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De 'carrasco' de Fàbregas a 'Rei do Acesso': a trajetória de Paulo Azzi, o brasileiro que molda sua história no Calcio

O futebol italiano é conhecido por sua rigidez tática, defesas intransponíveis e uma paixão que beira a religiosa. Para muitos jogadores brasileiros, a adaptação ao "Calcio" é um desafio hercúleo. Para Paulo Azzi, no entanto, o processo foi um reencontro com as próprias raízes.

Hoje no Monza, da 2ª Divisão Italiana, o ala brasileiro carrega um currículo invejável nas divisões de acesso da Itália, acumulando promoções e experiências sob o comando de lendas como Claudio Ranieri.

Em entrevista exclusiva à ESPN, Azzi relembra sua saída precoce do Paulista de Jundiaí, o choque com o inverno europeu e como "frustrou" a estreia de Cesc Fàbregas em uma noite de vento em Cagliari.

A conexão de sangue e o choque do inverno

Azzi não chegou à Itália apenas como mais um estrangeiro em busca de espaço. A ligação era familiar. Sua avó materna migrou para o Brasil aos 20 anos, trazendo consigo o dialeto e a cultura da mesa farta. Já a cidadania veio através do bisavô paterno, Dario Azzi.

"Fui acostumado a crescer com a cultura italiana, das massas, do dialeto. Isso facilitou minha vinda, mas o impacto inicial foi o clima. Cheguei em novembro de 2013 para um teste no Cittadella e o inverno estava rigoroso", revela.

Se o frio assustou, a tática o moldou. Revelado como camisa 9 no Paulista de Jundiaí sob o comando de Ricardo Silva, Azzi precisou se reinventar na Itália. Hoje, atuando em funções mais defensivas, ele admite que o instinto de artilheiro ainda fala alto.

"Quando sobra uma bolinha lá na frente, eu consigo fazer uns gols. Minha característica principal ainda é a fase ofensiva."

O carrasco de Fàbregas e o vento de Cagliari

Um dos momentos mais cinematográficos da carreira de Azzi aconteceu em janeiro de 2023. Recém-chegado ao Cagliari, ele foi lançado por Claudio Ranieri para enfrentar o Como, que tinha o campeão mundial Cesc Fàbregas em campo.

Azzi não apenas estreou, como marcou o gol da vitória por 2 a 0, contando com uma ajuda inusitada.

  • O Lance: Um cruzamento que, influenciado pelo forte vento da ilha, terminou direto no fundo das redes;

  • O Duelo: "Joguei contra o Fàbregas ainda como jogador. Tenho muito respeito pela carreira que ele fez, e hoje vejo a ascensão dele como treinador no Como. Ele deu uma identidade ao clube que é muito legal de se ver."

A mentalidade do "Rei do Acesso"

Aos 31 anos, Paulo Azzi é visto como um verdadeiro amuleto nos vestiários italianos. Com um currículo que soma subidas de divisão por Modena, Cremonese e Cagliari, ele agora busca consolidar esse DNA vencedor no Monza.

Mas, afinal, qual o segredo para ser o denominador comum em tantos projetos de sucesso? Para o brasileiro, a resposta está no invisível.

"Eu sou uma pessoa muito positiva. Acredito que jogar para vencer gera um sentimento, uma adrenalina e um estímulo muito grande. O que eu tento levar para os meus companheiros é o 'acreditar'. Muitas vezes, o segredo está em convencer o grupo de que o objetivo é possível porque você já viveu aquilo", explica Azzi.

Para o ala, o acesso não se conquista apenas com tática, mas com a blindagem do ambiente:

  • Liderança pelo exemplo: "A experiência faz a gente entender que a formação do grupo é fundamental. Times que sobem são grupos unidos, onde todos acreditam no objetivo final."

  • Agressividade técnica: "Dentro de campo, tento traduzir essa positividade em agressividade ofensiva. É buscar o resultado o tempo todo."

  • O fator Monza: "Encontrei aqui um clube com uma estrutura incrível e uma mentalidade de quem quer chegar em um lugar melhor. Estamos no caminho certo."

"A Serie B é um jogo mais físico, o 'campeonato dos italianos'. A Serie A tem uma organização tática mais fina; se você deixa espaço para jogadores de qualidade técnica elevada, você é punido. Meu objetivo no Monza é me estabelecer de vez na elite e aproveitar essa fase final da carreira com essa mentalidade vencedora", projeta.