Manchester City e Nottingham Forest se enfrentam nesta quarta-feira pela Premier League. A partida terá transmissão ao vivo e com exclusividade pelo Star+
“Até chegar o dinheiro dos árabes, o Manchester City não era nada. O Nottingham Forest está há anos na segunda divisão e é muito maior.”
Frases como essas são comuns nas redes sociais brasileiras, desde o Orkut até chegarmos ao Instagram e ao TikTok. Claro, isso também apareceu nas mídias “tradicionais”. Agora o Forest voltou à Premier League (já não era sem tempo) e a comparação volta a aparecer. Ainda mais nesta quarta-feira (31), quando as duas equipes se encontram pela primeira vez na primeira divisão inglesa desde um 1 a 1 em Manchester em dezembro de 1995. A partida terá transmissão ao vivo e com exclusividade pelo Star+.
A percepção de que o Nottingham Forest era incomparavelmente maior que o Manchester City pré-petrodólares se dá pelo fato de o City ter vivido uma má fase na década de 2000 (quando muitos brasileiros passaram a acompanhar futebol europeu), enquanto que o Forest, mesmo mal, ainda carregava a fama de um clube bicampeão da Copa dos Campeões. Mas um olhar mais cuidadoso acaba facilmente com alguns mitos.
Atualmente, é evidente que o Manchester City acumulou conquistas e projeção global muito maior. E é evidente também que isso é resultado direto do investimento do Abu Dhabi United Group, grupo de investimento ligado ao governo dos Emirados Árabes. Alguns torcedores, com bons motivos, podem considerar esse movimento “antinatural”, que distorceu a realidade do clube. Mas o que era o City antes disso? Era um clube pequeno?
Antes da chegada do dinheiro emiradense, o Manchester City tinha um título da Recopa (que valia mais* que a Copa da Uefa, atual Europa League), 2 Campeonatos Ingleses, 5 campanhas entre os três primeiros do Campeonato Inglês, 4 títulos da FA Cup, 2 títulos da Copa da Liga, 79 temporadas na primeira divisão, 24 temporadas na segunda divisão e uma temporada na terceira divisão. Repetindo: tudo isso SEM CONTAR o período de 2008 para cá, já com a “distorção” do investimento dos Emirados Árabes.
Convenhamos, fica evidente que não se trata de um clube pequeno. É um time que já tinha um título continental e oito nacionais. Além disso, tinha disputado 76% das temporadas da primeira divisão após sua fundação. Ou seja, era um clube tradicionalmente de primeira divisão, que de tempos em tempos beliscava um título.
Até 2008, o Nottingham Forest tinha dois títulos da Copa dos Campeões (atual Champions League), um Campeonato Inglês, 6 campanhas entre os três primeiros do Campeonato Inglês, 2 títulos da FA Cup, 4 títulos de Copa da Liga, 56 temporadas na primeira divisão, 45 temporadas na segunda divisão e 5 temporadas na terceira divisão. Lembrando: esses números consideram apenas o período antes do investimento bilionário no Manchester City, descartando mais 14 anos do Forest longe da elite.
O Forest tem uma óbvia vantagem no fato de ter duas Copas dos Campeões, algo que nem o City pós-petrodólares conseguiu. No entanto, o City já estava melhor nos títulos mais importantes no cenário nacional e era uma presença muito mais constante (23 anos de vantagem) na primeira divisão ao longo das décadas.
O que vale mais para medir tamanho ou tradição de um clube: dois títulos da Champions ou um título nacional e 23 temporadas a mais na primeira divisão? Aí é subjetivo, cada um terá seu critério.
É válido considerar que o Nottingham Forest era maior que o Manchester City pré-Emirados apenas na conta desses títulos europeus. Ainda assim, é um erro factual cravar que um clube era muito maior que o outro. Eram – e ainda são – dois clubes tradicionais no futebol inglês, que eram figuras comuns na primeira divisão e que, de tempos em tempos, brigavam por títulos.
Esse é o charme do jogo desta quarta. O Manchester City é um dos adversários que o Nottingham Forest tantas vezes enfrentou ao longo do século 20, e é bom rever esse confronto como um dos tantos que marcam esse retorno de um clube histórico à elite inglesa.
Isso vale muito mais que rivalidades de redes sociais que só querem cravar quem é maior que quem, sem conhecer ou respeitar a história do futebol.
*Os mais novos podem contestar isso, mas não é subjetivo que a Recopa valia mais que a Copa da Uefa. Era um fato. Não há debate sobre isso. A Recopa tinha final em jogo único, a Copa da Uefa não valia tanto esforço por parte da Uefa e era decidida em ida e volta. A Recopa que indicava o adversário do campeão da Copa dos Campeões na Supercopa Europeia. E se um clube tivesse vaga na Copa da Uefa e na Recopa, ele disputava a Recopa.
