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Ciel, ex-Fluminense, conta como superou alcoolismo e virou maior artilheiro do Brasil

Aos 39 anos e com 18 clubes diferentes no currículo, o atacante Ciel jamais imaginaria viver o melhor momento da carreira justamente agora. Aos 39 anos, ele é o jogador que mais vezes balançou as redes no Brasil em 2021 (26 gols em 34 jogos).

Depois de começar o ano pelo modesto Caucaia, passou pelo Salgueiro antes de chegar ao Sampaio Corrêa para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro. Nesta sexta, o clube enfrenta o Vasco, em São Januário, pela 10ª rodada.

“Tudo que eu pedi a Deus está acontecendo aqui no Brasil. E eu estou focado em trabalhar para permanecer cada vez mais, até o final da temporada, nesse volume aí”, disse Ciel ao ESPN.com.br.

O artilheiro teve uma vida humilde na roça antes de descobrir o futebol. Cuidava de animais de transporte de carroça ao lado do pai, que foi assassinado ainda jovem em Caruaru, no interior de Pernambuco.

“Quando perdemos nosso pai, perdemos também os animais, que adoeceram e morreram. O lado financeiro apertou, e minha mãe foi trabalhar fora”, disse.

Aos 15 anos, Ciel foi aprovado em um teste no Porto, equipe de Caruaru, e resolveu seguir os passos do irmão mais velho Nildo, que depois foi jogador profissional de clubes como Fluminense, Sport e São Paulo.

O atacante se destacou e foi vendido ao Santa Cruz, tendo apenas 17 anos. Foi a fase em que mais se desenvolveu, tornando-se rapidamente um goleador. Na sequência passou por Juazeiro, Salgueiro e Ceará.

Mas sucesso repentino e a falta de orientação adequada trouxeram consequências.

“Em um dos clubes que passei nessa fase, os caras iam para noite, bebiam e falavam: ‘Aqui só joga quem bebe. Você quer fazer gol? Tu tem que beber, tem que ir para a noite’. Uma vez eu fui com eles e comecei a beber. No outro dia, fiz gol. Aí isso entrou na minha mente e eu digo ‘Olha aí, dá certo mesmo’”, disse.

“Comecei a chegar bêbado em treino, concentração. Eu ia para a noite, era titular e fazia os gols, mas eu sempre acabava mandado embora. Não passava dois meses nos clubes. Os dirigentes falavam ‘Não queremos um mau exemplo’”.

Em 2008, na segunda passagem pelo Ceará, Ciel foi afastado quatro vezes por causa do alcoolismo. Como a fama como goleador falava mais alto, o Fluminense deu ao atacante, então com 26 anos, a maior oportunidade para ele no Brasil.

“Foi o Cuca quem pediu minha contratação pelo que eu fazia dentro de campo, mas a minha cabeça não estava preparada para a fama, o Rio. Eu tinha altos e baixos pelo alcoolismo. Até agradeço o carinho do Branco [então, coordenador de futebol do Fluminense]. Ele me levou na sala dele e disse: ‘Teu potencial é brincadeira. Se você jogar como jogou no Ceará, tu vai pegar seleção’. Ele me dava conselhos, mas eu não estava preparado”, admitiu Ciel.

“Eu bebia demais. As pessoas falavam que era uma doença e eu não acreditava. Eu passava dois, três dias bebendo. Eram muitas mulheres também, muita traição. No Ceará eu não bebia tanto assim. Quando eu cheguei no Fluminense, vi o Rio e vi muita mulher, festa toda hora, aí eu deixei essas coisas me levarem", completou.

Ciel teve o contrato rescindido com a equipe das Laranjeiras após seis meses, sete partidas e nenhum gol.

Ali começou também o período mais tenso da carreira. Em um intervalo curto de meses, vestiu as camisas de América-RN, Ceará, Paços de Ferreira, Guarany de Sobral e Corinthians-AL.

Melhor fase

Após defender o ASA na Série B de 2010, Ciel renasceu. Ele disputou 21 jogos e marcou 14 gols pelo clube. Assim, aos 29 anos, despertou o interesse do Al-Shabab, de Dubai, dos Emirados Árabes.

Em seis temporadas e dois clubes no Oriente Médio, Ciel viveu a melhor fase profissional.

“Eu sempre fui o cara decisivo, tanto em assistências como em gols. Todo jogo eu marcava”, disse o atacante.

O que contribuiu para melhorar o desempenho foi a abstinência de álcool, uma vez que os Emirados Árabes, como país de maioria muçulmana, tem leis bem rigorosas.

“Eu dizia: ‘Vocês já viram carro sair sem álcool ou sem gasolina? Tem de ter combustível. E eu sou assim também’. ‘Se a gente for campeão, a gente libera’, eles respondiam”, relembrou.

Foi também no país árabe que ele conheceu um dos maiores jogadores do planeta: o argentino Diego Armando Maradona. O campeão da Copa do Mundo de 1986 foi treinador do Al-Wasl entre 2011 e 2012 e jogou um torneio de futevôlei em Dubai.

“Colocaram ele para jogar contra o 99 [número de Ciel]. Aí não deu para ele. As pessoas falaram: ‘Ciel, você quer dar pingo [jogada com o ombro] no Maradona?’ Não quero nem saber. Ganhei do cara, fui campeão e levantei o troféu em cima dele”.

"O Maradona foi um cara muito gente boa comigo e atencioso".

Fundo do poço e renascimento

Após seis anos nos Emirados Árabes, Ciel retornou ao Brasil em 2016. Foi contratado pelo Ceará pela quarta vez. A volta teve apelo dos torcedores, mas a verdade é que ele estava prestes a entrar na pior fase do alcoolismo.

“Chegou um momento que ou eu parava ou eu morria. Numa noite eu saí para beber. Quando voltei para casa, comecei a passar mal. Fui para o banheiro e eu vomitei sangue. No outro dia fui para o hospital. Tomei soro. Vi até as pessoas me dando conselho lá: ‘Para de beber, rapaz. Você vai estragar sua carreira...’”, disse Ciel.

“No outro dia eu fui para a igreja e eu me rendi aos pés do Senhor. Falei: ‘Eu quero que o Senhor me dê uma nova oportunidade. Não quero morrer’”, acrescentou.

Quem sugeriu a ida para uma igreja evangélica foi a esposa Rutilene, com quem soma 15 anos juntos.

“Quantas noites perdidas de sono ela teve, sem dormir, orando, chorando. O sonho dela era me tirar desse mundo de bebedeira e festa. Ela foi colocando dentro de mim a palavra do Senhor. Não só ela, mas o Alcinei, que era meu empresário em Dubai, e amigos que são evangélicos, que já falavam isso há muito tempo. Só que eu escutava por um ouvido e saia pelo outro. Tudo tem o momento e a hora certa”, disse.

Ciel lembra que, na fase mais complicada da doença, a esposa e o Ceará queriam interná-lo em uma clínica de reabilitação, mas ele preferiu superar o problema sozinho.

“Não foi fácil. No começo, eu olhava a bebida, me dava vontade de beber e tomava cervejas sem álcool. Eu passei uns dois meses assim. Chegou um momento que eu falei assim: ‘Eu me converti e estou com uma lata de cerveja sem álcool nas mãos? Será que as pessoas que estão me vendo sabem que é cerveja sem álcool? Não. Então, a gente que carrega a imagem do senhor Jesus Cristo tem de ser exemplo’. Aí eu parei, fui lutando todos os dias. Quando dava vontade de beber eu ia orar, eu ia buscar a palavra do senhor. Então, depois de um ano eu me senti melhor”, afirmou.

Ciel passou a cuidar melhor da própria saúde e vem colhendo os frutos. Depois do Ceará, ele voltou por mais dois anos para os Emirados, onde defendeu o Al-Ittihad Kalba e Dibba Al-Fujairah. Em 2018, ele retornou ao Brasil.

A atual boa fase começou no Salgueiro, onde foi contratado em agosto. Chegou a ser emprestado ao Caucaia em janeiro deste ano para a disputa do Cearense. Voltou ao clube pernambucano para jogar parte do Estadual e da Copa Nordeste. Em 18 de abril, acertou com o Sampaio Corrêa.

“Sinceramente, hoje eu agradeço muito a Deus. Aos 39 anos, eu estou conseguindo jogar, levando em conta a intensidade do futebol, por causa do Espírito Santo”, disse.

Cinco anos longe do álcool e sem planos para se aposentar, Ciel quer curtir a ótima fase. Além disso, deseja alertar os colegas mais jovens dos times por onde passou sobre os problemas que viveu.

“Sempre falo nos meus testemunhos da minha vida profissional dentro e fora de campo. Eu sou falho, mas eu trabalho todo dia para não errar. Peço a Ele todo dia para que eu não volte a pecar”, finalizou.