Vinicius Jr. é mais do que um simples brasileiro que atua na Europa. Graças a seus gols decisivos, dribles empolgantes e carisma indubitável, o atacante atingiu o patamar de estrela do Real Madrid, o que faz dele um forte concorrente aos futuros prêmios de melhor do mundo e referência do clube em todos os cantos do planeta.
Só que falar de Vini Jr. não é simplesmente se ater às quatro linhas. Enquanto enfileira adversários com sua habilidade, o brasileiro virou alvo prioritário de racistas, que, das arquibancadas dos estádios da Espanha, disparam ofensas e criam uma atmosfera completamente hostil a quem nada faz a não ser jogar (bem) futebol.
O assunto é seríssimo e mexe com os altos escalões de LaLiga, organizadora do Campeonato Espanhol, uma das competições mais bem sucedidas da Europa. Nos bastidores, é claro o desconforto ao citar o assunto, e existe um consenso: é preciso fazer algo (além do que tem sido feito) para que a pecha de "competição racista" não cole.
Como isso é possível? A ESPN conversou com fontes ligadas à liga espanhola e apurou como a situação de Vinicius Jr. tem sido debatida nos bastidores.
"O cara" de LaLiga
Se qualquer injúria racista choca, ou deveria chocar, ela aumenta de tamanho quando se fala de um jogador que é dos melhores da atualidade. E que a liga enxerga como "o cara" atual e do futuro.
"Vinicius é disparado uma das maiores estrelas. Hoje, Vinicius é a estrela do Real Madrid", afirma Daniel Alonso, delegado de LaLiga, em entrevista exclusiva à ESPN no evento Sports Summit São Paulo.
O atacante está em sua quinta temporada no time principal do Real Madrid. Chegou sob imensa expectativa, demorou para engrenar, mas, nos últimos dois anos, se tornou peça imprescindível no time de Carlo Ancelotti. São 44 gols e 33 assistências nos últimos 100 jogos pelo clube da capital, números que poucos atletas no mundo, não só em LaLiga, possuem.
"Benzema teve o grande ano da vida, vem demonstrando talento absurdo, mas o Vinicius é um menino de 22 anos que já está na conversa para a Bola de Ouro e ser melhor da Champions League. Hoje é a estrela do Real Madrid no mundo inteiro. A gente usa o Vinicius como o cara de LaLiga no mundo inteiro", completou o dirigente.
"Vinicius é um ativo importantíssimo que temos em LaLiga. Pode-se considerar que o crescimento dele aconteceu praticamente na Espanha e na seleção. Real Madrid é seguido por muitas pessoas, Vini é muito conhecido. Nos eventos internacionais, muita gente usa a camisa dele. Estamos orgulhosos de tê-lo", complementou Octavi Anoro, diretor internacional da competição.
Alvo dos racistas
Tamanho sucesso de Vinicius Jr. passou a incomodar alguns grupos e gerou tristes episódios de racismo - cada vez mais frequentes nos últimos meses.
Antes de um clássico com o Atlético de Madrid, na atual temporada, torcedores do clube fizeram ataques diretos ao brasileiro, inclusive com a figura de um boneco enforcado em um viaduto de Madri.
Depois, fanáticos pelo Mallorca entoaram gritos de "mono" (macaco em espanhol) a fim de desestabilizar Vinicius Jr. em uma partida contra o Real Madrid.
Tais atos, e a repetição deles, incomoda demais Vini e seu estafe. A ESPN publicou em dezembro que o atacante entende que há "complacência" de LaLiga, sem punições severas como suspensões ou exclusões dos envolvidos. Como se o Campeonato Espanhol tivesse se tornado um local para livre ação de racistas.
E é justamente esse o temor. Segundo diversas fontes ouvidas pela reportagem, os casos de racismo sofridos por Vinicius Jr. "não refletem a sociedade, o campeonato e os torcedores" de LaLiga, mas incomodam a ponto de a cúpula da competição pensar em maneiras de orientar os clubes e transmitir mais mensagens de luta contra esse mal.
Todas as denúncias que chegaram aos executivos de LaLiga, segundo apuração da ESPN, foram repassadas às autoridades responsáveis e com jurisdição para pensar em tipos de punição. A organizadora do Campeonato Espanhol não tem, como explica Daniel Alonso, poder para definir que tipo de pena um clube ou torcedor merece em situações assim.
"Obviamente [LaLiga] está muito preocupada com isso e vai até onde a gente pode. Não tem poder de punição aos clubes. O campeonato do Brasil e a CBF têm poder de punição, e aqui estão criando regras para punir os clubes em caso de racismo. Na Espanha não tem essa capacidade, cabe à Federação e às autoridades. O que a gente faz é denunciar cada caso e apresentar como acusação. Sem poder de punir, a gente fica na mão dessas autoridades", explica o delegado.
"A gente coloca nossa força, faz campanhas e vamos continuar lutando, como fazemos há muitos anos. Mas de fora talvez não se enxergue assim. Na lógica da notícia, é 'LaLiga não fez nada contra racismo'. Quando a liga faz, não tem tanta mídia como no outro caso, então a mensagem não chega. Mas está acontecendo", afirmou Alonso.
Passado e, especialmente, futuro
Casos de racismo não são novidades na liga espanhola. A imagem de Daniel Alves comendo uma banana arremessada por um torcedor durante a partida entre Villarreal e Barcelona, em 2014, sempre vem à mente ao abordar o assunto. Anos antes, em 2006, Samuel Eto'o quis até abandonar o gramado em um jogo do mesmo Barça contra o Zaragoza ao ouvir insultos pela cor de sua pele.
Os dois citados deixaram LaLiga, não necessariamente por causa das ofensas racistas. Mas o caso envolvendo Vinicius Jr. parece tão incontrolável que surge a pergunta: essa situação pode ameaçar o futuro do brasileiro no Real Madrid e na Espanha?
Falar disso agora soa precipitado, ainda mais pelo tanto que Vini Jr. está feliz no Santiago Bernabéu. Jogar no time espanhol era um sonho de criança do atacante, que despontou no Flamengo, e vê-lo com outra camisa hoje não parece uma realidade. Mas e no futuro?
"Risco do jogador sair sempre tem, independente do caso", explica Alonso, que, no entanto, lembra de dois nomes gigantescos que largaram o futebol espanhol e que nem por isso fizeram o campeonato perder relevância para o público.
"A gente tem em perspectiva a história do Cristiano e do Messi. Saíram como melhores do mundo e o nível de interesse por LaLiga não mudou. A gente fala: os clubes estão acima dos jogadores, mas a liga está acima dos clubes. Em todo esse caminho que trilhou, claramente as estrelas é que chamam o pessoal para assistir, mas o interesse pelo campeonato se mantém".
Em uma época com preços disparados de direitos de transmissão, LaLiga tem números que comprovam que seus jogos valem mais hoje do que nos áureos tempos de Cristiano Ronaldo x Lionel Messi. Com Vinicius Jr., é provável que o fenômeno até se repita. Mas o campeonato não parece disposto a abrir mão de um talento que expande sua marca para centenas de países por conta de uma minoria preconceituosa.
"É uma pessoa ou um grupo pequeno que faz isso [ofende com cunho racista]. O resto do estádio vaia esses caras, porque já se gerou esse ecossistema de que isso está errado. Se o resto da sociedade não apontar que não pode, já não funciona", explica Daniel Alonso.
"Na Espanha tem, em Portugal tem. É missão da gente lutar contra isso. O resto da sociedade já entendeu que não dá mais. Vão continuar acontecendo os casos? É provável que sim, mas a gente trabalha muito para que isso aconteça cada vez menos. Ou não aconteça".
Casos de racismo contra Vini Jr.
As ofensas e injúrias contra o principal jogador brasileiro da atualidade se tornaram cenas comuns na atual temporada. E tudo começou para valer em setembro, quando, antes de um clássico contra o Atlético de Madrid, as comemorações com dança de Vinicius Jr. foram exploradas como desrespeito.
Um comentarista de um programa de televisão na Espanha, por sinal, endossou o discurso de ódio, o que fez com que surgisse nas redes sociais o movimento "Baila, Vini", apoiado por brasileiros ao redor do mundo e outras estrelas do futebol mundial.
Vaiado e ofendido no clássico contra o Atleti, o camisa 20 voltou a ser alvo em 31 de dezembro, quando torcedores do Valladolid atacaram o brasileiro. Na época, Vinicius desabafou contra LaLiga e disse que a falta de punições aos racistas dava a entender que "a culpa era dele".
Novamente contra o Atlético, em 26 de janeiro, Vini foi alvo de uma cena grotesca: torcedores colchoneros penduraram um boneco enforcado em uma ponte na cidade de Madri. O fato chocou, mas só fez com que os clubes, LaLiga e a Federação Espanhola soltassem notas oficiais pedindo "sanções severas".
O atacante brasileiro voltou a ser alvo em 5 de fevereiro, contra o Mallorca, quando um torcedor o chamou de "mono" (macaco em espanhol). Esse caso terminou em identificação do criminoso, que foi impedido de frequentar estádios por um ano e multado em 4 mil euros (R$ 22 mil na época).
