O Nacional Potosí disputará a CONMEBOL Libertadores pela segunda vez em sua história, mas é como se fosse a primeira. Afinal, em 2023, o "Time do Povo" foi impossibilitado de atuar em casa, no estádio Víctor Agustín Ugarte, e precisou jogar como mandante em La Paz, a mais de 500 quilômetros de Potosí. Resultado? Derrotas para o El Nacional, do Equador, com 9 a 2 no placar agregado na 1ª fase prévia.
Agora, a equipe comandada por Leonardo Eguez poderá exercer o poder de sua casa logo diante do Botafogo, nesta quarta-feira, às 21h30 (de Brasília), com transmissão ao vivo da ESPN e do Disney+ Premium. E com um fator importante a seu favor: a altitude.
Se La Paz está a 3.700m acima do nível do mar, Potosí fica a 4.200m. O estádio Víctor Agustín Ugarte deverá receber 30 mil pessoas para esta estreia na principal competição de clubes da América do Sul, e o treinador do Nacional não esconde: quer fazer o Botafogo "sentir" o peso da altitude.
"Eu respeito muito o Botafogo, sei o grande treinador (Martín Anselmi) que tem, a envergadura, a carreira que tem a nível mundial, os jogadores que tem a nível mundial. Mas isso é futebol. O jogo não dura só 90 minutos, nós sabemos que é um jogo de 180 minutos, como se diz, onde graças a Deus nós vamos começar em casa, e nós em casa, desde que estou à frente da comissão técnica em setembro, eu consegui buscar uma identidade de que minha equipe se faça forte aqui. Por que? Porque temos um aliado que sim, é a altitude, mas a altitude você deve fazer senti-la", disse Leonardo Eguez em entrevista à ESPN na semana anterior ao jogo de ida.
"E como sentir a altitude? Sendo um time intenso, um time agressivo, um time compacto, um time que jogue rápido com a bola, que ponha a bola no chão, que faça muita pressão, que provoque o erro do rival, que não dê tempo ao rival para que recupere o ar e sinta de verdade os verdadeiros efeitos dentro de campo. Agora isso me custou um tempo e graças a Deus, dos últimos três meses do ano passado até agora, pudemos conseguir nos fazer fortes como mandante e sempre pudemos ganhar em casa, que para mim é muito importante. Como sempre digo, tem que se fazer respeitar em casa, e acredito que nós nesta quarta-feira temos essa necessidade, essa missão, e vamos buscar que se respeite a casa conseguindo uma vitória".
O treinador do Nacional Potosí tem muita clara sua ideia para a primeira partida: a imposição. Os times bolivianos de altitude buscam uma boa vantagem antes de atuarem mais próximos ao nível do mar. Leonardo Eguez admite a força atuando como mandante "nas nuvens", mas também afirma que o elenco sente quando precisa descer. "É parte do folclore do futebol", definiu.
"Acho que tem um slogan: se joga onde se nasce. E este clube nasceu em Potosí e tem que jogar aqui, não podemos privar isso. Agora, se a altitude existe, é uma realidade. Como contra-atacar a altitude? Com um trabalho tático, físico, com jogadores muito bem preparados, com certos detalhes que cada clube administra, mas que se pode jogar na altitude, se pode", começou.
"Agora nós, como equipe de altitude, também sentimos quando baixamos para o plano, com o calor. Aqui na liga local nós jogamos a 4.200m, que é onde estamos em Potosí, e 72 horas depois temos que ir jogar a 40 graus na cidade de Santa Cruz de la Sierra às 3 da tarde. Meus jogadores sentem. Então como eu preparo? E aí entra os fatores plano de jogo, estratégia, sistema tático, também entra a parte logística, a parte operativa para ir vendo os detalhes".
"Não há uma ciência exata como jogar no plano quando você é de altitude, nem como jogar na altitude quando você é do plano. Mas acredito que isso não pode reinar ou não pode ser o fator principal deste lindo esporte. Porque assim como se joga na altitude, também se chega a jogar a -15 graus na Rússia. Em outros países você também joga no calor extremo, e creio que é parte do folclore, é parte deste esporte, e acredito que enquanto você tente jogar futebol, devemos tratar de dar espetáculo como a América do Sul e a Conmebol merecem", continuou.
Algo que pode complicar a situação do Nacional Potosí nesta segunda fase prévia da Libertadores é a falta de ritmo de jogo. Enquanto o Botafogo já atuou dez vezes na temporada, o clube boliviano ainda não jogou oficialmente. Foram três amistosos e um jogo-treino contra o time B, e o técnico reconhece a dificuldade. Mas ele conta o segredo para minimizar tal disparidade...
"Sabemos que eles saem em vantagem pelo peso e pelo elenco, o que é óbvio pelas condições econômicas dos países que temos. Mas eu fiz uma coisa muito interessante e importante: quando eu renovei contrato com o clube, pedi para que renovassem com 80, 85% do elenco. Então me facilitou com relação a minha ideia de jogo, minha metodologia de trabalho como técnico, o elenco já me conhece, e os jogadores que chegaram já tinham trabalhado comigo por outros clubes, então isso me adapta e me facilita", contou.
"Agora, sim, no tema do ritmo futebolístico estamos tratando de nos equiparar, não vamos chegar a 100% nesta área específica, mas estamos trabalhando na parte mental, futebolística, física, técnica e tática para jogar chegar e suprir de outra forma essa deficiência que temos, que é notória e é algo que não se pode tirar de contexto. É uma realidade, mas tampouco não é uma desculpa. Não serve de parâmetro. Estamos buscando alternativas, mas essas são as condições que o futebol boliviano nos oferece agora".
O Nacional Potosí sonha alto para esta segunda participação na Libertadores após a conquista do título da Copa Bolívia ganhando simplesmente de The Strongest na semifinal e do Bolívar na decisão. Afinal, ninguém quer ser lembrado apenas como "time de CONMEBOL Sul-Americana".
"Sempre fomos conhecidos por ser um time que sempre conseguia a Copa Sul-Americana. Foram nove anos seguidos disputando a competição, e conseguimos surpreender ganhando de Bolíviar e The Strongest, equipes tradicionais na Bolívia, e mostramos que quando há fé, convicção e compromisso, você pode conseguir coisas", falou Leonardo Eguez.
Nós temos o objetivo de ir passo a passo, em silêncio, como trabalhadores. Mas nosso objetivo é no mínimo colocar o Nacional Potosí na fase de grupos. Sabemos que para chegar ali primeiro tem o Botafogo pela frente. Temos que fazer história. Por que digo fazer história? Porque é um dos maiores da América do Sul que está jogando a competição. Depois, ver o que acontece na próxima fase, a equipe que vier. Mas nós temos como plano traçado escalar esses dois passos para poder nos meter na fase de grupos e fazer história como clube e como futebol boliviano".
"Eu sou da nova geração de treinadores, sou jovem, tenho 35 anos, devo ser o mais jovem ou um dos mais jovens no futebol boliviano, e também um dos mais jovens a sair campeão. Mas eu tenho outro pensamento, e meu pensamento é de mostrar a nova versão do futebol boliviano, de que na Bolívia também se joga futebol, de que a Bolívia não é só altitude, de que na Bolívia há grandes jogadores e que temos grandes treinadores que podemos aspirar sair além de nossa noção para poder mostrar que há capacidade dentro do futebol boliviano", promete o treinador do Nacional Potosí.
