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De camisa nova para a Copa, CBF viu renovação com Nike travar por cláusula anticorrupção; veja valores

ESPN.com.br conseguiu, com exclusividade, todos os valores ganhos pela CBF com os seus principais patrocinadores


A CBF e a Nike divulgaram oficialmente, no domingo (7), o conjunto de camisas a ser utilizado pela seleção brasileira na Copa do Mundo do Qatar. O Mundial de 2022 será o sétimo da parceria entre a fornecedora de material esportivo americana e a confederação. A tabelinha também já está garantida para mais uma edição do principal torneio do mundo, o de 2026. O futuro da aliança iniciada em 1995, no entanto, ainda depende de uma emperrada negociação pela renovação do vínculo que ultrapassará três décadas.

Assinado em 2007 pelo então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, o contrato atual é válido até o final de 2026. No primeiro semestre de 2021, membros da alta cúpula da confederação iniciaram tratativas com executivos da Nike de olho na ampliação do vínculo. Na mesa, opções que alternavam entre uma nova assinatura até a Copa de 2032 com um reajuste considerado elevado e uma renovação mais longa, até a Copa de 2036, mas com uma atualização mais baixa de valores.

Tempo e valores, no entanto, não foram os únicos debates na mesa. Outro assunto discutido em encontros no Brasil e no México e que acabou travando o papo inicial foi a inclusão de uma cláusula anticorrupção no novo contrato entre Nike e CBF. A empresa era clara: só seguiria nas conversas mediante tal condição e, mais especificamente, se constasse no papel um compromisso da confederação de romper todos os laços restantes com ex-presidentes condenados por corrupção e envolvidos em escândalos fora das quatro linhas.

Em suma, a Nike queria a garantia que nenhuma sombra de Marco Polo Del Nero, José Maria Marín e Ricardo Teixeira restasse na CBF. Diretores e funcionários ligados ao trio deveriam ser desligados da entidade.

A gestão comandada por Rogério Caboclo concordava com as garantias anticorrupção a serem colocadas no papel, mas o fato de envolver nomes e "personalizar" o cerco gerou debate. A conversa não andou. A acusação de assédio que culminou no afastamento definitivo do ex-presidente da CBF terminou por paralisar toda a negociação em curso.

Nike paga US$ 35,5 milhões por ano

Segundo informações apuradas com exclusividade pela reportagem do ESPN.com.br com executivos das duas partes, a Nike paga US$ 35,5 milhões (R$ 183,2 milhões na cotação atual) por ano à confederação. À época, a CBF pretendia subir esse valor para o patamar recebido por seleções tradicionais como a Alemanha (50 milhões de euros anuais, ou R$ 263 milhões, da Adidas) e incluir um percentual de 10% sobre vendas dos produtos da fornecedora com a marca da seleção, algo que não ocorre hoje.

Tão logo assumiu o comando da CBF, o atual presidente da casa, Ednaldo Rodrigues, resolveu examinar contratos e retomar conversas sobre renovações dos vínculos mais importantes. A Nike entrou em pauta. Ainda em estágio inicial das conversas, o dirigente também busca um aumento no valor pago anualmente.

Interlocutores de Ednaldo já sinalizaram aos americanos que topam um acordo por menos tempo – renovação até 2030 – e um reajuste menor desde que ocorra, no momento da assinatura do novo compromisso, o pagamento de uma polpuda "luva". A CBF entende que tem um valor de mercado considerável a receber da Nike neste momento.

Ciente dos impasses de 2021, Ednaldo ordenou a inclusão de cláusulas anticorrupção em todos os contratos da CBF a partir de 2022.

"A violação de qualquer das disposições desta cláusula (oitava – legislação anticorrupção e código de ética) será considerada falta grave e poderá implicar na rescisão deste contrato, a critério da CBF, sem qualquer ônus para esta e prejuízo da cobrança das perdas e danos decorrentes da infração. Se a violação das Leis Anticorrupção por parte da CONTRATADA se der de forma completamente independente da relação com a CBF e/ou com o Contrato, a CBF poderá, ainda assim, terminar imediatamente o presente Contrato, mas sem cobrança de perdas e danos ou outra penalidade", diz o item 8.4 do novo contrato-base de contratação de prestação de serviços da CBF.

Contratos milionários também com Itaú, Ambev e Vivo

Principal marca parceira da CBF, a Nike representa quase um terço do faturamento com patrocínios da entidade – de acordo com o balanço de 2021, foram R$ 575,75 milhões.

O ESPN.com.br ainda apurou os valores atuais pagos pelas outras marcas ligadas à entidade. Ambev e Vivo depositam US$ 15 milhões (R$ 77,4 milhões na cotação atual) por ano nos cofres da CBF. O Itaú vem na sequência, em um contrato que rende 12 milhões de euros (R$ 63 milhões na cotação atual) anuais à confederação. Essas três têm direito à exposição na camisa de treinos da seleção e ativações maiores em eventos realizados pela casa.

Um patamar abaixo, o contrato com a Mastercard rende US$ 5,2 milhões (R$ 26,8 milhões na cotação atual) por ano. Na mesma prateleira da operadora de cartões de crédito, Fiat, Cimed, Farmácia Pague Menos, Semp TCL e Bitci.com pagam entre US$ 5 e 6 milhões (entre R$ 25,8 e 30,9 milhões) à CBF a cada 12 meses.

Em modelo diferente de parceria, a Gol Linhas Aéreas tem contrato de cerca de R$ 15 milhões em permuta direta com o Grupo Águia, do empresário Wagner Abrahão, responsável por operar com exclusividade toda a logística da CBF e de suas competições

Outra receita gorda que entra nos cofres da CBF quando o assunto é seleção brasileira é a cota da Pitch. A empresa que comprou os direitos dos amistosos do time de Tite deposita US$ 2 milhões (R$ 10,3 milhões na cotação atual) a cada partida organizada. Com a cota fixa destinada à entidade, toda a receita de transmissão, bilheteria e publicidade fica com os gringos.