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Por que Mbappé precisou superar até desconfiança de Xabi Alonso para assumir a 10 do Real Madrid

O Real Madrid iniciou a atual temporada com um novo camisa 10 após sete anos: Kylian Mbappé. E a mudança parece render frutos, já que o astro francês soma três gols nos primeiros dois jogos de LALIGA.

A mudança, apesar de frutífera e profundamente midiática, ainda assim encontrou resistência interna no Real Madrid de uma das figuras mais importantes para a nova fase do clube.

Quando Mbappé abordou o Real Madrid em julho para dizer que queria herdar a camisa imortalizada por Luka Modric, tanto o presidente do clube, Florentino Pérez, quanto a Adidas ficaram com água na boca. Era uma oportunidade de ouro para o marketing e as vendas. Os cifrões brilhavam. Mas a reação de Xabi Alonso foi um pouco diferente, um pouco mais sutil.

Ele disse ao seu astro, com quem está construindo uma nova e promissora relação, que o número da camisa trazia responsabilidades — não apenas romantismo e comercialismo. Alonso alertou Mbappé que Modric havia usado a camisa com dignidade nos últimos sete anos, em uma espécie de desafio ao craque francês.

A resposta de Mbappé ao desafio tem sido impecável. Em campo, seu terceiro gol em duas partidas de LALIGA — dois gols na vitória por 3 a 0 sobre o Oviedo no domingo (24) — é algo normal para o jogador de 26 anos que, com 44 tentos na última temporada, se estabeleceu como o estreante mais artilheiro na história do Real Madrid.

Comercialmente, as coisas também decolaram exatamente como a Adidas e o presidente Pérez esperavam. Fermín de la Calle, renomado jornalista do diario Sport, relatou (citando a Euromericas Sport Marketing) que 345 mil camisas com o número 10 de Mbappé foram vendidas imediatamente, gerando milhões para a Adidas.

Mas apenas gols ou números de vendas não cumprem por completo o desafio de Xabi Alonso a Mbappé. É necessário explicar que o técnico espanhol frisou que a "dignidade" de Modric com a camisa 10 não vinha só do nível de seu futebol, mas também do seu comprometimento em campo. E aí está a chave da questão.

Mbappé sempre foi sinônimo de gols. Entretanto, os treinadores anteriores, principalmente Luis Enrique no Paris Saint-Germain, tentaram adicionar os elementos finais ao seu repertório: a pressão, a defesa, o esforço — o trabalho braçal que muitos craques desprezam.

E, mesmo que com algumas reservas, ainda é possível dizer que vimos certo avanço nessas categorias no craque francês.

No domingo, em Oviedo, não assistimos de repente a uma atuação insana de Mbappé, em que ele suou a camisa perseguindo e pressionando todos os jogadores da equipe da casa, entrando com tudo nas dividida.

Mas alguns sinais positivos surgiram. Como disse Xabi Alonso, seja por ambição pessoal ou pelo impacto e importância de assumir o número de Modric, foi interessante ver no domingo alguns aspectos adicionais do seu desempenho. Por exemplo, ele recuou em uma situação defensiva de escanteio, fez uma brilhante interceptação e lançou um contra-ataque perigoso.

Mbappé, que já foi alvo de rumores de más-relações com seus colegas de equipe, também comemorou efusivamente a assitência de Vinicius Jr. com seu companheiro, o que não deixa de demonstrar alguma gratidão.

Além disso, quando as câmeras não estavam focadas nele no intervalo, Mbappé deliberadamente saiu do seu caminho para encontrar um jovem torcedor rival e entregou-lhe a tão cobiçada camisa nº 10.

Foi a primeira vez que ele a vestiu fora de casa por Los Blancos e ele não procurou um jovem madridista, nem as câmeras, mas apenas uma criança torcedora do Oviedo e entregou uma lembrança que ele jamais esquecerá.

Outro gesto simpático, no final, foi quando Antonio Rudiger se recusou a trocar de camisa com Kwasi Sibo, jogador da seleção de Gana, e disse a ele: “Terei prazer em lhe dar minha camisa em nosso jogo em casa, se você vier ao Bernabéu”.

Mbappé, ao ver isso, mesmo já tendo trocado de roupa após ser substituído, encontrou sua camisa descartada do segundo tempo e a deu ao meio-campista do Oviedo.

Esses são simplesmente gestos simpáticos, não necessariamente coisas de campeões. Mas, mesmo assim, são mais evidências de como Mbappé é como pessoa.

“Dá para ver que Kylian está em boa forma, dá para ver que ele está envolvido no que estamos tentando fazer, seu comportamento e seu desejo de se destacar são contagiosos para o resto da equipe”, disse Alonso após a segunda vitória do Real Madrid inspirada por Mbappé. “Pessoalmente, adoro quando o vejo fazer aquelas corridas defensivas, quando ele muda um pouco de posição e nos ajuda a defender desde a frente”.

"Porque sabemos que ele vai marcar gols, mas quando ele acompanha e nos ajuda a ter essas distâncias em que estamos todos muito mais próximos uns dos outros, então trabalhamos melhor com e sem a bola".

Agora, a competição no ataque está bastante acirrada. Nomes como o próprio Vinicius Jr., além de Rodrygo, titular apenas pela segunda vez sob Alonso, Franco Mastuantono, o jovem queridinho do técnico, e Gonzalo García, destaque do Mundial de Clubes, transformam a tarefa de decidir a escalação final do Real Madrid um verdadeiro desafio.

Mas, se Mbappé continuar no caminho do jogador dedicado e completo que veste a camisa 10, pode ser que ele tenha a vaga ainda mais garantida do que quando era o camisa 9 goleador na última temporada.


(*Tradução e adaptação: Vinicius Garcia)