Há um grupo especial de adolescentes que ficaram marcados na história da Premier League. Wayne Rooney vem à mente, logo após marcar pelo Everton contra o Arsenal aos 16 anos. Cesc Fabregas despontou aos 17. Cristiano Ronaldo e Michael Owen explodiram com 18.
Nesta temporada, o adolescente que mais aparece nas manchetes da Premier League é Estêvão, do Chelsea. O ponta brasileiro, que chegou ao clube por 29 milhões de libras (R$ 209 milhões), já anotou um golaço contra o Barcelona e vem se cimentando como a próxima grande promessa do futebol mundial.
Entretanto, se é Estêvão que está roubando a atenção das manchetes, o jogador de 18 anos que os diretores esportivos e agentes estão de olho na verdade está no Fulham: o meio-campista Josh King.
É sempre difícil jogar regularmente e se destacar como adolescente, mas, dentre eles, é King quem tem mais minutos na Premier League nesta temporada: 830.
“Garotos dessa idade não recebem esse tipo de oportunidade com tanta regularidade, a menos que sejam talentos incríveis”, disse um agente. “Vimos isso com Lewis Miley há algumas temporadas, depois com Kobbie Mainoo, mas ele era um pouco mais velho".
"Mais frequentemente, vemos jogadores jovens terem alguns minutos saindo do banco ou começarem as partidas pelas pontas longe do centro do time. Mas estar no meio do campo? Isso é especial”.
Analisando os minutos jogados por jogadores de 17 e 18 anos na última temporada, Ethan Nwaneri (17) e Myles Lewis-Skelly (18), do Arsenal, tiveram 889 e 1.370, respectivamente. A dupla do Tottenham, Lucas Bergvall (1.206) e Archie Gray (1.743), impressionou nas partidas pelo time principal, enquanto o meio-campista Tyler Dibling jogou 1.873 minutos pelo Southampton.
O zagueiro Dean Huijsen, do Bournemouth, foi o destaque da última temporada, jogando mais de 2.000 minutos e depois se transferindo para o Real Madrid no verão.
Nesta temporada, Nwaneri e Lewis-Skelly têm sido usados com mais moderação, Bergvall tem 414 minutos até o momento e Gray tem lutado contra uma lesão. O zagueiro Josh Acheampong tem progredido bem no Chelsea, mas é King quem mais tem impressionado.
Em 2018, aos 11 anos, King foi mascote infantil na partida do Fulham contra o Derby County e entrou em campo segurando a mão do capitão Tom Cairney. King já estava na base há três anos naquela época, e seus pais faziam viagens frequentes de sua casa em Wimbledon para deixá-lo no CT em Motspur Park.
No Fulham, achavam que, tecnicamente, ele estava pronto para o time principal aos 16 anos, mas deram-lhe tempo para se desenvolver, apontando o exemplo de Fábio Carvalho como prova de que a paciência compensa. Carvalho, agora no Brentford, fez 40 partidas pelo Fulham antes de se transferir para o Liverpool.
Em 22 de dezembro de 2024, King fez sua primeira partida como titular na Premier League pelo Fulham aos 17 anos, em um empate em 0 a 0 com o Southampton. O capitão? Cairney. King já treinava com o time principal há três ou quatro meses, trabalhando para melhorar sua força, mas também aprimorando sua tomada de decisões. Ele descobriu que a principal diferença entre os sub-21 e o nível sênior era a falta de tempo com a bola.
“É um grande salto”, disse ele. “O salto é a velocidade com que você é pressionado, a velocidade do jogo, a velocidade com que você tem que pensar, a decisão extra em frações de segundo que pode afetar o jogo entre um gol e uma assistência".
Ele jogou 127 minutos pelo time sênior na Premier League na última temporada e, quando a janela de transferências de verão se abriu, o Fulham ofereceu a King um novo contrato até 2029. Em sua primeira entrevista após a assinatura, perguntaram se ele esperava ter mais minutos na temporada 2025/26. Sua resposta: “Quero me desenvolver como jogador e como pessoa — essas oportunidades virão se eu continuar trabalhando duro".
Quando Andreas Pereira deixou claro que estava interessado em se transferir para o Palmeiras naquele verão, o Fulham avaliou suas opções. Em vez de contratar um novo camisa 10, eles se voltaram para King.
Avaliar quando um jogador está pronto para dar o salto não é uma ciência exata, mas, em geral, as equipes levam em consideração a habilidade, o temperamento, a personalidade e as características físicas. Também é preciso uma oportunidade do tamanho da que surgiu com a saída de Andreas. Em resumo, tudo se resume a boas decisões dentro e fora de campo.
Quando você conversa com pessoas que conhecem King, a primeira coisa que elas mencionam são seus pais. Michelle e Steve King conduziram maravilhosamente a carreira do filho, sem apressá-lo nem se deixar levar pela comparação com os colegas. Eles sabiam que ele se desenvolveria em um ritmo diferente dos companheiros de equipe. “Se você acha que está competindo quando criança, ou pior ainda, como pai, seu filho provavelmente não vai conseguir”, disse Steve King no podcast “Project Footballer”.
Aqueles que acompanharam King de perto apontam dois momentos em que sua maturidade brilhou nesta temporada. O primeiro foi a maneira como ele se recuperou de um erro contra o Brentford, em setembro. King recuou para receber a bola do goleiro, mas enviou seu passe diretamente para Mikkel Damsgaard, que abriu o placar. King baixou a cabeça, mas continuou jogando e fez duas ações positivas com seus dois toques seguintes.
Depois, houve a maneira como ele reagiu ao ter seu primeiro gol pelo Fulham anulado devido a uma decisão controversa do VAR. Após a partida, King quis enfrentar a imprensa, em vez de deixar que jogadores mais experientes falassem em seu nome.
O técnico do Fulham, Marco Silva, tem sido cuidadoso com seu tempo de jogo; King tem uma média de 61 minutos na Premier League nesta temporada, sendo titular à frente de Emile Smith-Rowe. O Fulham está impressionado com a rapidez com que ele aprende nos treinos e com a calma que demonstra com a bola.
Aqueles que o viram jogar todas as partidas desta temporada destacam como ele se adaptou a jogar contra jogadores fisicamente superiores. Ele consegue enganchá-los com a perna para chegar à bola, em vez de entrar em uma disputa. Vimos esse gancho em seu primeiro gol pelo Fulham contra o Wycombe, em outubro, quando ele marcou com um chute de calcanhar no ar.
“Gosto de assistir ao jogador mais bailarino de um clube com o qual já estive envolvido”, disse o diretor de desenvolvimento de futebol do Fulham, Huw Jennings, no podcast da BBC “More Than The Score”.
O segredo agora? Paciência e gestão cuidadosa. Haverá obstáculos pela frente, mas, neste momento, ele é uma exceção na Premier League, ditando o ritmo do jogo no meio-campo. Não é de se admirar que seus colegas da Hampton School costumavam compará-lo a Andrea Pirlo.
