1970. Terceiro maior goleador da seleção em Copas (Vavá anotou nove vezes no bicampeonato 1958/62) e um dos poucos homens que fizeram gol em mais de uma final de Mundial de Clubes. Tostão é brilhante, um gênio dentro e fora das quatro linhas, mas já falou que daria seu lugar a Romário na seleção de 70, por exemplo. Eu tenho o maior jogador da história do Cruzeiro como meu amigo, afinal estivemos juntos na Folha de S. Paulo por muitos anos, inclusive vi a final da Copa de 2010 ao lado dele (eu torcendo pela Holanda, e ele admirando a Espanha).
Mas entendo quem prefira um goleador como Vavá no comando do ataque, um homem com vigor físico para romper com mais facilidade as defesas adversárias.
Eu deixaria na ponta esquerda Rivellino, com Zagallo ficando como o treinador da equipe.
O meu time ideal de 1958/1970 ficaria então com Gilmar, Carlos Alberto Torres, Bellini, Piazza, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Tostão, Pelé e Rivellino. Tirando o Rei, que integra os dois esquadrões mais lendários do Brasil, são seis jogadores de 1958 e quatro de 1970 (isso porque fiz opção técnica por Tostão, barrando o goleador Vavá).
Só que essas seleções não eram grandiosas apenas com seus titulares. O nível dos reservas era bem alto, mas também nisso eu fico com a turma de 58.
Castillo, De Sordi, Mauro Ramos de Oliveira (que viria a erguer a taça em 1962 como capitão), Zózimo (também titular na conquista do bi), Oreco, Dino Sani, Moacir, Joel, Mazzola (grande Altafini, que jogou depois pela seleção da Itália), Dida e Pepe. Essa seleção reserva de 1958 ganharia de muitas outras seleções brasileiras, sobretudo nos últimos tempos.
Fazendo uma seleção reserva de 70, teríamos algo como Leão (ainda bem jovem), Zé Maria, Fontana, Baldocchi, Marco Antônio, Piazza (tive que colocá-lo como volante para completar 11), Paulo Cézar Caju, Dadá Maravilha, Roberto e Edu. Ótimo time também, mas não vence a equipe reserva de 58, na minha mascarada opinião. A equipe que faturou nossa primeira estrela tinha um elenco mais completo, portanto. Uma reunião de craques maior do que 70.
Além dessa questão de nomes, é preciso lembrar dos contextos. O time de 1958 sepultou o complexo de vira-lata (expressão e conceito criados por Nelson Rodrigues) que pairava sobre o futebol brasileiro e também sobre nossa sociedade, nosso país. Foi uma grande demonstração para o planeta de que o Brasil poderia ser o melhor em alguma coisa.
Essa façanha fez com que nossa nação fosse muito mais reconhecida. A ideia de futebol-arte passou a existir na prática. Os brasileiros passaram, a partir daí, a desenvolver a sua autoestima, o que ajudaria todas as seleções que vieram depois, inclusive a de 1970.
Os adversários começaram a temer muito mais o Brasil, que virou a grande potência da modalidade. A seleção que ganhou o tri teve menos fantasmas para superar (um deles foi o Uruguai, carrasco do Maracanazo em 1950, nas semifinais).
Em 1958, o Brasil passou com muita autoridade pela seleção que também vinha dando show na Copa: a França de Kopa e Just Fontaine, recordista de gols em uma só edição do Mundial (13).
Em 1970, a seleção não teve a chance de medir forças com a poderosa Alemanha de Beckenbauer e Gerd Müller (artilheiro com 10 gols do torneio), pois o time alemão caiu na espetacular semifinal contra a Itália por 4 a 3 na prorrogação naquele que é chamado de o “jogo do século”.
A Alemanha já vinha desgastada por uma prorrogação com gostinho de revanche contra a Inglaterra, campeã do mundo vigente, e Beckenbauer, o grande líder da equipe, jogou durante muito tempo com uma tipoia no braço porque ele deslocou a clavícula e não era mais possível fazer substituição. Se a Alemanha jogou um tanto quanto baleada contra a Itália, na final contra o Brasil foi a vez de a Azzurra sentir mais o desgaste físico por ter disputado uma prorrogação no jogo anterior. A seleção brasileira fez uma grande preparação para o Mundial do México, inclusive com aclimatação ideal para a altitude. Sobrou fisicamente contra a Itália no segundo tempo da decisão.
Se o trabalho de preparação foi muito bem feito para 1970, a turma de 1958 foi pioneira e inovadora em vários aspectos extracampo.
A delegação comandada por Paulo Machado de Carvalho, o icônico “Marechal da Vitória”, contava com psicólogo (João Carvalhaes) e dentista (Mário Trigo), coisas incomuns para a época. João Havelange, que era o presidente da CBD tanto em 1958 como em 1970, tratou de arrumar até podólogo (o “Geada”) para cuidar dos jogadores que foram tentar a primeira taça na Suécia. Vários profissionais deram sua contribuição para aquele sucesso, foi a primeira vez que uma delegação multidisciplinar foi montada pelo Brasil para uma Copa do Mundo.
Hoje, isso virou uma rotina para qualquer equipe de ponta. Deu tão certo todo esse trabalho que em 1962 quase tudo foi repetido, de novo resultando em título mundial. Esses detalhes fora de campo também me fazem colocar a equipe de 1958 à frente da de 1970.
Em 2008, quando foi comemorado o cinquentenário do primeiro título mundial do Brasil, tive a chance de fazer um grande especial na Folha de S. Paulo ao lado do meu saudoso colega Alec Duarte (falecido no ano passado). Visitei na Suécia os estádios, o local de concentração e vários lugares que marcaram a passagem brasileira por aquele Mundial. Conversei com muita gente que estava na delegação brasileira de 1958, inclusive Havelange e Pelé (dormi na cama que o Rei usava na concentração em Hindas, no quarto 410), e falei com suecos e suecas da região, sobretudo, que viveram o dia-a-dia da seleção durante aquela Copa.
Como dizia Pelé, muitos dos locais nunca tinham visto negros, pouco ou nada conheciam do país sul-americano chamado Brasil. Além de me aproximar muito da seleção de 1958, para fazer esse especial de 50 anos vi todos os vídeos dos jogos daquela campanha brasileira. Foi assim que percebi o tamanho do jogador que foi Didi, um monstro de craque. Quis muito ver Pelé e Garrincha, mas quem mais me encantou mesmo foi o “Mr. Football”, um apelido que Didi ganhou após suas apresentações de gala.
Zagallo, o “formiguinha” do time de 1958 que ajudou a consagrar o esquema 4-3-3 voltando da posição de ponta para ajudar o meio-campo (aquela equipe na Suécia mudou a tática do planeta), não está mais entre nós. Beckenbauer, o melhor defensor da história do futebol, que ficou embasbacado ao ver, bem garoto, a seleção brasileira de 1958 dar show, também não está mais entre nós.
Cabe a nós, que ainda estamos vivos (chega a hora para todo mundo, não tem jeito), cultivar essas histórias da bola e passarmos para as próximas gerações. Importante que nossos filhos e netos saibam quem foi Zagallo, quem foi Beckenbauer, como foram gigantes as seleções do Brasil de 1958 e de 1970 (um pouco mais a de 58).
