Por mais coletivo que seja, o futebol sempre leva a discussão para o lado individual. Quem marcou o gol do título? Quem fez a substituição que mudou a história da partida? Ou, pior, quem falhou no lance mais decisivo? Esse martírio foi o de Fábio Santos por longos anos, em uma situação que hoje está mais do que superada, mas que o impediu até mesmo de assistir ao lance novamente.
Hoje muito identificado com o Corinthians, o ex-lateral-esquerdo começou a carreira no São Paulo. Ganhou espaço muito jovem, aos 17 anos, e teve a oportunidade que todo torcedor gostaria: ser titular em uma CONMEBOL Libertadores. O sonho não acabou como Fábio imaginava, com a eliminação de maneira traumática para o Once Caldas na semifinal de 2004, praticamente no último lance da partida.
O então camisa 6 participou daquele momento, ao ser driblado por Agudelo (em posição duvidosa) e permitir a finalização que passou por baixo de Rogério Ceni. O gol decretou a vitória colombiana por 2 a 1, acabou com a chance tricolor de conquistar o tricampeonato da Libertadores e mexeu com a carreira de Fábio Santos.
No documentário "Doutrinadores", produção da ESPN e disponível no Disney+ sobre a conquista do São Paulo de 2005, o hoje comentarista reviu o lance contra o Once Caldas, lembrou todas as dificuldades que precisou enfrentar para dar a volta por cima e admitiu: a sua parcela de responsabilidade na derrota, por mais que exista, não é da maneira que pintaram lá atrás.
"Demorei muito assim para falar sobre esse assunto, porque fui muito castigado por aquele lance. E me castiguei muitos anos por aquele momento, porque eu não conseguia ver. Fui culpado e julgado sem saber o que realmente tinha feito", declarou o ex-jogador, hoje parte do time de comentaristas da ESPN.
"Me culpava muito. Era muito jovem, 18 anos, aprendendo as coisas, em uma semifinal de Libertadores, jogando fora de casa, último minuto. Você está naquela ansiedade de fazer as coisas. Teve uma série de movimentos equivocados, que fizeram com que acontecesse aquele lance e é natural que sempre acabe sobrando para a última foto. E eu estava nela, infelizmente", continuou Fábio Santos.
Naquela noite em Manizales, Once Caldas e São Paulo empatavam em 1 a 1, gols marcados no primeiro tempo. Em uma época sem vantagem a quem fizesse gol fora de casa, a decisão para a final seria nos pênaltis. O relógio se aproximava dos 45 minutos da etapa final quando Cuca, então treinador tricolor, já pensava na ordem dos cobradores.
Dentro de campo, a defesa são-paulina estava mal posicionada. Fabão e Rodrigo, os zagueiros, saíram juntos para dar o bote em quem estava com a bola. Fábio Santos ficou, assim como Agudelo. Em posição aparentemente irregular em uma época pré-VAR, o atacante invadiu a área, cortou o lateral e anotou o gol que colocou o Once Caldas na final. O modesto time, mais à frente, venceria o Boca Juniors para ficar com o título.
"Óbvio que eu tive responsabilidade no lance, mas nem longe do que eu me culpava, sabe? Não acho que fui o responsável pela eliminação. Longe disso. E me senti, sim, naquele momento, desamparado. Não pelos jogadores, mas de repente de pessoas mais importantes dentro do clube, não sei se comissão técnica ou diretoria, que uma declaração pudesse ter amenizado um pouco minha situação. Isso me machucou durante muito tempo, mas hoje não me culpo. Queria ter visto esse lance um pouco antes, porque eu teria sofrido muito menos durante a minha carreira".
A carreira de Fábio Santos seguiu após aquele trauma. No ano seguinte, já como reserva de Júnior, o garoto teve a oportunidade de dar a volta por cima. Mais experiente, o São Paulo chegou à final da Libertadores e vencia o Athletico-PR por 3 a 0 no Morumbi lotado, apenas à espera do apito final para comemorar o inédito tricampeonato. Antes, porém, Fábio tinha que entrar em campo.
Para isso, deixou combinado com Júnior, dono da posição, que se a final estivesse resolvida nos minutos finais, ele pediria substituição. Acontece que outros garotos fizeram o mesmo trato com titulares (Josué, Amoroso, Luizão e Fabão, por exemplo). Fábio Santos, porém, arrumou um jeito.
"Todo mundo já tinha feito a sua combinação não só para participar do momento, mas também para ganhar a premiação, obviamente, que para a gente era um mar de dinheiro. E eu lembro que o tempo foi passando, o resultado foi se fazendo e só entravam só três jogadores. Acho que o Souza entrou primeiro, o Tardelli entrou depois e só ficou a gente atrás do gol, já ficando desesperado", lembrou o ex-lateral.
"A gente tinha um combinado com o massagista, que ele fazia um sinal e a gente já vinha correndo para ele não precisar ir até atrás do gol para a gente ganhar tempo. Quando eu vejo o Júnior pedindo a substituição, ele não precisou nem fazer o sinal. Na hora que o Paulo [Autuori] vai olhar para o lado, eu já estou do lado dele. Ele fala: 'Nossa, Fábio. Está querendo!'. Eu falei: 'Pô, dá a chance, vamos logo pelo amor de deus'. E esse momento pra mim é um dos mais marcantes por tudo o que eu tinha passado em 2004, a conquista de quem foi criado dentro do São Paulo. Poder participar daquilo ali para mim foi um sonho".
Essas e outras histórias daquela campanha, a primeira de um brasileiro três vezes campeão da América, estarão todas no documentário "Doutrinadores", disponível no Disney+.
