Brasil enfrenta a Sérvia em sua estreia na Copa do Mundo do Qatar no mesmo Estádio Lusail que será palco da final
Richarlison foi um dos jogadores do Brasil que se impressionou com o tamanho do Estádio Lusail, que será palco da estreia da seleção nesta quinta-feira (24), às 16h (de Brasília), contra a Sérvia. De fato, a arena, com capacidade para 88.966 pessoas, chama a atenção desde o primeiro olhar.
O desenho arquitetônico tem inspiração nas tigelas e vasos que viram peças de arte em todo o Oriente Médio. Apesar de toda a beleza da construção, ela não seguirá como um estádio de futebol depois da Copa. Será adaptada para dar lugar a um espaço comunitário, com escolas, lojas, restaurantes, clínicas de saúde e apenas algumas instalações esportivas.
Localizado a cerca de 20 quilômetros ao norte do centro de Doha, o Lusail teve seu projeto assinado pela empresa "Londres Foster + Partners". Um dos profissionais que deixou suas digitais no estádio é o português Décio Ferreira, que concedeu entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.
O arquiteto começou a se envolver com o Lusail em 2015, graças a um concurso lançado pelo Qatar para selecionar empresas para trabalharem nos estádios. Ferreira foi um dos responsáveis por desenvolver e coordenar o projeto, que desde o início tinha a exigência para ser adaptável.
"Isso influenciou. Não havia uma ideia clara do que seria feito depois, mas havia uma vontade do Qatar para que os projetos fossem readaptáveis. Nas reuniões que tivemos com eles, não sabiam muito bem que iam fazer depois, mas sabiam muito bem que queriam um projeto de readaptação para o que fosse", contou Décio, revelando que seu plano inicial era manter a identificação com o esporte.
"O que propusemos era de que o estádio não fosse desmontado, nem diluído em sua totalidade. Propomos que o estádio se mantivesse como estádio e substituísse o atual estádio nacional (o Khalifa, principal do Qatar), para ser o palco das finais do país. Só que esse estádio tem um simbolismo muito histórico para a população.”
"Estudamos fazer um museu, dedicado ao esporte; um centro cultural, que poderia abrigar algumas atividades; havia sempre alguma preocupação do nosso lado para que parte do estádio fosse desmontada e depois pudesse ser montada de forma rápida e fácil", completou.
O Lusail foi o primeiro estádio em que Décio Ferreira trabalhou como arquiteto. Depois, ele também atuou na construção de uma arena na Costa do Marfim, utilizada na Copa Africana de Nações, mas com proporções bem menores do que uma arena que será palco de final de Mundial.
"O Estádio Lusail é um estádio importante, muito grande, emblemático, de presença muito grande. No meu ponto de vista, um estádio muito bonito. Brinco que tem duas vantagens, que é o estádio que o Brasil vai estrear e também o da final, quando o Brasil vai jogar com Portugal (risos). E aí vou ter que torcer para Portugal e ver fechar essa história minha com o estádio.”
Estádio como um 'Lego'
Mas quais são as dificuldades para um arquiteto projetar um estádio tão grande e bonito como o Lusail tendo que depois desmontá-lo? O português conta que não foi fácil...
"Como arquiteto, é um desafio interessante. É quase como um 'Lego' que precisa ser desmontado. Você precisa fazer uma coisa que seja suficientemente capaz de corresponder às necessidades da Fifa. Existem essas exigências, muitas pessoas irão ao estádio. É um desafio grande colocar o 'padrão Fifa' em uma coisa que precisa ser desmontada. De outro lado, é difícil fazer uma obra de arte, uma peça de arquitetura que precisa ser desmontada, que tem um caráter temporário, não definitivo."
"Do meu ponto de vista, o estádio é um marco importante, que tem alguma influência, importância no contexto do esporte no Oriente Médio. É uma pena que seja desmontado. É um misto de emoções. É um desafio importante, porque tínhamos que adaptá-lo, mas gostaríamos que fosse permanente para ser um marco na arquitetura. Mas vimos também no Brasil, os estádios da Copa virando 'elefantes brancos', que passam a ser um peso grande para o setor público."
Ligação com o pai de Cristiano Ronaldo
Há também uma história sobre o Lusail que está bem mais escondida do que sua beleza. É a relação que Décio Ferreira tem com o pai de Cristiano Ronaldo, maior astro de Portugal.
Quando criança, o arquiteto português jogou futebol no Nacional e no Andorinha, mesmos clubes que eram frequentados por José Dinis Pereira Aveiro, quando Cristiano Ronaldo era ainda um bebê. O pai do craque morreu em setembro de 2005, aos 51 anos.
"O Cristiano tem dez anos a menos do que eu, e eu conheci o pai dele quando jogava no Nacional e no Andorinha. Íamos lá, e o pai do Cristiano costumava estar. O conheci lá no estádio onde costumava ir. Não conheci o Cristiano, já que eu era uma criança. Mas estávamos sempre lá."
A diferença de idade entre Décio e Cristiano é de dez anos. “Não lembro se o vi, mas é provável. Eu tinha 13 anos, ele devia ter 3, podia estar lá com o pai. Recordo do pai porque meus pais costumavam ver os jogos e treinos comigo e lembro que perguntaram para ele o nome. E ele disse Dinis Aveiro. Anos depois, quando o Cristiano foi ao Manchester (United), jogou no Sporting, é que se lembrou: 'Olha aquele senhor que ficava no estádio'. E era ele mesmo."
No Qatar, Décio Ferreira estará na torcida, claro, por CR7, mas também por Neymar, que é quem ele acredita que marcará o primeiro gol da seleção brasileira no estádio que projetou. "Estou com esperança que possa ser ele a marcar o gol, acredito que fará um grande Mundial."
Agora, se seu sonho de uma final entre Brasil x Portugal se confirmar, o arquiteto não tem dúvidas por quem irá torcer. "Se for Brasil x Portugal, acho que Cristiano vá marcar. Que Portugal faça um gol a mais. Eu brinco que só aceitei fazer parte do projeto depois de duas exigências: primeiro que fosse o Brasil que inaugurasse e a segunda que a final fosse Portugal x Brasil, e Portugal ganhasse.”
Até agora, o Lusail só foi usado na Copa do Mundo na derrota da Argentina para a Arábia Saudita.
