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Funcionários do Manchester United relatam derrocada do clube com os Glazers e se animam com novo dono

Malcolm Glazer, um dos donos do Manchester United, com um nariz de palhaço Getty Images

"Meu dinheiro está investido aqui, e eu não vim para lucrar: eu só quero ganhar." Deixando claras suas intenções, Sir Jim Ratcliffe transformou o Manchester United ao dizer aos funcionários por que ele decidiu gastar R$ 6,9 bilhões em 25% das ações do clube.

Era início de janeiro, e Ratcliffe, ao lado de Sir Dave Brailsford (ex-diretor de desempenho do British Cycling e diretor de esportes do Grupo Ineos, de Ratcliffe), estava falando para mais de 100 funcionários da agremiação - incluindo as equipes de bilheteria, administração, segurança e cantina - em uma das amplas salas de conferência de Old Trafford. Outros se conectaram remotamente para assistir à visão do novo acionista minoritário sobre o futuro da instituição.

"Todos saíram da sala com a confiança no teto", confidenciou à ESPN um funcionário do United que assistiu ao discurso introdutório de Ratcliffe.

"Tudo o que ouvimos durante anos foi sobre cortes e metas de engajamento, portanto, ouvir alguém nos dizer que vamos voltar a ser um clube de futebol já era esperado há muito tempo e foi uma mudança revigorante. Também foi bom estar na mesma sala que o chefe. Isso nunca aconteceu com os Glazers”, acrescentou o mesmo funcionário.

Quem são Jim Ratcliffe e os Glazers?

A determinação de Ratcliffe em falar com a equipe dos bastidores do clube foi bem recebida por outro membro do dia a dia comum do United que estava na reunião. "Sir Jim disse que éramos tão importantes para o sucesso do clube quanto os jogadores", afirmou o trabalhador à reportagem. "Ele falou que a instituição não poderia avançar e ter sucesso sem que todos nós trabalhássemos juntos, como um só, já que todos nós fazíamos parte do mesmo time com o único objetivo de tornar tudo melhor."

O patrimônio líquido de Ratcliffe foi estimado em R$ 158,4 bilhões pela ‘lista dos ricos’ do Sunday Times, mais velho jornal britânico, de 2023 - ele é agora o segundo britânico mais rico, atrás do empresário nascido na Índia Gopichand Hinduja e sua família. Ele assumirá o comando das operações de futebol dos proprietários do United, a família Glazer, assim que seu investimento for ratificado pela Premier League ainda nesta primeira parte de fevereiro. Ratcliffe, de 71 anos, fez sua fortuna construindo a empresa de produtos petroquímicos Ineos e quer usar sua riqueza e experiência em negócios para ajudar a reviver o clube para o qual torceu desde garoto.

Muitos dos que trabalham no United mal podem esperar pela chegada dele. O clube esteve sob o controle dos Glazers, que também são proprietários do Tampa Bay Buccaneers, da NFL, desde maio de 2005. Desde então, a família mergulhou o United em uma dívida de mais de R$ 2,6 bilhões.

Mesmo antes de comprarem o United, os Glazers enfrentaram a hostilidade dos torcedores, que ficaram irritados com a perspectiva de que o time, antes livre de dívidas e incrivelmente bem-sucedido, fosse forçado a ficar profundamente endividado. Um veículo que transportava os Glazers foi atacado por torcedores na primeira visita deles a Old Trafford, e a raiva nunca diminuiu. Em 2010, os torcedores lançaram a campanha "verde e dourado" - verde e dourado eram as cores do Newton Heath, o clube que mais tarde mudou seu nome para Manchester United - como um protesto visível contra os Glazers, com o ex-jogador David Beckham colocando um cachecol verde e dourado em volta do pescoço ao retornar o Old Trafford com o Milan naquele ano.

Passe por qualquer poste ou prédio próximo ao estádio da equipe e você verá adesivos desbotados, datados de 2005, que dizem simplesmente: "Ame o United, Odeie os Glazers". A antipatia em relação aos donos foi exibida para uma audiência global em maio de 2021, quando os torcedores forçaram o adiamento de um jogo da Premier League contra o Liverpool em Old Trafford. Um protesto do lado de fora do estádio contra o envolvimento dos Glazers nos planos de formar uma Superliga Europeia separatista transbordou quando os torcedores forçaram a entrada no campo.

Por quase duas décadas, o maior e mais bem-sucedido clube da Premier League teve que pagar a dívida com os Glazers ao mesmo tempo em que pagava dividendos regulares à família. Nos últimos cinco anos, nenhum outro clube do Campeonato Inglês pagou tantos dividendos a seus proprietários. Em 2023, os Glazers optaram por não receber dividendos pela primeira vez para usar os fundos para novas contratações.

Em 2015, dez anos após a aquisição do clube pela família, o custo gerado pelos Glazers ao United ultrapassou R$ 5,3 bilhões em pagamentos de juros, financiamento e dividendos para os seis irmãos que ocupam cargos de diretoria no clube.

A ironia para os torcedores do United é que os Glazers são muito queridos em Tampa entre os torcedores dos Bucs. Uma fonte familiarizada com o regime Glazer no clube disse que a família "trouxe esperança" ao comprar a franquia em 1995, destituindo um proprietário impopular e investindo em um novo estádio e na equipe antes de construir um novo centro de treinamento. Em 2016, os Glazers iniciaram uma reforma em três fases do estádio Raymond James, incluindo novos placares gigantes, suítes e um vestiário maior, a fim de sediar o Super Bowl LV, em 2021, que os Bucs venceram em grande parte devido ao fato de os Glazers terem recrutado o lendário quarterback Tom Brady. Fora de campo, os Glazers - principalmente Darcie Glazer-Kassewitz - participam de comemorações e organizam eventos sociais e beneficentes, mas em Manchester, eles permaneceram (e isto segue assim) praticamente invisíveis por quase 20 anos.

Old trafford fazendo jus ao nome de ‘velho’

A vida sob o comando dos Glazers fez com que o United fosse ultrapassado, dentro e fora do campo, pelos rivais Liverpool e Manchester City, com o time e o estádio de Old Trafford precisando de melhorias e modernizações extensas e caras. O declínio da equipe também fala por si só, sem nenhum título da Premier League, ou mesmo uma boa campanha de verdade, desde 2013. Nesse período, o City ganhou seis títulos ingleses e uma Liga dos Campeões, enquanto o Liverpool ganhou a liga e a Champions League uma vez cada.

Tem mais. Mesmo tendo sido o maior e mais moderno estádio da Inglaterra no início dos anos 2000, o Old Trafford permaneceu intocado pelos Glazers desde que a obra para ampliar a capacidade do local, já iniciada antes da chegada dos donos em 2005, foi concluída, logo após a aquisição. Os adversários agora provocam os torcedores do time da casa cantando "Old Trafford está caindo aos pedaços" nas visitas ao United. O teto da arquibancada principal vaza quando chove, e o estádio foi excluído da lista de locais para a Eurocopa de 2028, que será sediada pelo Reino Unido e pela Irlanda.

Em abril de 2022, o United contratou a empresa de arquitetura de estádios Populous - que projetou o Estádio do Tottenham e o Estádio Lusail, do Qatar, sede da final da Copa do Mundo de 2022 - e os designers da Legends International para "criar um grande plano para a reforma de Old Trafford". Dois anos se passaram, e o projeto da Populous ainda não foi realizado.

O ex-capitão do United, Gary Neville, em abril de 2023, disse que a manutenção do Old Trafford pelos Glazers foi "vergonhosa".

"Eles supervisionaram uma decadência por 20 anos, no qual o Old Trafford deixou de ser um dos melhores do mundo para se tornar um estádio que não consegue nem entrar no top 10 do Reino Unido e da Irlanda", disse Neville à Sky Sports. "Esse é o ponto mais baixo de todos os tempos do clube. Não houve nenhum investimento. É um estádio enferrujado. Isso é um abandono do dever."

Desde 2016, o Liverpool gastou R$ 1 bilhão em duas novas arquibancadas em Anfield Road, sua casa, aumentando a capacidade em mais de 15 mil pessoas, enquanto o Manchester City inaugurou um novo centro de treinamento de R$ 1 bilhão em 2014 e está comprometido em investir mais de R$ 1,6 bilhão em seu estádio até 2026. Como parte do investimento de Ratcliffe, ele se comprometeu a investir R$ 1,3 bilhão na modernização de Old Trafford e do campo de treinamento do clube, que fica em Carrington e foi inaugurado em 2000.

"Sir Jim e sua equipe foram muito otimistas quando falaram conosco", disse outro membro da equipe à ESPN. "Sem dizer isso diretamente, eles estavam falando: 'Sabemos que a situação é uma m..., mas podemos melhorá-la se trabalharmos juntos'. Foi inspirador ouvir isso."

Ratcliffe já teve um começo ousado, uma vez que ‘invadiu’ o Manchester City e contratou o diretor de operações Omar Berrada para se tornar o novo CEO do United. Entretanto, desfazer quase 20 anos de comando dos Glazers levará tempo.

E embora haja otimismo dentro do clube e entre os torcedores de que Ratcliffe possa agir como catalisador de um renascimento no United, a realidade é que os problemas em Old Trafford são profundos. A reportagem conversou com 15 pessoas - membros da equipe de funcionários do United, antigos e atuais, de todas as áreas do clube - para obter uma visão mais clara da vida sob o comando dos Glazers. Suas identidades não foram reveladas aqui, a pedido delas. E o Manchester United não quis se manifestar para este conteúdo.

Ganhar não importa

É uma história de desperdício, ingenuidade, má administração, moral em baixa e, às vezes, coisas bizarras e ridículas. Uma narrativa que envolve funcionários sendo desviados de funções importantes para atender demandas dos Glazers e de sua família próxima, de jogadores sendo contratados ou rejeitados por causa de seu valor comercial e de Old Trafford sendo pintado com o tom errado de vermelho.

A opinião mais difundida sobre o Manchester United e os Glazers é que tudo começou a despencar quando Sir Alex Ferguson se aposentou, em 2013, após 27 anos como técnico do clube. Com a saída do CEO de longa data David Gill ao mesmo tempo, criou-se uma tempestade perfeita com David Moyes, então no Everton – indicado a dedo por Ferguson para ser o novo treinador e rotulado como o ‘escolhido’ pelos torcedores - e o banqueiro que se tornou diretor comercial Ed Woodward assumindo os cargos vagos de técnico e CEO, respectivamente.

Mas o declínio começou de fato no verão de 2009, quatro anos após o início da ‘era Glazer’, quando Cristiano Ronaldo foi autorizado a se juntar ao Real Madrid por uma taxa de transferência de R$ 426 milhões, um recorde mundial na época. Ao mesmo tempo, o United desistiu de um acordo para contratar Carlos Tevez, da Media Sports Investments (MSI, de passagem turbulenta, para se dizer o mínimo, no Brasil), a agência que representava o argentino, após um contrato de empréstimo de dois anos. Em vez disso, Tevez assinou com o Manchester City, ajudando a desencadear o crescimento do clube até se tornar a superpotência que é hoje.

O United substituiu Ronaldo e Tevez, duas figuras-chave na vitória do clube na Champions League de 2008, gastando R$ 127 milhões no verão com Antonio Valencia, Gabriel Obertan e Mame Biram Diouf, acrescentando Michael Owen, de 29 anos, em uma transferência gratuita do Newcastle. Em outras palavras: três fracassos e a adição do estável, embora não espetacular, Valencia. O City, por sua vez, gastou R$ 852 milhões de euros em seis jogadores no mesmo verão.

No ano seguinte, Ferguson acusou o City de “gastos kamikazes” depois que jogadores como David Silva, Yaya Touré e James Milner - todas contratações de enorme sucesso - chegaram ao Etihad em uma ‘gastança’ de R$ 666 milhões. Enquanto o City estava contratando jogadores que formariam a base da década de sucesso que eles viriam a ter, o United contratou quatro jogadores, incluindo o ponta Bebe, de Cabo Verde, e o atacante mexicano Javier ‘Chicharito’ Hernández, por um total de R$ 207 milhões.

Ferguson falou em buscar “custo-benefício no mercado” e insistiu que os Glazers "nunca recusaram quando pedi dinheiro", mas, mesmo assim, alguns funcionários sentiram que uma nova realidade financeira estava sendo imposta pelo alto escalão.

"O United não ganhou nada no ano seguinte à saída de Ronaldo e Tevez", disse um membro da equipe da época à ESPN. "Mas o que se dizia no clube era que os Glazers não estavam muito preocupados com isso porque, sem troféus, eles não precisavam pagar grandes bônus aos jogadores. Estar na Champions League era o que importava ao invés de realmente ganhá-la."

Wayne Rooney, o principal jogador do clube na época, ameaçou deixar o United em outubro de 2010, alegando preocupações com a ambição e a disposição do time em contratar os melhores jogadores. "Eu me encontrei com David Gill e ele não me deu nenhuma das garantias que eu estava procurando sobre o futuro do time", falou o atacante na época. "Então, eu disse a ele que não assinaria um novo contrato."

O clube persuadiu Rooney a ficar e assinar um novo contrato, mas o United só gastaria R$ 319 milhões no verão seguinte, com o goleiro David De Gea, o zagueiro Phil Jones e o útil jogador Ashley Young.

Novo comando, mesmos problemas

Quando o Ferguson se aposentou, em 2013, ele havia conquistado mais dois títulos da Premier League desde que as coisas começaram a mudar em 2009. Mas a economia do United, liderada por Glazer no mercado de transferências, coincidiu com a ascensão do City sob o comando do xeque Mansour bin Zayed al Nahyan, e talvez tenha sido apenas a experiência de Ferguson - e de Gill - que permitiu que o clube de vermelho se mantivesse competitivo. A contratação do artilheiro Robin van Persie por R$ 127 milhões, do Arsenal, no verão de 2012, foi um exemplo da capacidade do técnico de identificar talentos. O holandês marcou 26 gols em 38 jogos e inspirou a equipe a conquistar seu mais recente título inglês.

Quando Woodward assumiu o comando da administração cotidiana do clube, as coisas desandaram drasticamente. Seu caminho até o poder em uma das maiores instituições do futebol foi único: ele aconselhou os Glazers durante a aquisição do clube, em 2005, enquanto trabalhava para a J.P. Morgan & Co., instituição bancária, e eles então o contrataram para trabalhar com o planejamento financeiro do clube, elevando-o a uma função comercial em 2007 e, por fim, a CEO, uma recompensa dos Glazers por seu sucesso nessas duas funções anteriores.

"Ed se gabava de que os negócios que havia feito enquanto trabalhava na cidade [no setor bancário] eram muito maiores do que qualquer transferência de futebol", disse outro funcionário do United à reportagem. "Ele achava que os negócios esportivos seriam fáceis em comparação aos financeiros. Ele também dizia que falava com Joel Glazer até seis vezes por dia - ele era próximo de Joel, e você quase poderia considerá-lo como um sétimo Glazer -, mas se você precisa falar com seu chefe seis vezes por dia, isso não sugere que muita coisa esteja realmente sendo feita."

"Havia uma frustração com o fato de que as questões ou decisões importantes eram encaminhadas a Ed e Joel, mas dias ou semanas se passavam sem que nada fosse resolvido ou comunicado ao restante dos funcionários", disse outra fonte do United. "A busca por um novo diretor de futebol é um exemplo óbvio. Ela foi anunciada em 2019, e nada aconteceu durante dois anos."

Woodward deu aos membros do clube seu número de telefone celular, dizendo-lhes que seu estilo de comando seria diferente e que eles poderiam contatá-lo sempre que necessário. Um funcionário da equipe disse à ESPN que lhe enviou uma mensagem logo após essa conversa, mas que ainda está aguardando uma resposta. "David Gill conhecia todo mundo em Old Trafford e você o via com frequência na cantina dos funcionários", disse um integrante do corpo de funcionários. "Você nunca via Ed e ele certamente não conhecia todo mundo. Ele passava a maior parte do tempo no escritório em Londres."

Enquanto isso, as janelas de transferências passavam com o clube cometendo erros caros e com os Glazers e Woodward não conseguindo supervisionar uma estratégia de recrutamento coerente.

Haaland e bellingham no united?

"O José Mourinho queria contratar o Ivan Perisic, da Inter de Milão, em 2017, mas Ed lhe disse que, como jogador, ele não era comercialmente viável", afirmou um ex-atleta do United à reportagem. Woodward disse à ESPN que nenhuma contratação foi vetada por motivos comerciais: "Isso nunca foi levado em consideração".

"Depois daquela Copa do Mundo [a de 2018]", continuou o ex-jogador do United, "José [Mourinho] disse a Ed e aos Glazers que queria se livrar de Anthony Martial, que ele não era bom nem confiável o suficiente. Isso foi vetado pelos Glazers - Joel era um grande fã do jogador [enquanto atleta]."

Seis anos depois, Martial continua sendo jogador do United e marcou 39 gols na Premier League em 123 partidas. O jogador de 28 anos ficará sem contrato no próximo verão europeu (meio do ano), e fontes do United disseram que ele não receberá uma nova proposta do clube.

A falta de apoio à visão de um técnico continuou durante o período de três anos de Ole Gunnar Solskjaer no comando do time, quando o United não conseguiu fechar contratos com Erling Haaland, Jude Bellingham e Declan Rice antes que todos eles se tornassem estrelas jovens e de alto nível. "Ole queria reduzir a idade média do time, então identificou três jogadores novos e disse ao clube que deveria priorizar a contratação deles", disse à ESPN um ex-companheiro de equipe do norueguês. "O United não conseguiu contratar Haaland e Bellingham e nem mesmo fez um esforço para contratar Rice. Mas eles trouxeram o Donny van de Beek, apesar de ele nem sequer ser um jogador que Ole havia identificado como alvo."

O Borussia Dortmund venceu o United e contratou Haaland e Bellingham, sendo que os dois jogadores fizeram grandes transferências para o City e o Real Madrid, respectivamente. Rice juntou-se ao Arsenal por R$ 560 milhões no verão passado e tornou-se uma peça-chave na equipe de Mikel Arteta, que luta pelo título da Premier League. Van de Beek está agora emprestado ao Eintracht Frankfurt-ALE – ele, inclusive, já tinha passado seis meses emprestado ao Everton em 2022 - depois de dois gols em 62 jogos pelo United desde sua transferência de R$ 214 milhões do Ajax, em 2020.

Quando contatado pela ESPN, Woodward disse que o United não igualaria a garantia de "minutos" do Dortmund para Bellingham, enquanto Haaland, na visão do United, sempre foi destinado ao City.

Um jogador de alto nível que o United de fato contratou foi Paul Pogba, que se tornou a transferência mais cara do mundo em agosto de 2016, vindo da Juventus por R$ 478 milhões - ele havia trocado o United pela Juve como agente livre em 2012 e retornaria ao clube italiano como agente livre novamente em 2022. Apesar de sua enorme quantia e grande reputação, Pogba era outro jogador que era visto de forma diferente pelo técnico e por Woodward e os Glazers.

"Ole estava pronto para se livrar de Paul Pogba em sua primeira janela de verão", disse um dos ex-companheiros de equipe de Solskjaer à reportagem. Mas ele temia não receber nenhuma taxa de transferência para substituí-lo. Foi assim que funcionou."

Os representantes de Solskjaer não responderam aos pedidos de confirmação quando contatados pela ESPN.

No verão de 2021, o United consultou ex-jogadores empregados como lendas do clube para saber suas opiniões sobre recrutamento e quem deveria ser contratado. Um ex-jogador notável disse ao United que Kieran Trippier, um torcedor do United de infância, estava interessado em deixar o Atlético de Madrid e "desesperado" por uma mudança para Old Trafford.

"A sugestão de Trippier foi rejeitada de imediato, basicamente ridicularizada", disse o ex-jogador à reportagem. "Ele tinha apenas 31 anos e acabou indo para o Newcastle por R$ 64 milhões seis meses depois."

Uma semana depois de rejeitar a transferência de Trippier, o United fechou um acordo de R$ 64 milhões com a Juventus para que Cristiano Ronaldo retornasse a Old Trafford, 12 anos depois de sua saída de R$ 426 milhões para o Real Madrid. Apesar da necessidade de se tornar mais jovem e mais competitivo, mais dinheiro foi investido em estrelas mais velhas - incluindo um contrato de R$ 2 milhões por semana para Ronaldo, então com 36 anos. Poucos dias depois de voltar ao clube, ele reclamou que os azulejos quebrados na piscina do campo de treinamento do United em Carrington não haviam sido consertados desde sua primeira passagem pelo clube.

Os azulejos eram a metáfora perfeita para o clube que o United havia se tornado sob o comando dos Glazers - dinheiro esbanjado em extravagâncias enquanto todo o resto desmoronava.

O time de futebol é a face visível que o Manchester United projeta para o mundo e o que acontece em campo - seja bom, ruim ou indiferente - dita o clima em Old Trafford. Mas são as pessoas nos bastidores que compõem a força de trabalho do United e são elas quem sentiram, e ainda estão sentindo, o custo total de trabalhar para os Glazers.

Corte de gastos, montanha de desperdício

"Você não se importaria com alguns dos cortes de custos se não fosse pela absoluta montanha de desperdício na parte superior do clube", disse um funcionário do United à ESPN.

Um bom exemplo das prioridades dos Glazers é a recente modernização do camarote dos diretores em Old Trafford, com assentos aquecidos de pelúcia e carpete recém-colocado. Os Glazers raramente ocupam seus assentos em Old Trafford - Avram tem sido o frequentador mais assíduo dos jogos ao longo dos anos, mas suas visitas mais recentes foram para as finais da Copa da Liga Inglesa e da Copa da Inglaterra da última temporada, em Wembley. Enquanto isso, o telhado de Old Trafford está vazando.

O MUTV, canal interno do United, começou a ser transmitido em 1998. O MUTV estava à frente de seu tempo como o primeiro canal interno do futebol inglês e o United pôde transmitir para torcedores de todo o mundo por uma assinatura mensal. Nas contas anuais mais recentes do United, publicadas em outubro de 2023, foi relatado que o MUTV estava disponível em 72 países, sendo que a turnê do último verão nos Estados Unidos gerou um número recorde de assinaturas.

Mas a MUTV não envia mais seus comentaristas para os jogos fora de casa. Em vez disso, o comentarista de jogos Stewart Gardner e o co-comentarista Ben Thornley, ex-jogador do United, assistem aos jogos fora de casa na cabine de imprensa de Old Trafford e comentam de dentro de um estádio vazio enquanto assistem pela televisão.

"Isso faz com que a MUTV economize cerca de R$ 214 mil por ano em taxas de jogos e despesas de viagem", disse uma fonte do United à ESPN. "É realmente embaraçoso. A MUTV costumava ser a inveja de todos os grandes clubes, que levaram anos para alcançá-la, mas agora os homens do dinheiro estão pedindo à MUTV que assista aos jogos do United contra Liverpool, Arsenal e Everton de uma cabine de imprensa fria e escura em Old Trafford."

Uma outra fonte disse à reportagem que a equipe do campo de Old Trafford tem que pedir repetidamente fundos para novos equipamentos para manter a superfície de jogo, enquanto as solicitações de roupas do clube, usadas pelos dirigentes no dia do jogo, podem levar semanas para serem atendidas.

"Tem sido pior desde a pandemia", disse um funcionário do United. "Os Glazers usaram isso como uma desculpa para cortar custos, mas eles realmente limparam [espremeram as finanças] o clube desde então."

Em um dia de jogo, os funcionários do United do setor de entretenimento são os anfitriões nos lounges corporativos, onde os torcedores pagam entre R$ 1.257 e R$ 2.944 por jogo para serem recebidos. O ex-capitão Roy Keane certa vez criticou esses torcedores por "comerem sanduíches de camarão" em vez de apoiarem o time, mas sua contribuição financeira é um grande impulsionador da receita do clube.

"No início da última temporada, os anfitriões do dia do jogo foram informados de que suas taxas haviam sido reduzidas em 50%", disse um funcionário do United à ESPN. "O dinheiro que eles recebem agora, por 5, 6 horas de trabalho, não está nem perto do nível que deveria estar e esse valor é antes dos impostos."

"Alguns dos funcionários do dia do jogo também trabalham no Manchester City e dizem que a diferença entre os dois clubes é impressionante. O City cuida muito bem deles, todos no clube se esforçam para fazer algo extra. No United, a experiência é simplesmente miserável."

E, embora o corte de custos nesse nível do clube pareça improvável de ser uma questão que chegue à mesa dos Glazers nos Estados Unidos, a realidade é diferente.

"Houve uma ocasião em que o clube quis contratar novos faxineiros para trabalhar na arquibancada norte", disse uma fonte do United. "A decisão sobre isso foi diretamente para Joel Glazer. Isso mostra o problema do United. Os Glazers realmente contabilizam o custo de tudo. É justo, eles estão administrando um negócio, mas é muito ineficiente ter o copresidente envolvido em decisões de contratação e demissão de nível tão baixo."

Outras fontes do United falaram à ESPN sobre as "camadas e camadas" de burocracia e cadeias intermináveis de responsabilidade, resultando na espera de dias e semanas para que os Glazers tomem decisões.

"Tudo com que [os Glazers] se preocupam é o dinheiro e os números de engajamento nas mídias sociais", disse uma outra fonte à reportagem. "Você terá reuniões internas com a equipe tentando receber elogios por ter conseguido tantas curtidas nisso ou tantos engajamentos naquilo."

Nas contas do United do ano passado, é relatado que o "clube ganhou 2,7 milhões de seguidores e gerou mais de 318 milhões de interações digitais e 1,5 bilhão de visualizações de vídeos em todas as plataformas sociais globais no quarto trimestre". Mas esses números - em Google, X (antigo Twitter), Instagram, TikTok e YouTube - indicam por que os Glazers continuam tão interessados em manter um envolvimento com o clube em vez de vendê-lo completamente a Ratcliffe.

"A grande ideia, ou talvez a grande esperança, que os Glazers têm - e isso foi impulsionado por Ed Woodward - é o surgimento da realidade aumentada [RA]", disse uma fonte familiarizada com o modelo de negócios dos Glazers à ESPN. "A tecnologia já está disponível para que um jogador tenha um dispositivo de realidade aumentada no corpo e um torcedor em qualquer lugar do mundo possa pagar uma pequena taxa para assistir a um jogo pelos olhos de seu jogador favorito.”

“Imagine o quanto o United poderia gerar com sua enorme base de fãs global se os torcedores pudessem pagar para ser Marcus Rashford ou Bruno Fernandes por 90 minutos?"

Woodward confirmou à ESPN que a RA foi vista como uma "grande oportunidade".

Talvez os Glazers sejam inteligentes o suficiente para identificar a próxima grande oportunidade que poderia impulsioná-los para uma nova esfera de ganhos. Mas eles ainda dirigem um clube que desenvolveu o hábito de fazer coisas erradas.

O tom errado de vermelho

"Eles tentaram embelezar o Old Trafford com uma pintura há alguns anos", disse outra das pessoas ouvidas pela reportagem. "Mas eles estragaram tudo. Usaram o tom errado de vermelho. Quando Sir Alex estava no comando, ele sempre insistia que o United jogasse em um tom de vermelho mais escuro que o do Liverpool. A Nike, parceira de material esportivo na época, até agiu de acordo com isso, criando um tom específico para o kit do time chamado ‘Diablo Red’. A tinta que eles usaram em Old Trafford é o vermelho do Liverpool - é muito clara para o United."

Os Glazers não vão a lugar algum, mas com Ratcliffe e seus associados da Ineos assumindo o comando das operações de futebol, é provável que os proprietários majoritários do clube fiquem cada vez mais em segundo plano. Para muitos no United, eles não farão falta, especialmente os membros da equipe que tiveram de lidar com as necessidades da família Glazer durante as viagens de pré-temporada aos EUA com a equipe.

"Jill Glazer, esposa de Avram, está muito envolvida durante as turnês de verão nos EUA e as pessoas estão sempre nervosas quando ela está por perto", disse uma fonte do United à ESPN. "Você estará em um local e as crianças aparecerão e, de repente, você sentirá que está trabalhando para elas e não para o Manchester United.”

"Em uma ocasião", continuou a fonte, "alguém recebeu um telefonema às 3h da manhã em Nova York dizendo que uma das crianças queria alguns cupcakes, então esse membro da equipe teve que comprar alguns. Houve também uma ocasião em que alguém foi mandado buscar um determinado suco em uma determinada loja às 7h da manhã em Los Angeles."

A ESPN foi informada de que um membro sênior da equipe foi afastado de suas funções durante uma turnê de verão nos EUA para viajar um dia antes da equipe e visitar os hotéis usados pela família Glazer para garantir que todas as suas exigências, inclusive os detergentes usados para limpar os lençóis dos hotéis, fossem cumpridas à risca.

Outros funcionários disseram que Joel, em particular, parece ser agradável e querer que o United seja bem-sucedido.

Mas quase duas décadas de propriedade dos Glazer deixam a família sem fatores atenuantes para o declínio do United sob seu comando. Desde que Ferguson se aposentou, em 2013, o United ganhou quatro troféus - uma Copa da Inglaterra, uma Europa League e duas Copas da Liga Inglesa - e não conseguiu ir além das quartas de final da Liga dos Campeões.

"Um de nossos veteranos encontrou Richard Arnold há cerca de dez anos e disse a ele que o United era a referência que todos queriam alcançar", afirmou um funcionário do Manchester City à ESPN. "Ele disse que o City estava copiando tudo o que o United fazia.”

A resposta de Richard foi que o City “nunca poderia alcançar o United ou superá-lo. Ele era bastante arrogante, na verdade."

Arnold já se foi, Woodward saiu há dois anos e os Glazers estão prontos para passar o bastão para Ratcliffe. O United foi ultrapassado pelo City e as bases do clube não são mais tão sólidas quanto antes.

Mas Ratcliffe quer vencer e, só de dizer isso, ele deu a todos no United a esperança de que as coisas só podem melhorar.

*Tradução: Vinicius Garcia