Neste domingo, Internacional e Grêmio se enfrentam no Gre-Nal 431, às 16h (de Brasília), no Beira-Rio, pelo jogo de ida da final do Campeonato Gaúcho.
Um dos clássicos mais lembrados em todos os tempos é o da finalíssima do Gauchão de 1999, que foi decidido por ninguém menos do que Ronaldinho Gaúcho.
Naquele ano, o Colorado ganhou a partida de ida da decisão (1 a 0), enquanto o Imortal devolveu na volta (2 a 0). Com isso, um jogo desempate foi disputado para definir o campeão.
Na "hora do vamos ver", quem apareceu para dar a taça ao Tricolor foi Ronaldinho, que tinha apenas 19 anos, mas já era visto como grande prospecto do futebol brasileiro para os anos 2000.
A partida também ficou marcada por R10 ter dado um chapéu humilhante em ninguém menos do que Dunga, que havia sido a grande contratação do Inter para aquela temporada.
Em entrevista ao ESPN.com.br, o técnico Celso Roth, campeão gaúcho de 1999 com o Grêmio, lembrou seu trabalho com Ronaldinho e a grande final de 1999.
"Bati e olho e falei: 'Esse aí vai ser craque'"
No início da sua carreira no futebol, Roth era preparador físico da comissão técnica de um tal Luiz Felipe Scolari, que iniciava trajetória de treinador.
No final dos anos 80, ele viu pela primeira vez um garoto franzino bater na bola, mas logo ali já teve certeza que estava diante de um futuro craque.
"Fui trabalhar como preparador físico do Felipão no Grêmio, em 1987, e nós tínhamos um time muito bom. Um dia, o Assis levou o irmãozinho mais novo dele, de apenas 7 anos, para o treino. Era o Ronaldinho!", contou Roth.
"Num momento da atividade, o Ronaldinho ficou batendo bola no gramado com os jogadores, na brincadeira. Eu e o Felipão batemos o olho no jeito que ele batia na bola e, em poucos minutos, olhamos um para o outro e dissemos: 'Esse aí vai ser craque!", recordou.
Segundo o comandante, atualmente com 63 anos e atualmente sem clube, R10 deixou até mesmo os atletas gremistas impressionados.
"O que o Ronaldo fazia com a bola junto com o Assis e outros caras consagrados, como Valdo, Cristóvão Borges, Paulo Bonamigo, China, Lima, Alfineta, deixou todos abismados. Ele demonstrou ali que já era futuro craque. Antes mesmo de virar profissional a gente já sabia que ele seria diferente", exaltou.
"E, anos depois, quando eu assumi o Grêmio como técnico, eu sabia que era questão de tempo até ele explodir de vez", rememorou.
Banco do Itaqui? Mais ou menos...
Roth iniciou sua carreira de técnico no começo dos anos 90.
Após ser campeão gaúcho pelo Internacional, em 1997, ele assumiu o Grêmio no ano seguinte, exatamente quando Ronaldinho deixou a base tricolor e foi para o grupo profissional.
Foi justamente nessa época que surgiu uma das maiores lendas da história do futebol brasileiro: a de que Roth deixava Ronaldinho no banco para que o meia Itaqui, que havia sido contratado do Juventude, fosse titular.
No entanto, o treinador relata que R10 muitas vezes estava indisponível para jogar e treinar, já que era frequentemente convocado pelas seleções brasileiras de base, que se preparavam para os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.
"Quando eu cheguei ao Grêmio, no 2º semestre de 1998, o Ronaldo já estava na equipe principal do Grêmio, mas quase não tinha sequência no time, porque sempre estava viajando com a seleção brasileira de base", recordou Roth.
Isso não quer dizer que o craque tenha jogado pouco em 1998.
Na verdade, ele fez 31 partidas e marcou 6 gols (Itaqui, por sua vez, fez 45 jogos, e também anotou 6 vezes).
Deslanchou em 1999
No início de 1999, as convocações da seleção deixaram Roth "em paz" por um período, e o treinador conseguiu colocar Ronaldinho para jogar mais pelo Grêmio no Campeonato Gaúcho.
Segundo lembra o comandante, ele já demonstrava claramente que era muito diferenciado, mas ainda tinha algumas coisas a melhorar em quesitos táticos.
"Tivemos a experiência de colocá-lo na equipe em alguns jogos duros contra as equipes do interior, com marcação forte. O Ronaldo já tinha qualidade técnica incrível, mas ele ainda precisava aprender algumas coisas. A principal delas era jogar sem a bola", apontou.
"Foi nessas partidas que ele aprendeu isso. Aos poucos, ele virou titular da equipe, foi o artilheiro do Gauchão [15 gols], o melhor jogador da competição e fez o gol decisivo do título. Aquele Estadual foi inesquecível, principalmente a final", salientou.
Roth, inclusive, diz que o Gre-Nal decisivo pela finalíssima do Gauchão de 1999 é seu favorito pelo Grêmio entre tantos que disputou na carreira.
"O clássico pelo Grêmio que mais me marcou foi a final de 99. Foram nessas finais que o Ronaldinho deu um chapéu e um elástico no Dunga. Não teve como não ficar marcado, porque foi o primeiro título dele no profissional", ressaltou.
A atuação mágica de R10 contra o Inter, aliás, seria a responsável por colocá-lo de vez na seleção brasileira principal.
"O mais curioso é que o Edílson 'Capetinha', do Corinthians, estava convocado pra Copa América pelo Vanderlei Luxemburgo, mas, depois da briga na final do Paulista com o Palmeiras, ele acabou cortado. E o Ronaldinho foi chamado, fez aquele golaço contra a Venezuela e virou tudo aquilo depois!", exclamou Roth.
Por fim, o treinador lembra com muito carinho os tempos que trabalho com Ronaldinho e elogiou muito o cuidado que a mãe do meio-campista, Dona Miguelina, que faleceu recentemente, teve em sua criação.
"A família do Ronaldo era muito presente no dia-a-dia do Grêmio. Lembro que a mãe dele era muito preocupada com ele e participava demais na formação. Nós nos falávamos bastante sobre a situação dele, porque ele surgiu muito jovem", recordou.
"Tive a felicidade de trabalhar no começo de carreira com esse monstro sagrado do futebol. Ele teve uma carreira fantástica", celebrou.
E o Gre-Nal deste domingo?
Questionado sobre a grande final deste domingo, no Beira-Rio, Roth prefere não palpitar placar, mas vez sua análise do clássico.
"O Gre-Nal é um clássico que diferente. O momento das duas equipes é de mudança, porque o Grêmio vinha de uma sequência muito grande com Renato Gaúcho. O Tiago Nunes não mudou muito a forma do time jogar. Existe uma expectativa de como será esse Grêmio", apontou.
"Já o Inter tem um treinador muito jovem [Miguel Ángel Ramírez], que veio de um país diferente e está se adaptando ainda para colocar em prática as suas ideias. Ele sofre com alguns altos e baixos, mas já sentiu como é um Gre-Nal. Espero seja um grande jogo e bem gostoso de se ver", finalizou.
