A jornada de Abel Braga no comando do Internacional ganhou capítulos emblemáticos. Contratado apenas para os dois últimos jogos do Brasileirão, cumpriu a missão de salvar o Colorado do rebaixamento e agora descarta seguir com a carreira de treinador.
Abel foi só sorrisos na entrevista coletiva no Beira-Rio após uma vitória que levou alívio à torcida do time gaúcho. Ainda no gramado, enquanto sentia o carinho dos torcedores, já havia sinalizado que a história termina mesmo assim, de uma forma bonita e única — algo reafirmado pelo próprio na sala de imprensa.
"Não esperava mais entrevista de imprensa como treinador. Essa carreira ficou encerrada em 2022. Muita coisa que eu assisti e escutei me marcou muito. Não sei te explicar, minha própria esposa falou que eu estava tomando uma atitude maluca. Teve muitas vertentes, uma delas era mostrar para as pessoas que nunca estive brigado com ninguém. Saí em 2021 com o dever cumprido, sabendo que me tiraram um título no apito. Não sei o que me deu, porque vim extremamente confiante. Isso foi a coisa que eu mais usei. Se eu vim confiante, é porque acreditava no time. Se vim com a certeza que faria algo para ajudar, é pelo primeiro tempo que vi contra o Santos. Uma entrevista de uma pessoa, que tem uma adoração por mim, que é a Renata Fan, uma das maiores coloradas que já vi, e ela ali na dor... Eu pensei assim: quantos colorados iguais existem?", disse o treinador, que prosseguiu esbanjando alegria e revelando como será a comemoração:
"Não posso dizer não e puxar só para mim, porque não fiz nada sozinho. Fica um legado não do Abel, mas de que não podemos nem pensar ou admitir que o Internacional voltará a viver um momento como esse. Foi muito mais importante que o Mundial. Inter não era favorito de nada no Mundial, se fôssemos vice-campeões íamos ficar contentes. Mas hoje eu sei a dor, o que o colorado estava sentindo. Via pessoas ao meu redor tendo família ameaçada, e isso me dava mais condição de querer buscar uma superação. A vida vai seguir, vou ver o que vai se desenrolar. Não adianta ficar perguntando o que vai acontecer, nem eu sei. Hoje vou tomar um vinho caro, não abdico da minha carna gaúcha. Não sou pão duro, não, mas hoje vou gastar".
Aposentado como técnico desde 2022, o ex-zagueiro recebeu convite do Inter assim que o argentino Ramón Díaz foi demitido, após levar 5 a 1 do Vasco, em São Januário. Na estreia, levou 3 a 0 do São Paulo e foi para a última rodada ameaçado de ser rebaixado.
O Inter estava em 18º lugar, mas agora termina em 16º, com 44 pontos, um acima de Ceará e Fortaleza, rebaixados ao lado de Juventude e Sport.
"Claro que vai ter conversa. Treinador acabou, acabou. Não faz mais parte de mim. Foi emocionante estar vivendo aquilo tudo, com o departamento de scout, que faz aqueles vídeos, conversa. Viver isso de novo foi fantástico, mas para mim deu. Tomei dois calmantes hoje antes de vir para o jogo. Eu acreditava e confiava, mas tinha que me prevenir se não conseguisse. Ia sentir a mesma dor que o torcedor tem. Foi incrível viver isso novamente, mas desse lado deu. Conheço o Inter desde 1988, de fora para dentro, de dentro para fora. Vamos ver. Isso não pode acontecer mais, de chegar onde chegou porque é um campeonato traiçoeiro. É sempre na 30ª rodada os que estão caindo começam a jogar. Você não sabe de onde tiraram bola, porque vinham sendo horríveis. Tem um ou dois que não conseguem sair de onde estavam, agora o resto... É surreal. Não se pode aceitar uma derrota com naturalidade lá atrás, porque vai pagar na frente. O preço foi alto, mas saímos gratificados", concluiu.
