Caminhos de jogadores que agora são companheiros na seleção brasileira já haviam se cruzado muitos anos antes da Copa do Mundo do Qatar
Quando chegaram ao hotel onde a seleção brasileira ficará hospedada na Copa do Mundo do Qatar, os jogadores foram surpreendidos no quarto com fotos de quando eram crianças. Mas nem só essas imagens representam uma volta ao passado para eles: os caminhos de vários dos convocados de Tite já haviam se cruzado em suas respectivas infâncias, em quadras de futsal.
O simples fato de se tornarem profissionais já era um sonho distante naquela época. Disputar um Mundial com a camisa verde e amarela, então, ainda mais. Mas para alguns dos estreantes que a seleção brasileira tem no Qatar, como Antony, Gabriel Martinelli, Pedro, Bruno Guimarães ou Vinicius Jr., é exatamente isso que aconteceu.
Primeiro, a história dos paulistas. Antes mesmo de completarem dez anos de idade, Antony e Martinelli disputavam os mesmos campeonatos de futsal e já se destacavam. Os caminhos se cruzariam logo adiante. "Eu jogo contra o Antony desde os 11 anos. A gente sempre se enfrentava", disse o atacante hoje no Arsenal, à ESPN, após ser convocado.
Martinelli defendia o Corinthians, enquanto Antony, que acabou tendo projeção no futebol nas categorias de base do São Paulo, jogava pelo Grêmio Barueri no futsal.
A trajetória dos dois chama a atenção. Um ano mais velho, nascido em 2000, Antony faturou o "Tênis de Ouro" do Campeonato Metropolitano de 2009 na categoria sub-9. Na temporada seguinte, foi a vez de Martinelli receber o prêmio tanto do Metropolitano, quanto do Estadual. Foram 122 gols no total nas duas competições, com o título para o Corinthians em ambas.
Enquanto Martinelli brilhava no sub-9 em 2010, Antony fazia o mesmo já no sub-11, levando o Barueri até o título do Metropolitano da categoria. As atuações de destaque na equipe paulista, inclusive, levaram o hoje jogador da seleção brasileira para a Europa, para um período de treino com o Interviú FS, um dos principais times de futsal da Espanha.
Em Madri, onde passou cerca de duas semanas, Antony também foi observado de perto pelo Atlético de Madrid, mas acabou voltando ao Brasil, migrando para o campo e explodindo no São Paulo. Enquanto isso, Martinelli, em 2011, passou também a já se dividir entre as quadras e o futebol.
"Ambos faziam a diferença em seus clubes pela qualidade técnica e intensidade nos jogos. Os dois eram referências em suas faixas etárias. Muita personalidade de ambos", contou ao ESPN.com.br André Bie, que comandou Martinelli no sub-11 e sub-13 do futsal do Corinthians.
"Martinelli sempre foi um grande jogador, muito disciplinado, o primeiro a chegar nos treinos. Uma personalidade ímpar, não gostava de sair de treinos, dos jogos, competia muito. Sempre foi artilheiro nas edições que atuou comigo. Garoto com uma explosão, habilidade, facilidade de fazer gols tremenda. Tenho muito orgulho de ter trabalhado com ele ver onde ele chegou", completou.
Quando migrou de vez para o campo, Martinelli, inclusive, viveu rivalidade com um outro jovem que hoje é seu companheiro na Copa do Mundo. Rodrygo, na época doSantos, o outro "caçula" nascido em 2001 da seleção.
Em 2012, por exemplo, Martinelli foi o artilheiro do sub-11 do Corinthians no Campeonato Paulista da categoria da categoria, com 15 gols. Só ficou atrás de Rodrygo, que fez 20 e levou seu time ao título. Em 2014, no sub-13, história parecida: Martinelli balançou as redes cinco vezes pelo Timão, mas o Peixe foi campeão, com 19 tentos do hoje jogador do Real Madrid.
As 'figurinhas' do Rio
No Rio de Janeiro, a história é parecida com outros três estreantes na Copa do Mundo. Bruno Guimarães e Pedro eram companheiros em um time de futsal, e Vinicius Jr. jogava o mesmo torneio.
A competição era a Superliga de Futsal de 2010. No sub-11, estava Vinicius, que marcou 12 gols pelo Canto do Rio. No sub-13, Bruno foi o artilheiro do Pentágono, com nove gols, mesmo tendo o hoje goleador Pedro, então conhecido como "Queixinho", como colega de time – os dois, amigos desde aquela época até hoje, ainda seguiram jogando juntos depois no futsal do Flamengo.
Há ainda uma curiosidade desse torneio: os jovens jogadores foram retratados em um álbum de figurinhas, em história contada primeiramente pela "Globo", em 2021.
"O álbum de figurinha era uma febre e cada um queria a sua para completar o álbum. Eu colecionava. Era uma competição muito boa e tínhamos vários jogadores da idade que eu conhecia", disse Vinicius Jr. "Comecei a jogar no Flamengo depois disso. E pude ter um início de carreira."
O "Queixinho" daquele álbum de figurinha cresceu, virou Pedro e se emocionou ao ver a foto dos tempos que ainda era jogador de futsal no quarto da seleção brasileira no Qatar.
"É um sonho realizado de criança. Chegamos no quarto, passou um filme na cabeça, fiquei emocionado demais, lembrando o passado, as lutas que a gente passa para virar jogador. Não esperava, recebemos essa novidade que foi marcante e vou levar para o resto da minha vida."
