Zé Elias esteve presente no famoso Juventus 1 x 0 Inter de Milão, em abril de 1998, que ficou conhecido como "o maior roubo da história" do Campeonato Italiano
Neste domingo, Inter de Milão e Juventus fazem clássico decisivo para ver quem segue na briga pelo título do Campeonato Italiano. A partida será às 15h45 (de Brasília), com transmissão gratuita pela ESPN no Star+.
Um dos jogos mais lembrados de todos os tempos entre os rivais do norte da Itália aconteceu em abril de 1998, quando as duas equipes possuiam verdadeiros esquadrões e disputaram uma partida decisiva pelo Scudetto. O duelo acabaria marcado por uma decisão muito polêmica da arbitragem e ficou para sempre sendo conhecido como "o maior roubo da história".
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Na ocasião, a Juve, que liderava a Serie A, recebeu a Inter, 2ª colocada com um ponto a menos, no Delle Alpi. A "Velha Senhora" tinha um timaço, com Deschamps, Davids, Zidane, Di Livio, Del Piero e Pippo Inzaghi, mas os nerazzurri também possuíam um grande elenco, com destaque para Ronaldo "Fenômeno", que havia sido eleito melhor do mundo pela Fifa em 1997.
A equipe bianconera vencia o jogo por 1 a 0, graças a um gol de Del Piero aos 21 do 1º tempo, quando aos 24 da etapa complementar, veio o lance capital que é discutido até hoje na Itália.
Após um balão para frente, o lateral-direito Torricelli afastou mal e entregou para Zamorano. O chileno invadiu a área, mas foi desarmado por Birindelli. A bola acabou sobrando para Ronaldo, mas o brasileiro sofreu um forte tranco de Iuliano e caiu na área.
Imediatamente, todos os jogadores da Inter clamaram por pênalti, mas o árbitro Piero Ceccarini não marcou.
Ironicamente, logo na sequência do lance, a Juventus arrancou para o atacante, Zidane lançou Del Piero e o italiano tomou um encontrão do zagueiro Taribo West. Desta vez, Ceccarini não teve dúvidas: apontou para a marca da cal e deu pênalti para o clube de Turim.
Imediatamente, o juiz foi cercado pelos atletas interistas, que ficaram revoltados com as decisões da arbitragem. O técnico nerazzurro, Luigi Simone, chegou até a invadir o campo para cobrar o homem do apito e acabou expulso. Uma grande confusão foi formada no gramado do Delle Alpi.
Mas não teve choro, nem vela... Como não existia VAR na época, a marcação de Ceccarini ficou confirmada, e os lances entraram para a história.
O goleiro Pagliuca, da Inter, ainda defendeu a cobrança de Del Piero, mas a Inter já estava destroçada psicologicamente e não conseguiu mais reagir. Com isso, a Juventus venceu o dérbi por 1 a 0 e embalou para a conquista do título, que viria alguns dias depois.
No dia seguinte, a Gazzetta dello Sport, principal jornal esportivo da Itália, estampou apenas uma palavra em sua capa: "Vergonha".
O clássico ainda repercutiu muito nos dias seguintes, sendo apelidado como "maior roubo da história". As discussões foram até mesmo ao Parlamento da Itália, em Roma, com políticos torcedores de Inter e Juve brigando feio we trocando sopapos por causa da polêmica partida.
'Isso não foi um fato isolado'
Presente em campo naquele dia, o ex-volante Zé Elias tem memórias amargas do clássico Juventus x Inter de abril de 1998.
Hoje comentarista dos canais esportivos do grupo Disney, o ex-jogador da Inter e da seleção brasileira rememorou os sentimentos do pré-jogo contra a "Velha Senhora" e lembrou que os nerazzurri vinham embalados para conquistar o Scudetto.
"(1997/98) Foi uma temporada de conhecimento do elenco, porque ninguém conhecia ninguém. O time havia sido montado e nós estávamos nos conhecendo dentro do que era possível fazer na maratona de jogos. Nosso técnico conseguiu colocar a ideia dele em prática e todos no grupo compraram. Foi muito legal, porque cada um sabia das suas funções em campo e quem podia decidir", contou.
"Nosso time jogava para o Ronaldo. Não tinha muito segredo. Era um bom time no geral, mas, quando você tem um cara como ele, e na fase que ele estava, você automaticamente joga para ele", argumentou.
"A gente sabia que, se alguém ganhasse aquele Juventus x Inter, dificilmente perderia o título depois. O ambiente na Inter era o melhor possível, pois estávamos na briga pelo Scudetto e também pelo título da Copa da Uefa, que depois seríamos campeões. O grupo tinha vários caras experientes, com rodagem em Copa do Mundo e em grandes clássicos da Europa", elogiou.
"Nossa vontade era vencer a Juventus na casa deles, porque, se a gente ganhasse, certamente seríamos campeões. Quando você está bem, o ambiente de carrega sozinho", complementou.
Naquele dia, Zé Elias começou no banco e entrou na 2ª etapa para ajudar a Inter a ganhar o meio-campo. No entanto, não teve uma jornada feliz.
"Eu comecei na reserva e entrei no 2º tempo, mas fui expulso. Fui disputar uma bola no alto com o Deschamps, ele pulou depois de mim e, quando eu estava no ar, usou a experiência... Disse que eu deixei o cotovelo e se jogou no chão. Foi mentira, não fiz isso. Se tivesse feito, eu falaria. Mas o árbitro caiu na dele e me expulsou", reclamou o ex-Corinthians.
Esse, porém, foi o erro menos grave do juiz Piero Ceccarini, na visão de Zé.
"A partida estava muito disputada, era um jogo muito físico. Não era um clássico bonito, mas era de bom nível. A Juve tinha um p*** time, com Davids, Zidane, Del Piero, e a gente também tinha uma equipe muito boa. Infelizmente, o árbitro estragou tudo", reclamou.
"Foi nítido que foi pênalti! E a pior coisa de tudo isso foi o Ceccarini, depois de tantos anos, nunca ter assumido que errou. Isso é a pior coisa. Se ele tivesse ficado quieto, acho que não teriam tanta raiva", disparou Zé - em 2018, o juiz deu entrevista a uma TV italiana e voltou a dizer que acertou em sua decisão de não assinalar penalidade de Iuliano em Ronaldo.
"A gente ficou bem nervoso na hora, muito inconformado. Não era possível ele não dar o pênalti pela forma que foi o lance. O Iuliano chegou muito atrasado na jogada e foi só no corpo do Ronaldo. Nem passou perto da bola, porque ela já tinha passado por ele. E, na continuidade da jogada, ele apitou pênalti do Taribo West em um lance muito parecido. Por isso foi todo mundo para cima do juiz", explicou.
De acordo com o ex-meio-campista, a decisão do juiz "desequilibrou" a Inter na parte psicológica, impedindo qualquer chance de reação na partida.
Além disso, ele lembrou que aquela edição do Campeonato Italiano ainda teve vários outros lances polêmicos pró-Juventus, o que acabou prejudicando a equipe de Milão na briga pelo título.
"Depois do lance do pênalti não marcado, nosso time se desequilibrou, não tinha mais como... Entrou na nossa cabeça aquela coisa de que existia uma 'ajuda' para a Juventus", recordou.
"Esse não tinha sido nem o primeiro episódio (de ajuda da arbitragem à Juventus) e já etávamos condicionados a esse tipo de situação, porque, ao longo da temporada, falou-se muito nos lances pró-Juventus contra Udinese e contra o Empoli, que foi um gol não validado que tiraram a bola de dentro do gol. Se tivesse VAR naquela época, eles teriam chegado com menos pontos que a gente ao clássico, e com certeza tudo seria diferente", apostou.
Zé Elias ainda recordou o clima de "velório" no vestiário depois da derrota em Turim.
"No vestiário, todo mundo estava inconformado, cabisbaixo, p***, reclamando e xingando. O que mais me marcou foi a entrevista que o Massimo Moratti [então presidente e dono da Inter] deu dizendo que não tinha sido uma arbitragem ruim, mas sim uma 'questão de camisa', deixando a entender que o Ceccarini era torcedor da Juventus. O Moratti falou tudo aquilo que, nós, jogadores, estávamos pensando", salientou.
Nunca houve qualquer prova de interferência na arbitragem por parte da Juve naquele jogo. Coincidência ou não, estouraria anos depois o escândalo Calciopoli, que rebaixou a "Velha Senhora" para a Série B e tirou dois títulos da equipe alvinegra por relações excusas entre dirigentes e árbitros, referendadas por ligações telefônicas interceptadas pela Justiça italiana.
E, coincidência ou não, o diretor da Juventus na época do Calciopoli era Luciano Moggi, que já trabalhava para os bianconeri na temporada 1997/98.
"Anos depois, tudo veio a público com o Calciopoli, que foi uma vergonha para a Juventus. E (o diretor de futebol da Juve) já era o Luciano Moggi naquela época. Essa temporada (1997/98) ficou muito marcada na Itália pelos vários erros de arbitragem, e a torcida da Inter diz até hoje que o título foi roubado", ressaltou.
"Na bola, nosso time estava de igual para igual com a Juventus. Ficou essa suspeita no ar até hoje. A repercussão na Itália foi péssima, porque todo mundo viu que foi pênalti claro e que o árbitro errou. Não foi uma coisa isolada, pelo contrário. Foi uma unanimidade! E isso tornou tudo pior ainda", seguiu.
"Depois desse jogo, desanimou para a gente. Já havia um histórico (de ajuda de arbitragem à Juventus) e isso condicionou uma reação negativa de todo mundo na Inter", finalizou.
