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Totti acima da média e técnico maluco: as histórias do ex-Inter que foi para a Roma 'da noite para o dia' e quase jogou no Palmeiras

Jonatan Lucca em ação pela Roma David Banks/Getty Images

Revelado na base do Internacional, Jonatan Lucca saiu muito cedo do Brasil e rodou pelo mundo. Aos 17 anos, ele havia se destacado entre os juvenis e estava prestes a ser efetivado pelo técnico Dorival Júnior para o elenco principal. No entanto, o jovem viu seus planos mudarem quando vieram propostas de dois gigantes italianos.

"O meu empresário disse que tinha uma oferta da Roma para o time principal e da Juventus para o sub-23. O Inter queria renovar comigo e fiquei na dúvida porque meu pai é colorado. Mas sabia que nada era garantido, pensei bem e decidimos ir para a Europa porque poderia não aparecer outra chance", disse ao ESPN.com.br.

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A Roma pagou 700 mil euros para tirar o jogador do Beira-Rio. A venda causou polêmica à época, pois vários diretores eram contra a saída do volante.

"Foi assim que aconteceu a minha venda: da noite para o dia. Um dia eu estava indo embora do alojamento e o diretor do profissional parou o carro na minha frente e falou que não sairia. No outro, sai como se fosse ao mercado, deixei as minhas coisas e fui embora. Depois, alguém foi pegar tudo para mim".

"Fui ao RH e assinei as coisas e fiz tudo correto. O pessoal da base comenta até hoje que foi surreal porque tinha 17 anos. Nunca tinha treinado no profissional e isso repercutiu muito", contou.

Apresentado pela Roma em 2012, Jonatan conviveu com jogadores campeões da Copa do Mundo pela Itália como Totti, Perrotta e De Rossi. Além disso, a equipe tinha brasileiros como Juan, Fábio Simplício e Taddei, além do argentino Burdisso. "Eram caras que só conhecia pelo videogame, que me trataram muito bem. Foi um choque, mas foi muito marcante".

"O Pjanic jogava demais. Era surreal o que ele fazia nos treinos. Ele me contou que aprendeu muito com o Juninho (Pernambucano no Lyon). O Totti era muito na dele e reservado, mas brincava de vez em quando. A qualidade dele era acima da média mesmo estando mais velho. O (atacante Pablo) Osvaldo era maluco demais, fizemos um pouco de amizade. Às vezes ele brigava e discutia, mas era uma boa pessoa. Era do rock e chegou a virar cantor".

Ele participou da pré-temporada do time profissional nos EUA e sofreu no começo até entender como funcionava o estilo italiano de jogar futebol.

"No meu primeiro treino, o De Rossi estava bravo porque tinha perdido a final da Euro (para a Espanha). Recebi a bola e fui girar, mas ele me acertou um carrinho que foi muita falta! Mas não marcaram porque eu era um garoto de 18 anos (risos). Ele deu dois tapinhas na minha cara e falou: 'Bora, bora!' Era um cara sensacional!"

'Sentia tanta dor que chorei'

O treinador era o excêntrico técnico Zdeněk Zeman, conhecido pelas maluquices no dia a dia e pelo esquema tático extremamente ofensivo.

"Zeman foi o treinador mais louco que tive na minha carreira. Só dava treino físico. A gente fez tanto treino físico na pré-temporada Áustria que meu corpo sentia tanta dor que chorei. Isso que eu tinha 18 anos! Tanto é que todos os caras mais velhos foram embora porque não iriam aguentar isso o ano todo. A gente tinha o melhor ataque e uma das piores defesas (risos). Nosso time no papel era um timaço! Dava para brigar pela Champions, mas não pegamos vaga na Liga Europa". lamentou.

Jonatan treinou a temporada toda com o time principal e foi relacionado para muitos jogos no banco de reservas, mas nunca entrou em campo durante uma partida oficial. Em compensação, era bastante utilizado na equipe de base.

"Minha vida era uma loucura. O problema é que eu não tinha treinado com eles e ficava um clima chato porque tirava a vaga de um dos garotos da base. Quase toda semana era assim, mesmo quando o nosso jogo era fora de casa eu precisava voltar para jogar", contou.

"Era muito jovem e cheguei muito bem adaptação foi muito rápida. O Zeman gostava de colocar os jovens para jogar. Acabei me desgastando muito mentalmente porque estava sozinho. O Marquinho (ex-Fluminense) era um pai para mim e me adotou. Talvez faltaram algumas oportunidades de ter uns minutos e pegar confiança".

"No ano seguinte, quis sair mesmo tendo contrato por quatro anos. Essa situação me desgastou".

Ofertas de Palmeiras e Athletico-PR

A Roma queria emprestá-lo para um clube da Serie C Italiana em 2014, mas o jovem queria retornar ao Brasil.

"Surgiu o Palmeiras, que estava se reestruturando, e o projeto do Athletico-PR era melhor porque ia jogar a CONMEBOL Libertadores e apostava em jovens. Achamos melhor ir para o Athletico. Foi o ano que o Palmeiras quase caiu (no Brasileirão)".

Após fazer poucas partidas pelo "Furacão", o volante foi emprestado para o Guaratinguetá para a Série C do Brasileiro de 2015 em uma parceria entre os clubes. Em seguida, recebeu um convite de Zico para jogar no Goa, da Índia, ao lado de outros brasileiros como Lúcio, Reinaldo, Léo Moura e Rafael Coelho

"Foi uma experiência muito boa porque fomos vice-campeões da Super League. A liga era bem organizada e os estádios estavam sempre cheios. A gente morava num hotel cinco estrelas e do lado existia uma pobreza grande. Isso era triste", contou.

Em 2016, o volante se aventurou por sete meses no Kelantan, da Malásia, mas não teve uma passagem feliz. "Eu não falava muito bem inglês e eu era o único brasileiro. Meu pai faleceu e, para piorar, fiquei quatro meses sem receber".

Jonatan voltou para a Índia em 2017 e jogou duas temporadas no Pune City ao lado de medalhões como o atacante Gudjohnsen (ex-Barcelona) e o volante Sissoko, campeão da Champions de 2005 pelo Liverpool.

Frio na Noruega

Depois disso, o brasileiro jogou quatro anos em Portugal por Belenenses e Farense. No período, ele participou da elite portuguesa e também conseguiu acessos. No começo de 2023, foi contratado pelo Stabaek, da Noruega. Atualmente, o volante, de 28 anos, é titular absoluto da equipe que disputa o Campeonato Norueguês.

"É um país muito bom para se viver. É muito caro, nunca vi nada igual, mas a estrutura é sensacional. Está entre os melhores do mundo. Todo mundo fala inglês e é super desenvolvido".

"Por causa da neve, o campeonato vai de abril até dezembro. Nunca fiz tanta pré-temporada na vida (risos). Quero jogar e abrir mercado e subir na carreira. O clube é muito organizado e podemos surpreender na temporada. O mercado cresceu bastante depois do sucesso do Haaland e do Odegaard, eles tem vindo buscar muitos jogadores no país".