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OPINIÃO: Esta semana será uma das mais importantes da história do São Paulo, e só a torcida pode salvar o clube

Podemos imaginar que, normalmente, as semanas mais importantes da história de um clube são aquelas dos maiores títulos, da fundação, do aniversário, do centenário, etc. Só pensamos em coisas positivas para celebrar as glórias e a grandeza de um time. Eis que o São Paulo, tricampeão mundial e nunca rebaixado, ainda o clube brasileiro com mais títulos internacionais, está vivendo uma semana absolutamente crucial nos seus 96 anos de vida (o aniversário será "festejado" no dia 25 de janeiro, mesma data da cidade de São Paulo, talvez com mais um título da Copinha).

Dentro e, especialmente fora de campo, esta semana vai dizer muito sobre o futuro próximo e o futuro distante da instituição, considerando que ela é eterna e não vai acabar um dia, mesmo que passe por crise financeira e política e deixe de disputar campeonatos por um pequeno período, o que aconteceu com o Tricolor em 1935 com o fechamento do departamento de futebol.

"No dia que tu não existir, eu não quero sorrir nunca mais", diz uma das músicas da torcida são-paulina, que não pensava que a situação do clube chegaria ao ponto atual, quando o que impera é o temor de corrupção, dívidas, falência e rebaixamentos.

De um lado, está a administração Julio Casares, a pior da história do clube, agora sem dúvida, e do outro lado estão 20 milhões de torcedores são-paulinos, organizados ou não. No meio disso, estão 255 conselheiros (muitos deles ligados ainda à situação) que vão definir na sexta-feira (16) se o processo de impeachment do presidente vai seguir adiante ou se tudo será jogado para baixo dos tapetes do Morumbis.

Como quase todo mundo esperava, o São Paulo começou a semana perdendo categoricamente do Mirassol, que virou algoz do Tricolor nestes anos recentes de crise tricolor. Além do placar de 0 a 3, a expulsão do garoto Maik (acho que era lance para cartão amarelo, mas o São Paulo não tem mais força de bastidores, tanto que foi muito prejudicado por arbitragens em 2025, começando já pela eliminação do Paulista no Allianz Parque) fez com que o time entrasse na zona do rebaixamento do Estadual já na primeira rodada (a Ponte Preta também levou um 0 a 3, mas leva vantagem no critério de desempate que trata do número de cartões).

Faltam apenas sete jogos para o São Paulo nesta fase do Paulista: três clássicos (dois deles fora de casa), três jogos no Morumbi contra times de menor investimento (um deles é a Portuguesa) em que a vitória é mais do que necessária para continuar na primeira divisão e um jogo derradeiro em Campinas contra a Ponte Preta, que também sofre com transfer ban e passa a ser desde já um concorrente direto do São Paulo na luta contra o rebaixamento no Estadual.

Tudo indica que o time de Hernán Crespo, ainda com menos opções no elenco do que no ano passado e ainda com um bom número de nomes no departamento médico, vai perder do Corinthians em Itaquera e do Palmeiras na Arena Barueri, o que só vai aumentar a pressão sobre o time. O Santos se preparou melhor para 2026 e nada garante que ele vai perder no Morumbis, até porque o técnico Juan Pablo Vojvoda é um carrasco do São Paulo, seus times não perdem nunca do Tricolor, como já vimos na Vila Belmiro ano passado.

Em tese, 10 pontos seriam suficientes para livrar um time da degola neste enxuto e traiçoeiro Campeonato Paulista. Problema é como o São Paulo vai atingir essa pontuação. A esperança passa, sobretudo, pelos jogos contra São Bernardo, Portuguesa e Primavera no Morumbis. Só que o São Bernardo, adversário de quinta no primeiro jogo em casa para os são-paulinos no ano, estreou goleando por 4 a 0, lidera e passa a ser um obstáculo de respeito.

Se a torcida abandonar o time, a situação ficará insustentável. Luciano, um dos poucos jogadores de qualidade do elenco e que não se machuca com frequência, já avisou que será uma temporada mais difícil e pediu para os torcedores não deixarem o time sozinho, pois eles fortalecem os jogadores.

A expectativa é de um público numeroso e muito quente no Morumbis na quinta-feira, para conduzir a equipe em campo nesta "final" contra o rival do ABC, e também na sexta-feira, para pressionar os conselheiros a mudar a atual administração, tirar Casares e sua diretoria do poder para que o clube volte a respirar e andar.

A avalanche de denúncias e notícias ruins no Tricolor tem feito com que jogadores prefiram defender outras camisas. O São Paulo está vendendo Rodriguinho para o Red Bul Bragantino, também por valores que não são os melhores, porque o mercado está virando as costas para o São Paulo, inclusive a Galapagos, tão querida de Casares, prova de que o FIDC não deu certo ou pelo menos não atingiu o que dele se esperava e vendia.

Qual investidor neste momento vai colocar dinheiro no São Paulo? Que credibilidade tem hoje o clube com esta gestão temerária e tenebrosa, que praticamente dobrou a dívida do time e que normalizou ao atraso no pagamento aos atletas? Aconteça o que acontecer na sexta, o São Paulo vai precisar recorrer a novo empréstimo bancário já em fevereiro para não atrasar o pagamento de seus quase 1,2 mil funcionários. Mas será que este novo empréstimo será aprovado, pois agora boa parte da coalizão que sustentou Casares largou a mão do presidente? Será que este dinheiro, se vier mesmo, chegará às contas do clube ou passará por intermediários e será sacado na boca do caixa por alguma pessoa física? Acho que agora não mais, assim esperamos com a ajuda externa da Polícia e do Ministério Público. Mais vendas de atletas serão necessárias para cobrir o rombo. Menos mal que Cotia continua produzindo talento, e menos mal que a ideia de Casares de vender 30% da base foi rechaçada pela maioria das pessoas.

No domingo, o desafio do São Paulo é contra o Corinthians, maior rival que também lida com dívidas astronômicas e que passou por processo de impeachment de seu presidente. Mesmo nessa condição, o Timão venceu Copa do Brasil e Paulista no ano passado e possui um time hoje melhor que o do São Paulo. O duelo será ainda na Neo Química Arena, território mais que hostil para o Tricolor, que só saiu uma vez com a vitória do campo em Itaquera. Perder fora de casa para o Corinthians será tão normal quanto foi perder para o Mirassol no último final de semana no interior.

O duelo mais importante e que não pode ser perdido é o da sexta-feira, quando estarão em jogo a imagem e a credibilidade do São Paulo, além da esperança de 20 milhões de pessoas que não têm poder de voto mas que de fato amam essa instituição. Só tirar o Casares e sua trupe não basta, o clube vai ter que passar brevemente por uma mudança de estatuto, uma troca desse regime arcaico que faz o poder mudar de Aidar para Leco e de Leco para Casares, um pior que o outro, sendo que Casares conseguiu superar os outros dois.

O Flamengo não virou SAF, mas ao menos teve a inteligência e a dignidade de criar uma lei de responsabilidade fiscal. Dirigente rubro-negro que lesar o clube vai ter que devolver do próprio bolso o que tirou. Se tiver que pagar com seus bens, que assim seja. Será que o dinheiro desviado da conta do São Paulo vai voltar para os cofres do clube? Sinceramente, não tenho certeza.

Já tem gente fritando o Crespo, um cara que, se não é o melhor técnico de todos os tempos, assim como não era Zubeldía, ao menos aceitou duas vezes trabalhar neste São Paulo caótico e criou de fato uma ligação sentimental com o clube e a torcida. Ele não é nem de longe o culpado pela situação da equipe.

Dizem que, quando Crespo chegou para a pré-temporada deste ano em Cotia (ao menos o clube não gastou dinheiro na Flórida), encontrou um CT largado, com um palmo de grama nos campos e banco de reserva sustentado por um pau, talvez porque quem cuidava da zeladoria diária foi escanteado. O treinador teve que voltar logo então para a Barra Funda, onde cumprimenta jornalistas em meio às tantas notícias calamitosas, fruto do elogiável trabalho de apuração que vários jovens jornalistas têm feito em diversos espaços na mídia.

O São Paulo foi refundado em 1935 e precisa de uma nova refundação. Isso deve começa na sexta-feira, mesmo com manobras eleitorais, e vai durar um bom tempo. Serão anos de bastante sacrifício e sofrimento até o centenário em 2030, mas é fundamental que a reconstrução do Tricolor comece nesta semana, a semana mais importante desta temporada e das que virão pela frente para os são-paulinos.

Próximos jogos do São Paulo: